Após a reeleição do presidente Lula (PT), a divisão política chegou a hospitais, consultórios e cooperativas médicas, segundo reportagem da BBC News Brasil, que reuniu denúncias de exposição de colegas e de mensagens que sugerem tratamento diferenciado a pacientes por posicionamento político.
Em Sergipe, um anestesiologista foi incluído em uma lista de 15 médicos “esquerdistas”, intitulada “Lulistas = esquerdistas = petistas”, divulgada em um grupo de WhatsApp que reúne cerca de um terço dos profissionais da especialidade no estado. Alguns nomes foram acompanhados de bandeiras do movimento LGBTQIA+. “Senti um alvo na minha cabeça”, disse o médico, que pediu anonimato. Ele afirma ter recebido ligações com ofensas homofóbicas, procurou a Polícia Civil e pediu medida protetiva. Também denunciou o caso à cooperativa que organiza os plantões, que, segundo ele, evitou escalá-lo junto com o colega apontado como autor da lista. Os responsáveis não foram localizados, e a cooperativa e o Cremese não responderam.
Na Bahia, uma cardiologista repostou no Instagram uma mensagem que pedia para não ajudar petistas “na fila da regulação” nem “com remédio ou dinheiro”. Um grupo de médicos denunciou o caso ao Cremeb, que não respondeu à reportagem. Em nota, a médica admitiu que o compartilhamento “foi um equívoco” e disse não defender a privação de atendimento por posição política. A clínica onde atua afirmou que opiniões em perfis pessoais não representam a instituição.
No Espírito Santo, o CRM abriu sindicância para apurar o caso de uma médica que teria publicado, em tom irônico, que alteraria prescrições de pacientes. A deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG) denunciou a situação nas redes sociais.
Outros casos ganharam repercussão nacional. Em São Paulo, um cardiologista do Hospital Israelita Albert Einstein escreveu que não atenderia “petistas vagabundos”; o hospital repudiou discriminação e disse tratar o caso conforme seu código de ética. Em Goiânia, uma ginecologista foi afastada e depois demitida do Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Célia Câmara após pedir a colegas, em grupo de WhatsApp, que não dessem alta no fim de semana do primeiro turno porque “a maioria é petista”. A médica diz que nenhuma paciente teve alta atrasada ou negada por motivo político.
O Código de Ética Médica torna obrigatório o atendimento em urgência e emergência, e resolução do CFM determina que a medicina seja exercida sem discriminação. Em caso de negativa de atendimento ou assédio, a orientação é reunir provas, como mensagens, áudios e prontuários, e denunciar ao CRM do estado, podendo recorrer também ao Ministério Público, à Defensoria ou à Justiça. Os conselhos regionais podem aplicar advertência, censura, suspensão e cassação do exercício profissional.
*Com informações da BBC Brasil.
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