O Brasil da esperança precisa criar raízes, por Helder Quiroga
Uma reflexão sobre democracia, cidadania e os desafios do Brasil depois de 2026
Há momentos na história de um país em que as urnas revelam muito mais do que vencedores e derrotados. Revelam nossas contradições, nossos medos, nossas esperanças e, sobretudo, aquilo que ainda precisamos aprender sobre nós mesmos.
As eleições presidenciais de 2026 foram um desses momentos.
O Brasil viveu uma disputa que ultrapassou os limites tradicionais da política. As ruas e as redes sociais se encontraram em uma mobilização que transformou a dinâmica do segundo turno. A juventude voltou a ocupar espaços de protagonismo, o movimento estudantil reafirmou sua presença e novas lideranças políticas demonstraram que a democracia continua sendo um território de permanente construção.
Entre tantas imagens marcantes, algumas permanecerão na memória pela simplicidade de seus gestos. Avós acompanhados pelos netos até as urnas, gerações diferentes compartilhando a responsabilidade de decidir os rumos do país. Uma cena aparentemente cotidiana, mas carregada de significado: a democracia também se transmite pelo afeto.
No universo digital, a mobilização do chamado Exército Digital, associada à atuação do deputado mineiro André Janones, revelou a importância das novas linguagens de comunicação política. O Nordeste reafirmou sua presença decisiva na vida nacional, enquanto Minas Gerais demonstrou, mais uma vez, sua relevância estratégica para os destinos do Brasil.
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva representou, para milhões de brasileiros, mais do que a continuidade de uma liderança política. Foi a expressão de uma esperança que resistiu às adversidades e encontrou novas formas de mobilização.
Mas, depois das comemorações, das bandeiras, dos abraços e da emoção coletiva, permanece uma pergunta que talvez seja mais importante do que o próprio resultado eleitoral:
O que aprendemos com tudo isso?
Talvez a primeira lição seja reconhecer que nenhuma vitória política, por mais extraordinária que pareça, será capaz de transformar uma sociedade se perdermos a capacidade de escutar as pessoas.
A política não pode se afastar das ruas depois que as urnas se fecham. Não pode visitar as periferias apenas em tempos de campanha, nem procurar os trabalhadores, os jovens, as mulheres e os idosos somente quando precisa de seus votos.
Os princípios que ajudaram a construir o pensamento da esquerda latino-americana nasceram de uma preocupação concreta com a vida humana. Combater a fome, a pobreza e as desigualdades não é apenas uma posição ideológica. É reconhecer que nenhuma sociedade pode ser considerada verdadeiramente desenvolvida enquanto parte de sua população permanece privada das condições mais elementares de dignidade.
Como costuma dizer o presidente Lula, temos muito a fazer neste país.
E talvez uma das tarefas mais urgentes seja recuperar uma palavra que, de tanto ser pronunciada, corre o risco de perder sua força: solidariedade.
Não precisamos inventar um novo significado para ela. Precisamos devolver-lhe a capacidade de transformar nossas relações.
A solidariedade não pode sobreviver apenas nos discursos políticos, nas campanhas publicitárias ou nas manifestações de indignação diante das injustiças. Precisa voltar a habitar os gestos cotidianos, as relações de vizinhança, as escolas, os espaços de trabalho e as comunidades.
Mas como cultivar a solidariedade sem compreender o que as pessoas realmente vivem?
O Brasil mudou.
A favela de vinte anos atrás não é a mesma de hoje. O campo também mudou. As famílias se transformaram, os jovens desenvolveram outras maneiras de compreender o mundo, as mulheres ampliaram sua presença nos espaços sociais e os idosos passaram a conviver com novas formas de comunicação, trabalho e participação.
Mudaram os sonhos, as necessidades, os medos e as expectativas.
Entretanto, muitas vezes continuamos tentando compreender essa sociedade com os mesmos instrumentos e as mesmas perguntas de décadas atrás.
Precisamos voltar a escutar o Brasil.
Não apenas por meio das pesquisas eleitorais, que procuram identificar preferências políticas e intenções de voto, mas por uma escuta profunda, capaz de reconhecer os desejos e as expectativas de quem vive nas periferias, nas favelas, nos pequenos municípios e nos territórios rurais.
Afinal, quais são os sonhos da população que vive hoje nas favelas brasileiras?
O que deseja um jovem que cresceu conectado ao mundo digital, mas continua encontrando dificuldades para acessar oportunidades de trabalho e educação? O que espera uma mãe que atravessa a cidade todos os dias para sustentar sua família? Quais são os projetos de vida dos trabalhadores, dos idosos e das comunidades que raramente participam das decisões que afetam seu cotidiano?
Talvez estejamos oferecendo respostas antigas para perguntas que ainda não tivemos a disposição de ouvir.
É preciso reconhecer que o conhecimento não nasce apenas nas universidades, nos centros de pesquisa ou nos gabinetes governamentais. Ele também se constrói nas experiências comunitárias, nas práticas culturais, nas relações de trabalho e nas formas de organização que surgem diariamente nos territórios.
A população não pode continuar sendo tratada apenas como destinatária das políticas públicas. Precisa ser reconhecida como protagonista de sua própria transformação.
Essa mudança exige também reinventar nossas maneiras de comunicar.
Durante décadas, as rádios comunitárias, os jornais impressos e as televisões locais ajudaram a construir redes de informação e pertencimento. Foram instrumentos fundamentais para dar voz a comunidades que raramente encontravam espaço nos grandes meios de comunicação.
Hoje, entretanto, a revolução digital transformou profundamente a maneira como produzimos e compartilhamos conhecimentos.
As imagens passaram a ocupar um lugar central na construção de significados. Os vídeos, os canais digitais, os aplicativos de mensagens e as redes sociais não apenas informam. Eles influenciam comportamentos, constroem identidades, despertam emoções e interferem na maneira como percebemos a realidade.
O audiovisual tornou-se uma linguagem essencial da vida contemporânea.
Por isso, precisamos imaginar uma nova comunicação comunitária, que não se limite à transmissão de mensagens, mas que ofereça às pessoas instrumentos para compreender, interpretar e produzir suas próprias narrativas.
Aprender a linguagem audiovisual significa muito mais do que saber utilizar uma câmera ou editar um vídeo. Significa desenvolver a capacidade de olhar criticamente para o mundo, reconhecer os significados presentes nas imagens e participar da construção das histórias que circulam na sociedade.
Precisamos fortalecer comunicadores populares, lideranças comunitárias, educadores, agentes culturais e jovens que desejam contar as histórias de seus territórios.
Não apenas para enfrentar a desinformação, mas para ampliar o conhecimento, estimular o diálogo e aproximar pessoas.
Porque uma sociedade não se transforma apenas quando aprende a se comunicar melhor. Ela se transforma quando aprende a se reconhecer nas experiências dos outros.
Talvez seja nesse encontro entre conhecimento, comunicação e participação que comece a nascer o Brasil do Futuro.
Não um Brasil distante, projetado para uma geração que ainda não nasceu. Tampouco uma promessa que dependa exclusivamente de governos, partidos políticos ou instituições.
O Brasil do Futuro precisa começar agora.
Ele começa quando reconhecemos que cada pessoa possui conhecimentos, experiências e capacidades que podem contribuir para transformar a realidade em que vive.
Começa quando aproximamos a sabedoria dos mais velhos da energia criativa dos mais jovens. Quando uma escola se abre para sua comunidade, quando uma universidade compartilha conhecimentos, quando uma liderança escuta seus vizinhos e quando uma iniciativa cultural desperta novas possibilidades de participação.
É desse movimento que podem surgir os verdadeiros multiplicadores de cidadania. Pessoas capazes de transformar o conhecimento em oportunidade, a participação em compromisso e a solidariedade em ações concretas.
Não precisamos imaginar uma sociedade em que todos pensem da mesma maneira. Precisamos construir uma sociedade em que as diferenças não impeçam a cooperação.
Uma sociedade em que participar das decisões coletivas seja tão importante quanto exercer o direito de votar.
Uma sociedade que compreenda a cidadania não apenas como um conjunto de direitos e deveres, mas como a capacidade de compartilhar responsabilidades pelo futuro comum.
Para isso, precisamos voltar às redes e às ruas.
Não apenas para disputar eleições, mas para reconstruir os vínculos humanos que sustentam a democracia.
Precisamos reflorestar a solidariedade.
A expressão pode parecer uma metáfora poética, mas carrega uma reflexão sobre a própria ideia de sustentabilidade.
Aprendemos que preservar as florestas, os rios e a biodiversidade é fundamental para garantir a continuidade da vida no planeta. Entretanto, precisamos compreender que a sustentabilidade também depende da preservação das relações humanas.
Uma sociedade devastada pela intolerância, pelo individualismo e pela indiferença também perde sua capacidade de produzir vida.
Quando deixamos de reconhecer o sofrimento do próximo, quando naturalizamos as desigualdades e quando transformamos nossas diferenças em motivos de hostilidade, estamos destruindo algo tão essencial quanto os ecossistemas naturais: a possibilidade de convivermos como humanidade.
Uma floresta não sobrevive pela existência de uma única árvore. Sua força está na diversidade das espécies, nas relações que estabelecem entre si e no equilíbrio que permite a continuidade da vida.
Com a sociedade acontece algo semelhante.
Não somos fortes porque somos iguais. Somos fortes quando aprendemos a conviver com nossas diferenças.
Uma árvore não produz frutos apenas porque foi plantada. Ela precisa de cuidado, água, nutrientes e tempo para desenvolver suas raízes.
A solidariedade também precisa ser cultivada.
Seus nutrientes são o afeto, o conhecimento, o respeito e a dignidade humana.
Reflorestar a solidariedade significa, portanto, compreender que preservar a natureza e humanizar as relações sociais são compromissos inseparáveis.
É reconhecer que não haverá desenvolvimento sustentável em uma sociedade incapaz de cuidar de suas próprias pessoas.
Essa reflexão também nos conduz a uma dimensão essencial da vida brasileira: a fé.
Não podemos compreender plenamente o comportamento social do nosso povo sem reconhecer a importância da religiosidade, das tradições espirituais e das diferentes maneiras pelas quais as pessoas encontram sentido para suas existências.
A fé está presente nas relações familiares, nas manifestações culturais, nas comunidades e em inúmeras experiências de solidariedade que atravessam o país.
Mas reconhecer sua importância não significa transformar a religião em instrumento de divisão ou privilegiar uma crença em detrimento de outra.
Pelo contrário.
Precisamos aprender com a capacidade que diferentes tradições religiosas possuem de reunir pessoas, acolher fragilidades e produzir sentimentos de pertencimento.
Mais do que combater a intolerância religiosa, precisamos estimular o diálogo entre diferentes crenças e formas de espiritualidade, respeitando igualmente aqueles que não professam nenhuma religião.
A fé, a ternura e o respeito às diferenças precisam ser compreendidos como dimensões fundamentais da convivência humana.
Talvez uma das maiores dificuldades do nosso tempo seja justamente reconhecer que o outro não precisa pensar como nós para merecer nosso respeito.
A ternura não diminui a força das nossas convicções. Ela nos permite exercê-las sem perder a capacidade de reconhecer a humanidade de quem está diante de nós.
E talvez seja essa uma das lições mais difíceis de aprender em uma sociedade que passou a confundir divergência com inimizade.
Tudo isso pode parecer utópico.
Mas que país seria capaz de transformar sua história sem antes imaginar um futuro diferente?
O Brasil é uma nação que ainda procura compreender a dimensão de suas próprias riquezas.
Somos um território de extraordinária diversidade ambiental, cultural e humana.
Carregamos as marcas de profundas desigualdades, mas também uma história de resistência, criatividade e capacidade de reinvenção.
Nossas comunidades desenvolveram tecnologias sociais, formas de cooperação e experiências de organização coletiva que demonstram a existência de uma inteligência popular frequentemente ignorada pelos modelos tradicionais de desenvolvimento.
Precisamos aprender com essas experiências.
O Brasil não pode continuar preso a modelos arcaicos que medem o desenvolvimento apenas pelo crescimento da economia, pela exploração dos recursos naturais ou pela concentração de riquezas.
Uma nação verdadeiramente desenvolvida não é apenas aquela que produz mais.
É aquela que consegue transformar sua capacidade produtiva em conhecimento, oportunidades, dignidade e qualidade de vida para sua população.
É aquela que compreende a preservação ambiental como parte de sua responsabilidade com as futuras gerações.
É aquela que reconhece a cultura, a educação, a ciência, a tecnologia e a participação democrática como fundamentos de seu desenvolvimento.
Romper com os modelos que reproduzem desigualdades exige vontade política. Mas exige também coragem para reconhecer que muitas das soluções de que precisamos já estão sendo construídas pela própria sociedade.
Talvez a maior riqueza do Brasil não esteja apenas em suas florestas, em seus rios ou em seu território continental.
Talvez esteja também na capacidade de seu povo de criar, compartilhar, resistir e recomeçar.
E se conseguíssemos transformar essa capacidade em um projeto coletivo de nação?
E se o Brasil passasse a ser reconhecido no mundo não apenas por suas riquezas naturais, sua cultura ou suas lideranças políticas, mas também por sua capacidade de produzir convivência, solidariedade e desenvolvimento humano?
O gesto do “L”, associado à liderança de Lula, tornou-se para seus apoiadores um símbolo de esperança e mobilização política. Mas os símbolos também nos convidam a pensar sobre os significados que uma sociedade deseja compartilhar com o mundo.
Por que a própria palavra Brasil não pode adquirir um novo significado?
Por que não podemos fazer da marca Brasil uma referência de diversidade, criatividade, sustentabilidade e solidariedade?
Talvez este seja um dos maiores desafios que temos pela frente: transformar nossa capacidade de sonhar em uma disposição coletiva para realizar.
Porque as eleições passam. Os governos se sucedem. As disputas políticas continuam.
Mas a vida das pessoas permanece, com seus desafios, suas necessidades e suas esperanças.
Não podemos permitir que a participação popular floresça apenas durante as campanhas eleitorais para depois desaparecer na rotina das instituições.
A democracia precisa de raízes profundas.
Precisa ser cultivada nas escolas, nas comunidades, nas relações de trabalho, nas manifestações culturais e nos encontros cotidianos entre pessoas que compartilham um mesmo território.
O Brasil do Futuro não está esperando por nós em algum lugar distante do amanhã.
Ele existe como possibilidade em cada gesto de solidariedade, em cada conhecimento compartilhado, em cada comunidade que se organiza e em cada pessoa que decide participar da construção de uma realidade diferente.
Talvez seja essa a maior lição que podemos extrair das eleições de 2026.
Não basta vencer uma eleição para transformar um país.
É preciso vencer diariamente a indiferença, a intolerância, a desigualdade e a incapacidade de reconhecer o outro.
É preciso compreender que a esperança não pode ser apenas um sentimento que nos mobiliza diante das adversidades. Ela precisa se transformar em uma maneira de viver, de participar e de construir o futuro.
A esperança pode vencer uma eleição. Mas é a solidariedade, cultivada todos os dias, que pode transformar uma nação.
E, se queremos que o Brasil floresça, talvez seja hora de começar pelo que existe de mais humano em nós: a capacidade de cuidar uns dos outros.
Helder Quiroga é Mestre em Comunicação Social pela Universidade de Brasília (UnB), diretor de cinema, produtor e Coordenador da ONG Contato. Atua na formulação e desenvolvimento de políticas socioculturais, pesquisas de mercado e fortalecimento do terceiro setor no Brasil.
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