Lula, eu não solto a sua mão, por Maria Betânia Silva
Quando você ainda estava na cela da Polícia Federal, em Curitiba, e teve permissão para ser entrevistado por jornalistas, eu escrevi uma carta para você que foi parar nas redes sociais, com o título acima. Sem que eu tivesse qualquer pretensão a carta viralizou. Eu desconfio que ela se tornou viral porque o meu nome é Maria Betânia, escrito sem “th” e por razões que eu desconheço, ao ser postada no Facebook, a grafia fez muita gente pensar que se tratava da extraordinária Maria Bethânia, a cantora, a diva!
Isso me deixou um pouco aflita para desfazer o mais rapidamente o engano e proteger a imagem da artista que sempre se mantém discreta em relação a questões políticas, a despeito de se saber que com o talento e a inteligência que ela tem, por ser uma mulher sensata, humanista e digna, Maria Bethânia, a artista, sabe muito bem identificar o que há de melhor na política brasileira. Contudo, como quer que seja, eu fiquei mesmo realmente muito aflita com a viralização da carta que eu nem cheguei a enviar pra você, no endereço sede da Policia Federal, em Curitiba.
As agências de checagem de postagens nas redes sociais agiram rápido e desfizeram o embaraço relacionados aos nomes e grafia. E tudo se resolveu da melhor forma, como deveria ocorrer. Eu retomei, agora, essa história de uma carta viral porque gostaria que esta aqui viralizasse, desta feita, deixando claro, mais do que antes, que quem a está escrevendo sou eu MARIA BETÂNIA, uma cidadã aposentada cuja importância existencial reside em me preocupar com meu o país e querer o melhor pra ele. Penso no Brasil e no povo brasileiro 24 horas por dia até por estar residindo no estrangeiro há algum tempo. E se tenho isso comigo é porque sei o que isso significa para quem está na situação em que o povo brasileiro se encontra neste exato momento.
Eu sei das dificuldades que o povo brasileiro enfrenta porque já enfrentei muitas na minha infância, na minha adolescência, quando estudava numa escola pública durante o regime militar e também na fase adulta. Foi uma vida que exigiu de mim um esforço para buscar um trabalho o mais rápido possível para melhorar a situação material dentro de casa; uma vida que, na fase adulta, me levou a estudar com afinco e com angústia, esperando estar preparada para aproveitar uma oportunidade qualquer que me levasse a um outro patamar dentro da sociedade.
Nessa altura, iniciava-se o processo de transição do governo militar para o governo civil. Com muita alegria, nesse contexto, entrei numa faculdade pública mas tudo era muito, muito difícil. Eu teria que criar os caminhos para mim, abrindo-os como quem abre uma clareira num canavial, a “golpes de foice”. Tudo era muito difícil… mas eu consegui… foi um pouco de mérito meu, me esforcei, é verdade, mas contei com a sorte porque, no Brasil, o mérito somente não decide nada. Quando eu conquistei o espaço que eu desejei conquistar, você ainda não era Presidente do Brasil para eu ter orgulho – como muitos têm, hoje em dia, de dizer: “obrigado, Presidente Lula, o seu governo melhorou a minha vida, mudou tudo pra melhor”.
Você, repito, ainda não era o Presidente sequer quando eu comecei a abrir o melhor caminho para mim, mas o fato é que você se firmou no Brasil e eu estava atenta ao que se passava. Sob o meu olhar, eu com a vida ganha – como se diz – e, depois, até melhorada no seu governo, você se revelava para mim como aquele que seria o primeiro Presidente a, de fato, fazer um governo de compromisso com o povo. Por isso votei em você desde sempre. E é disso que eu quero falar. Só falei um pouco de mim para dizer que eu não vou exaltar as suas qualidades como governante só por exaltar. Eu vou exaltar suas qualidades porque eu vivi na pele a indiferença de todos os Presidentes que lhe antecederam a partir do momento em que me “entendi por gente”.
Não estou aqui para dar um depoimento sobre o passado mais remoto do seu governo. Para isso, muita gente pode fazê-lo, como muitos já fizeram, há milhares, milhões de pessoas que viveram dias maravilhosos quando você se tornou Presidente do Brasil e que sabem do seu esforço para dar a todes um país no qual se pudesse viver com dignidade, sem o terror que hoje nos ronda. Um país democrático, institucionalmente equilibrado, um país funcional sem reveses, um país tomado de alegria, de encantos.
Um país que nada tem a ver com os escombros como o que ora vemos diante dos nossos olhos atônitos e já esgotados da sofreguidão trazida pela volta da fome, falta de emprego, inflação, violência potencializada com a liberação de armas etc. Um país barulhento, atravessado por motores de motos e jet skis, como se o poder de governo fosse brinquedo de playboy. E tudo isso acontecendo com o propósito de aprofundar as mazelas estruturais seculares que, por inúmeros fatores, não puderam ser eliminadas quando você foi Presidente.
O fato é que aquilo que você não conseguiu fazer e até aquilo que você fez e passou a apresentar algumas imperfeições a serem corrigidas, os seus opositores chamam de erros. Eu, que sempre exerço o meu juízo crítico mas nunca fui uma opositora ao governo, também já considerei um erro do seu governo ampliar o poder de compra das pessoas, incluindo-as na sociedade de bens de consumo sem que isso fosse acompanhado de um forte investimento na formação política da população no que se refere à noção de cidadania. Hoje, porém, eu nem classifico mais isso como erro.
O que nós, povo brasileiro, vivemos atualmente é gravíssimo e nem de longe se compara aos supostos erros atribuídos a você! Vivemos sob o ‘império dos impropérios’ e dos crimes ocultados como se não bastasse a crueldade da História do Brasil, perpetuada numa multiplicação e acumulação de carências em vários níveis e aspectos. Foram três séculos e meio de escravidão, de opressão e perseguição aos afrodescendentes, sobretudo em relação às pessoas com o fenótipo mais marcante nesse sentido. Foi uma história de instabilidade política que contaminou uma República (nascida das armas e não do povo, mas ainda assim uma boa opção em face de um poder monárquico absolutista) com valores dos colonizadores que cruzaram o nosso território e que à época da proclamação, ainda, o cruzavam como se ele não nos pertencesse. Foi uma República apenas formal, buscando encontrar o seu conteúdo e a sua identidade no futuro. Uma República que, apesar de tudo isso, abriu espaço para um projeto democrático e que, na atualidade, se acha mais do que nunca ameaçada por um brasileiro nativo com espírito colonizador. Alguém que só pensa em torturar e trucidar todos os que – mesmo nativos como ele – não pensem como ele pensa …se é que ele pensa…
Agora, eu entendo que os seus governos, assim como o de Dilma, sua sucessora, foram construídos como uma estratégia de aceitação da sociedade de consumo (que rivaliza com a defesa ambiental, hoje, uma necessidade inadiável) para que, dessa maneira, se firmasse uma política de Estado insubstituível pelos governos subsequentes quaisquer que fossem eles. Um vez resolvida a questão da luta pela sobrevivência, através do consumo médio assegurado à população, essa mesma população estaria apta para manter algum nível de exigência em relação a programas sociais e de realização de políticas públicas sempre necessárias em qualquer país do mundo, enquanto exercia o seu poder de compra para consumir aquilo que lhe fosse tido como essencial e aquilo que resultasse das escolhas de cada um. O propósito ao final seria o de fazer com que o governo não rebaixasse o padrão de vida ao qual essa mesma população se viu habituada.
Lula, você tinha e ainda tem projetos para o país e todos os seus projetos têm cara de ser um sonho. Isso não é um problema, é um caminho, uma solução porque você não é alguém que sonha apenas por sonhar. Você sonha para realizar e para tornar a vida real, vivida e palpável parecer com aquela que foi sonhada. Você é um gigante que não dorme em berço esplêndido, você quer construir um berço para nós brasileiras e brasileiros.
Por isso, Lula, você tem dito repetidas vezes: “eu não quero governar. Eu quero cuidar do povo brasileiro”. Você, como um bom pai, quer dar o seu amor paterno a esse povo, através de uma governança competente, racional, firme, inovadora, ousada e alegre. Você nos quer acordados para que a gente ponha a mão na obra de construção desse berço. Você, Lula – a gente bem sabe disso – honra a sua palavra, tanto que saiu da prisão injusta à qual lhe submeteram ainda mais digno.
Aliás, uma das coisas mais tocantes que ouvi de você, quando você ainda estava preso, durante a entrevista dada a Monica Bérgamo e Florestan Fernandes foi: “eu não troco a minha dignidade pela minha liberdade”. Você não trocou mesmo! Você a reconquistou com toda a sua dignidade. E agora, você, que poderia viver a sua liberdade individual plenamente, sem assumir responsabilidades ou ter as preocupações e ocupações inerentes ao cargo de Presidente, você decide abrir mão dessa sua liberdade individual para cuidar da gente. Você é demais, Lula!
Saiba que cada palavra que lhe dirijo vem carregada de uma lágrima. Você me emociona e sei que não é só a mim. Você emociona aquelas pessoas em cujo peito bate um coração. Por incrível que pareça a gente sabe que tem gente nesse país e, em especial, no âmbito governamental desprovido de coração.
Eis porque, Lula, reafirmo tudo que disse na primeira carta e aproveito para reatualizá-la, acrescentando:
Lula paz e amor, conciliador, pacificador de conflitos, você continua no seu voo de descobertas. E nesse trajeto você preserva sonhos. Eu quero voar junto, eu quero preservar sonhos para o BR. Eu quero que o meu país tenha a possibilidade de realizá-los.
Eu quero que todos os brasileiros e todas as brasileiras possam alçar voos para chegarem no horizonte que você enxerga.
Por isso, Lula, eu CONTINUO sem soltar a sua mão.
Um abraço cheio de afeto.
P.S. Sua participação no debate da Rede Globo foi estrelar. Você foi mesmo o protagonista, aquele sobre o qual se fala, contra quem se fala e sem o qual a história não se faz e com o qual a história pode ser outra, muito melhor do que aquela encenada por figurantes. Você disse com elegância e coragem o que precisava ser dito. Você não se deixou devorar por injustiças. Você transcendeu, você revela. Você desmascara quem tem a pretensão de concorrer com você e não se encontra no mesmo patamar de humanidade que você se encontra. Você é o protagonista da História da Humanidade e evoluiu, nesse aspecto, Lula, para além do tempo que é o nosso.
- S. quando esta carta foi escrita em 2022, eu morava no exterior. Mas voltei a residir no Brasil em 2024.
Este texto não representa necessariamente a opinião do Coletivo Transforma MP.
Maria Betânia Silva – Procuradora de Justiça Aposentada e membra do Coletivo Transforma – MP
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