28 de outubro de 2026

O povo na rua contra a distopia do algoritmo, por Charles Pontes Gomes

O exército digital de Lula ocupou um território que parecia cativo e virou do avesso as mesmas ferramentas que alimentavam o ódio.
Lula 2026 - Foto de Ricardo Stuckert

Eleições 2026 surpreendem com vitória de Lula, desmentindo pesquisas e algoritmos que favoreciam Flávio Bolsonaro.
Algoritmos amplificam medo e desinformação, influenciando eleitores e banalizando ameaças à democracia e ao Judiciário.
Mobilização nas ruas e redes digitais reverteu cenário, mostrando que a democracia depende da ação da sociedade civil.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

O povo na rua contra a distopia do algoritmo

por Charles Pontes Gomes

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Eleições, outubro 2026
Pesquisas erram sempre para o mesmo lado, algoritmos lucrando com o medo, um jornalismo banalizando a autocracia, redes ocupadas, ruas cheias, o pulsar da vida cívica, Brasil exibe sua democracia participativa

Na noite de 25 de outubro, quando o Tribunal Superior Eleitoral encerrou a contagem, terminou também uma ficção. Durante semanas, o país viveu dentro de um romance escrito a muitas mãos por institutos de pesquisa, bancadas de comentaristas e algoritmos de plataforma. Era um romance de final anunciado, em que Flávio Bolsonaro subia a rampa do Planalto e o Brasil, cansado, aceitava a troca como quem muda de canal. Na véspera, os principais institutos davam vantagem ao senador. Os números falavam em empate, mas o tom das manchetes já ensaiava a posse. Quando o último boletim caiu, Lula estava reeleito com folga de mais de três pontos, o primeiro presidente a virar uma eleição do primeiro para o segundo turno desde a redemocratização. O romance terminou numa página que ninguém havia escrito.

Autópsia de um erro

Seria cômodo rir dos oráculos e seguir adiante. Institutos erram, e estes erraram nos dois turnos, ora para um lado, ora para o outro. O perigo mora no que o erro produz quando se repete. Uma pesquisa registra, mas também empurra. Diz ao indeciso quem já ganhou, ao financiador onde apostar, ao comentarista que tom adotar e ao candidato que talvez já possa escolher seus ministros. Quando a fotografia sai tremida sempre do mesmo jeito, deixa de retratar a realidade e passa a fabricá-la.

A pesquisa, porém, nunca trabalhou sozinha. Ela fornece o número, e o algoritmo se encarrega da emoção. As plataformas não perguntam se uma proposta é constitucional, se uma acusação tem prova, se um vídeo é deste ano ou de outro. Perguntam apenas se ele prende o polegar. E nada prende mais do que o medo. O extremismo entendeu isso antes de todo mundo e escreveu sua cartilha. Há o capítulo do susto, que anuncia a ruína iminente da família, da fé e do país. Há o do complô, que enxerga em cada revés uma conspiração de juízes, jornalistas e comunistas. E há o do perseguido, que transforma qualquer investigação em martírio e qualquer condenação em prova de pureza. É um gênero literário próprio, com vilões fixos e um herói que nunca erra, e o feed o distribui como se fosse notícia.

Nesse ambiente, a narrativa ganha estatuto de fato, a impressão vale mais que o documento e a emoção é a única moeda em circulação. O preconceito antigo encontra ali uma câmara de eco perfeita: cada vídeo confirma o que o eleitor já temia, e cada confirmação pede outro vídeo. A fala autoritária, que num plenário soaria como ameaça, chega ao celular embalada como indignação legítima. O tom de revolta vira estética. A proposta de reformar o Supremo some atrás de trinta segundos de raiva bem editada, e ninguém, no fluxo infinito, para para perguntar o que aquilo significa.

É a desdramatização levada ao limite: a política perde o peso das consequências e ganha a leveza do entretenimento. O primeiro turno passou assim, sem que se debatesse uma única ideia de fôlego. Discutiu-se quem subia e quem caía nas pesquisas, quem apoiaria quem, quantos pontos separavam um nome do outro. A corrida virou turfe, e o eleitor, apostador. Nos debates de televisão, aqui e ali, uma proposta conseguia romper a crosta, fosse o fim da escala 6×1, a segurança pública ou o futuro do Supremo, mas logo era engolida pelo corte seguinte e pelo meme da noite. Uma democracia que não discute o que está em jogo transforma o voto em palpite. E palpite se ganha com propaganda, raramente com argumento.

 Essa engrenagem tem donos, e eles não são neutros. Em 2021, uma funcionária do Facebook revelou ao mundo o que a própria empresa já sabia: seu algoritmo premiava a raiva. Nada mudou de essencial. A Meta abandonou a checagem de fatos e afrouxou as regras contra o discurso de ódio, num gesto de alinhamento com o novo poder em Washington. Musk fez do antigo Twitter uma trincheira pessoal e desafiou a Justiça brasileira até ver a plataforma fora do ar no território brasileiro. Não são interlocutores desatento.. São barões de um negócio que lucra com a indignação e, por isso mesmo, alimenta o ódio.

 Diante deles, o Estado brasileiro fez pouco. A principal reação veio do Supremo Tribunal Federal, que decidiu que as plataformas digitais podem ser responsabilizadas pelos conteúdos ilegais que deixarem circular. Como era de se esperar, quem lucra com a desordem acusou os ministros de censura. Mas a decisão teve um mérito importante: reconheceu algo que o país preferia ignorar. O algoritmo, que escolhe o que cada pessoa vê, não é neutro; ele também é um ator político. E é a partir dele, alimentado pela pesquisa sobre o comportamento dos usuários, que se constrói uma distopia que já não se limita às telas e chega às ruas.

Banalização da Autocracia

Nessa distopia, também o jornalismo corporativo das grandes emisoras de televisão cumpriu um papel que merece ser nomeado: tratou como rotina o que deveria ter sido manchete. O candidato que liderava as pesquisas é filho de um ex-presidente condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Um  homem cuja pena o Congresso, depois da proposta do PL, partido de Flavio,  tratou de aliviar em abril, derrubando o veto presidencial. E o filho nunca escondeu a que vinha. Faz parte também do manual da extrema direta no mundo deslegitimar o papel do Supremo usando do deboche, gozo e ironia. Faz sempre declarações raivosas acusando de farsa o julgamento do pai feito no plenário da corte por todos os juízes e prometeu indultá-lo se eleito, cuidando de antemão para que o Supremo não pudesse desfazer o perdão. Prometeu reformar o Judiciário para reduzir o alcance da instituição, sem jamais explicar como, essa é também uma técnica recorrente pois em nenhuma de suas prontas ele é capaz de elaborara de maneira mais específica. Quis restringir o acesso a um dos instrumentos jurídicos que, na pandemia, permitiram à Corte conter os excessos do governo do pai. Outra proposta comum da extrema direita, ele também apresentou, visa mexer nas regras do jogo eleitoral, a começar pelo fim da reeleição e por um mandato estendido para cinco anos. Na noite da derrota, no modelo “promoção de escândalo” pra rede social, ele nos entrega a cereja do bolo: diante da imprensa, irritado declara  ser impossível reconhecer o resultado e anunciou que pedirá a anulação do segundo turno.

Postas lado a lado, as peças formam um desenho de clareza quase escolar. Libertar quem tentou o golpe, enfraquecer o tribunal que o condenou, estreitar as portas por onde a sociedade aciona a Justiça, alongar o tempo no poder e, quando as urnas dizem não, recusar o placar. O pai tentou o atalho; o filho propôs a estrada pavimentada. O destino é o mesmo: ampliar os poderes do chefe do Executivo e encolher tudo aquilo que possa contê-lo. O compromisso nunca foi com a democracia, sempre com o poder. Ainda assim, durante boa parte da campanha, essas propostas foram servidas ao público sem alarde, como mais uma pauta entre outras, ao lado da alíquota do imposto e do preço do diesel, no tom neutro de quem lê a previsão do tempo. Raras entrevistas insistiram numa segunda pergunta.

Banalizar propostas que minam a democracia é a forma mais elegante de normalizar o abuso de poder. Ninguém precisou defender às claras a captura do Judiciário; bastou não perguntar por ela. A mudança constitucional virou nota de rodapé, o indulto ao golpista virou gesto de piedade filial, a ameaça às instituições virou questão de estilo, e a campanha inteira ganhou o verniz de uma disputa corriqueira entre centro-esquerda e direita. Faltou a palavra certa, e quando falta a palavra, a coisa avança sem nome. Desta vez, a autocracia tinha nome, sobrenome e programa. Só faltou quem o lesse em voz alta.

Do susto ao engajamento

A esquerda demorou a entender essa máquinaria. Durante o primeiro turno, deixou o terreno quase livre, apostando no horário eleitoral e nos palanques, como se o país ainda se informasse pela televisão. Não se informa mais. A maioria dos brasileiros conectados encontra hoje nas redes e nos aplicativos de mensagem a sua principal janela para o mundo, à frente da TV e do rádio.

O resultado do primeiro turno caiu como um balde de água fria, e foi do susto que nasceu o engajamento cívico. A campanha reconheceu que havia subestimado a linguagem das redes, e o próprio presidente passou a falar direto para a câmera do celular. Uma geração recém-saída das urnas foi chamada a ocupar a linha de frente: jovens parlamentares que deviam seus mandatos justamente às plataformas, como Ana Elisa, em Minas, e Guilherme Cortez, em São Paulo. Em poucos dias, essas vozes passaram a rivalizar com os influenciadores da direita, e o placar do engajamento, que pendia para Flávio, virou.

O general desse exercito foi o deputado André Janones. Seu canal no WhatsApp, o Exército do Lula, multiplicou-se depois do primeiro turno e chegou a mais de 10 milhões de seguidores, muito acima da trincheira montada pelo bolsonarismo. Dali saíam, todos os dias, ordens, planos e roteiros: o que postar, onde comentar, que vídeo empurrar. Os métodos nem sempre escaparam à crítica, e a Justiça Eleitoral teve de arbitrar mais de um episódio. Mas, pela primeira vez em muitos anos, a extrema direita deixou de ser dona exclusiva do território digital.

Quando a rua retoma seu valor

A rede, porém, só pesou porque tinha rua por trás. Uma alimentou a outra. Da Ceilândia à Avenida Paulista, entidades estudantis, sindicatos, associações profissionais, grêmios e coletivos sem nome formaram, nas semanas entre os turnos, uma maré constante em defesa das instituições. A conversa sobre o respeito ao voto saiu dos tribunais e foi parar na mesa do bar e no grupo da família. Aquilo que as plataformas apresentavam como mais um candidato, essas vozes passaram a chamar pelo nome.

E os nomes pesaram. Na segurança pública, voltou à superfície o passado do deputado estadual que homenageou na Alerj policiais depois apontados como chefes de milícia, entre eles Adriano da Nóbrega, e que empregou parentes dele em seu gabinete. No mundo do trabalho, a ideia de trocar o fim da escala 6×1 por um regime de pagamento por hora, a PEC 12/2026 de Rogério Marinho, coordenador da campanha, esbarrou na desconfiança de quem vive atrás da próxima corrida no aplicativo. “Quem quer trabalhar mais, vai trabalhar mais”, disse o candidato. O trabalhador ouviu o resto da frase, aquele que ninguém pronunciou: quem não puder, que se vire. Liberdade sem dinheiro no bolso é só um nome bonito para o desamparo.

O que Juiz de Fora ensina

A aritmética das alianças apostava num desfecho e as urnas entregaram outro. Os candidatos do centro e da direita derrotados no primeiro turno declararam, em sua maioria, apoio a Flávio, e a leitura dominante, embalada pelas pesquisas, era a de que seus milhões de eleitores marchariam em bloco para a extrema direita. Bastava somar. Não bastou. Entre um turno e outro, Lula ganhou quase três vezes mais votos novos do que o adversário.

Juiz de Fora, entre as montanhas da Zona da Mata, permite ver esse movimento a olho nu. A cidade já pendia para Lula, e os candidatos do centro e da direita somaram ali algumas dezenas de milhares de votos no primeiro turno. Pela lógica das pesquisas, essa herança deveria engordar a votação do senador. Aconteceu o contrário. Flávio, que dependia desses eleitores, mal saiu do lugar, e ficou, na melhor das hipóteses, com um terço do espólio. Como a abstenção caiu em quase toda a cidade, o restante não ficou em casa: tudo indica que foi para Lula, que virou o resultado em bairros inteiros e terminou com a vitória mais larga entre as grandes cidades mineiras. Em Juiz de Fora fica evidente o que o país inteiro confirmou: a maioria dos eleitores do centro e da direita moderada não seguiu seus líderes rumo a Flávio. Atravessou a ponte na direção oposta.

A cidade não chegou a isso por acaso. Logo depois do primeiro turno, estudantes das universidades, sindicalistas e eleitores sem filiação desceram as ruas em defesa da democracia. Uma passeata não imprime voto. Mas é preciso muita miopia para não ver que a fervura das ruas fez o eleitor moderado pensar duas vezes antes do salto no escuro da extrema direita.

O manual que corre o mundo

O Brasil não inventou esse roteiro do líder sedento por ampliar o próprio poder. Ele circula pelo mundo como um manual traduzido em várias línguas, e o capítulo central é sempre o mesmo: primeiro domesticar, depois silenciar as instituições que têm o poder de dizer não.  Na Hungria, Viktor Orbán reescreveu a Constituição, antecipou a aposentadoria de juízes e povoou a Corte Constitucional de aliados ao longo de dezesseis anos. Em El Salvador, Nayib Bukele usou a maioria parlamentar para destituir, numa única sessão, os magistrados da sala constitucional e o procurador-geral; os novos juízes logo abriram caminho para a reeleição que a Constituição proibia. Nos Estados Unidos, Donald Trump pediu o impeachment de juízes que contrariaram o governo e voltou a atacar a Suprema Corte quando ela barrou suas tarifas. Na Itália, Giorgia Meloni apostou numa reforma que separava as carreiras de juízes e promotores e redesenhava o órgão que governa a magistratura.

Nenhum desses governos chegou de farda. Todos chegaram pelo voto, falando em eficiência, em combate ao ativismo, em devolver o poder ao povo. O autoritarismo do nosso século veste terno, fala manso e usa a lei para corroer a própria lei. O manual, porém, tem um capítulo que seus autores preferem esquecer: ele também pode ser lido de trás para a frente. Em março, os italianos rejeitaram nas urnas a reforma judicial de Meloni. Em abril, depois de dezesseis anos, Orbán reconheceu a derrota para Péter Magyar. Em outubro, chegou a vez do Brasil. Em nenhum desses casos a virada saiu de um algoritmo. Saiu de gente.

A lição que não pode esperar

Esta eleição deixou à mostra os limites da distopia. Os donos das redes sociais calibram o algoritmo, decidem o que sobe e o que afunda, mas não controlam o que milhões de pessoas resolvem fazer com ele. O exército digital de Lula ocupou um território que parecia cativo e virou do avesso as mesmas ferramentas que alimentavam o ódio, dentro de plataformas cujos donos nunca esconderam de que lado estão. A máquina tem dono. O destino, não.

A distopia da corrida de cavalos que virou o debate político sobre os candidatos pede outro remédio. Uma pesquisa que erra sempre na mesma direção induz o eleitor ao erro, aponta o vencedor antes da hora e empurra o indeciso para a manada. Ninguém precisa calar os institutos, mas é preciso exigir deles mais do que um gráfico. Na França, o Cevipof, centro de pesquisa política da Sciences Po, mantém com o Ipsos, o Le Monde e a Fundação Jean Jaurès a Enquête Électorale, um painel de mais de 12 mil eleitores entrevistados de novo, onda após onda, ao longo de toda a campanha. Ali se acompanha o mesmo grupo de pessoas no tempo, em vez de fotografias soltas de gente diferente a cada semana. As intenções de voto são calculadas apenas entre quem se declara absolutamente certo de que vai votar, e o eleitor potencial, o pendular, aquele que hesita entre ficar em casa e escolher um lado, é estudado à parte, com o peso que merece. É dessa zona cinzenta que saem as viradas, e foi justamente ela que nossos institutos não enxergaram. Nenhum número deveria circular sozinho, nem reduzido ao par de sempre, espontânea e estimulada. Sem o filme, a fotografia mente.

Fica o alerta, para o Brasil e para cada país onde um governante ou candidato ao governo que sonha com juízes de joelhos: a democracia raramente morre de um tiro só. Morre aos poucos. Morre de pequenas concessões que ninguém nota, de reformas vestidas de técnica, de manchetes que trocam o conteúdo pelo placar, de feeds que trocam a verdade pela raiva. E sobrevive, quando sobrevive, porque ainda há uma sociedade que respira. Em outubro, essa sociedade saiu do anonimato das estatísticas e ganhou rosto. Eram estudantes de mochila nas costas, professores que trocaram a sala de aula pela praça, sindicalistas de voz rouca, associações de bairro, coletivos de cultura, entidades de todo tipo e milhões de eleitores sem partido nem crachá, que saíram de casa por conta própria. Ocuparam as ruas das capitais e das cidades médias, da Paulista ao calçadão de Juiz de Fora, de Ceilândia a tantas praças que nenhum jornal registrou, para gritarem em voz alta o nome do perigo à nossa sobrevivência democrática. Nenhum algoritmo previu essa multidão de gente Brasil afora. Nenhuma pesquisa soube medi-la. Foi ela que salvou a República. A sociedade civil que um dia fez de um metalúrgico um líder voltou às ruas para lhe confiar o último mandato e, no mesmo gesto, lembrar ao país a quem pertence a democracia

Charles Pontes Gomes é pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa, tem um doutorado em Ciência Política.

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