29 de outubro de 2026

Brazil com Z, Flávio com V e Kássio com K, por Luis Felipe Miguel

Em questão de horas, Flávio, com V de Vorcaro, passou de pretenso salvador do Brasil a lixo tóxico.
Flavio com V em foto de Vittor Sales - Divulgação

Flávio Bolsonaro fugiu para os EUA após derrota, priorizando escapar da justiça em vez de liderar a direita.
Carta escrita por ChatGPT gerou vexame e acelerou transição da direita para o pós-bolsonarismo.
Lideranças do PL reconhecem vitória de Lula; Judiciário adota postura mais firme contra o clã Bolsonaro.

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Brazil com Z, Flávio com V e Kássio com K, por Luis Felipe Miguel

Na hora H, Flávio mostrou que está mais preocupado em escapar da justiça do que em liderar seu grupo. A fuga e a cartinha do ChatGPT podem ter acelerado a transição da direita para o pós-bolsonarismo.

“Vexame” é a palavra que define a cartinha que o candidato derrotado Flávio Bolsonaro divulgou assim que se homiziou nos Estados Unidos. Ou melhor: “cartinhas”, no plural, já que foram se sucedendo versões, como se ele não tivesse sequer lido, antes de publicar, aquilo que o ChatGPT tinha escrito para ele. Corrigiu o brasão da República, acertou a grafia do nome do próprio país, passou de “presidente eleito” a “presidente”, de “presidente” a “líder”, se nunca deixar de ser apenas um mau perdedor.

A carta, em si, nem merece comentário, de tão tosca que é. Mas tem um ponto ao qual quero me referir, pela centralidade que tomou na narrativa golpista pós-segundo turno, que é a ideia da “impossibilidade matemática” da vitória de Lula.

Isso não tem pé nem cabeça. Se fosse impossível virar a votação, não seria necessário um segundo turno. Sim, cálculos simples mostram que o recuo da abstenção basta para ter produzido a votação de Lula. Mas, além disso, cabe sempre lembrar que o voto do primeiro turno não vincula o voto do segundo turno, isto é, o eleitor pode mudar sua escolha. Se Lula tivesse obtido 100% dos votos no segundo turno, poderíamos falar de uma impossibilidade política, mas não de uma impossibilidade matemática. A única impossibilidade matemática seria se ele tivesse obtido mais votos do que o total de eleitores registrados.

O fato é que, surpreendendo um total de zero pessoa, Flávio Bolsonaro priorizou escapar da justiça brasileira a liderar a direita. O que joga luz sobre todo o processo que o levou a ser candidato.

Quando Jair escolheu Flávio, a primeira impressão era de que se tratava de um factoide. Um sujeito fraco, frouxo, sem luz, com telhado de vidro muito evidente: por que ele? Além disso, parecia que, para o primogênito dos Bolsonaro, era mais negócio garantir uma eleição tranquila para senador, isto é, mais oito anos de foro privilegiado. E evitar a exposição que uma campanha presidencial inevitavelmente traria.

Bom, a exposição veio mesmo e nos fez entender. A amplitude e a gravidade dos esquemas em que Flávio Bolsonaro estava metido é tão grande que talvez o mandato de senador fosse insuficiente para protegê-lo. Ganhar a presidência era, portanto, um imperativo de autopreservação.

Não deu certo e ele teve que partir para esse exílio dourado nos Estados Unidos. Cabe agora à justiça brasileira proceder celeremente, ir atrás dos ativos em nome de Flávio e de seus laranjas, congelar suas propriedades. Quem sabe, lá de Miami, ele acabará tendo que fazer o que nunca fez antes: trabalhar para ganhar a vida.

O vexame parece ter acelerado o processo de conversão da direita brasileira para o pós-bolsonarismo. Falei disso no texto de ontem: é ilusório pensar que veremos magicamente surgir uma direita civilizada e respeitosa da democracia. O mais provável é que, com a erosão da liderança da família Bolsonaro, a gente veja um distanciamento, mas não uma real ruptura.

No momento, ainda é muito arriscado, do ponto de vista eleitoral, de fato romper. Temos aí os inúmeros exemplos de todos aqueles que tentaram esse passo e viram acabar as suas carreiras políticas: Joice Hasselmann, Alexandre Frota, Otoni de Paula. Janaína Paschoal tentou manter uma posição de certa independência e também não se elegeu. Sérgio Moro, com a falta de dignidade que lhe é característica, voltou com o rabinho entre as pernas. E assim por diante.

Assim, o caminho parece ser prestar uma homenagem ritual ao velho Jair, mas ignorar sua liderança decadente. Mas não é só a homenagem ritual: ainda parece ser necessário entregar à base a dose de radicalismo a qual ela se acostumou.

Só que agentes políticos dotados de um mínimo de racionalidade pensam duas vezes antes de embarcar num projeto golpista derrotado de antemão. Depois do 8 de janeiro, tivemos um movimento similar, de recolhimento e afastamento de vozes importantes da direita bolsonarista. O movimento foi contido e revertido pela capacidade da direita barrar boa parte da resposta das instituições e emplacar, pelo menos para consumo próprio, o discurso de que aquilo não tinha sido uma tentativa de golpe. Mas, agora, o ChatGPT de Flávio Bolsonaro fechou essa porta.

Por isso, Valdemar Costa Neto, presidente do PL, se apressou em reconhecer a vitória de Lula. Velho sobrevivente de muitas batalhas, nas quais sempre envergou as cores do fisiologismo mais desavergonhado, ele soube que era a hora de se desatrelar do candidato de seu partido. Tarcísio de Freitas, o governador de São Paulo, menos sábio, ecoou a cantilena de Flávio num primeiro momento, mas já deu um passo atrás e também admitiu o resultado da eleição. Rogério Marinho, o coordenador da campanha derrotada, declarou que não existe sinal de fraude. Sua cara de desalento na entrevista coletiva que concedeu após a fuga de Flávio é impagável. É a prova provada de que o candidato derrotado prioriza seu interesse pessoal sem sequer conversar com os aliados mais próximos.

A imprensa notícia que já há parlamentares pensando em deixar o PL. Percebem que a liderança do clã está fazendo água, que veremos uma briga de foice no escuro para decidir quem vai herdar o espólio, entendem que estarão mais confortáveis se refugiando no Centrão. É um movimento muito positivo, nas atuais circunstâncias.

De muitas outras lideranças da direita, o que se vê é o silêncio. Michelle Bolsonaro usa o truque fácil de se refugiar na posição de “mulherzinha“, mais preocupada com o lar do que com a República. Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, toda a tropa de choque digital do bolsonarismo simplesmente finge não ver o que está acontecendo.

Em questão de horas, Flávio, com V de Vorcaro, passou de pretenso salvador do Brasil a lixo tóxico.

Francisco Goya, Cena de guerra (1812)

Envolvido com as eleições de meio termo, das quais provavelmente sairá derrotado, portanto mais preocupado com seu próprio projeto de golpe para não reconhecer o resultado, Trump já deixou claro que terá um envolvimento mínimo no desenrolar dos acontecimentos brasileiros. Não quis isso faça a diferença, porque tudo indica que Flavio Bolsonaro já deu seu show e, daqui pra frente, também prefere imergir. A agitação provavelmente ficará nas mãos de seu irmão mais exaltado, o também foragido Eduardo, e de blogueiros de segunda linha como Paulo Figueiredo e Allan dos Santos, que não eram levadas a sério há muito tempo e que agora poderão ser pura e simplesmente ignorados.

Temos um outro front importante, que é o Judiciário. Kássio com K, o famoso KN das festinhas de Vorcaro, rapidamente abandonou o modo “capacho da família miliciana”, em que anunciava até que iria soltar Jair para que subisse a rampa com o primogênito, e adotou o figurino de guardião das instituições republicanas. Não sabemos quanto tempo isto vai durar, mas mostra que Flavio Bolsonaro esticou tanto a corda que está comprometendo até mesmo sua bancada no STF.

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular). Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê).

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Luis Felipe Miguel

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).

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