4 de novembro de 2026

A solidariedade política intergeracional salvou a democracia brasileira, por Marilza Foucher

Jovens e idosos compareceram às urnas, reduzindo a abstenção, em forte solidariedade política intergeracional para salvar a democracia brasileira
No segundo turno das eleições presidenciais, jovens levaram idosos para votar, muitas vezes carregando-os no colo - Foto: Redes/Instagram

Jovens brasileiros mobilizaram-se nas ruas e urnas para salvar a democracia e defender conquistas sociais no segundo turno.
Campanha digital evitou interações com notícias falsas da extrema-direita, reduzindo seu alcance nas redes sociais.
Programas sociais de Lula focam educação e combate à pobreza, fortalecendo apoio jovem mesmo diante de congresso conservador.

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A solidariedade política intergeracional salvou a democracia brasileira

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Como franco-brasileira e avó, espero que os jovens na França sigam o exemplo do Brasil. Lá, os jovens forjaram uma forte solidariedade política intergeracional para salvar a democracia brasileira. Jovens e idosos compareceram às urnas, reduzindo significativamente a abstenção.

Por Marilza de Melo Foucher*

É bastante raro começar um artigo político com um poema, mas em um mundo distópico, precisamos de poesia. Escrevi este poema quando estudantes brasileiros tomaram as ruas em todos os estados do Brasil após os resultados catastróficos do primeiro turno. Para os jovens que se beneficiaram dos programas sociais de Lula, perdê-los era impensável. As ruas e praças se tornaram a Ágora para o engajamento político dos estudantes brasileiros, apoiando Lula e denunciando Flávio Bolsonaro, acusado de corrupção, lavagem de dinheiro e ligações com milícias. Garantir conquistas sociais, ambientais e econômicas, bem como a democracia, tornou-se a questão fundamental nesta campanha política do segundo turno.

Obrigado a vocês, jovens brasileiros! 

Obrigado, jovens estudantes brasileiros!

Graças a você, estou conjugando o verbo “esperar”.

Você salvou a democracia participativa!

Hoje, seus ecos ressoam pelas ruas do Brasil.

Oh! Democracia da grande pátria soberana!

Ameaçada, ela atravessa a escuridão!

A noite não pode ficar sem estrelas.

Ninguém pode macular a beleza do Cruzeiro do Sul!

Amanhã, seremos as estrelas da mais bela constelação.

A terra da utopia está dentro de vocês, jovens brasileiros.

Utopia é o despertar do seu futuro!

Graças a você, o Brasil não afundará no abismo.

Quando a utopia do possível nos inspira,

A poesia nos permite sentir a magia da política.

Sem engajamento político, o futuro será amargo.

Graças a você, graças ao seu primeiro voto, a democracia triunfará.

Graças a você, os idosos irão votar.

Isso é solidariedade política intergeracional.

Quem salvou a democracia brasileira?

Os fascistas e fundamentalistas serão derrotados.

A democracia e o Estado de Direito serão garantidos.

O Brasil jamais será vassalo de ninguém.

O Brasil e seu povo são soberanos.

Juntos, reacendemos a chama da esperança!

No Brasil, a extrema-direita, com o apoio de magnatas americanos da tecnologia, havia tomado o controle das plataformas digitais. Inverter o equilíbrio de poder era difícil, mas não impossível. Exigia combinar a mobilização nas ruas com a apropriação das ferramentas do inimigo.

Entre campanhas massivas de desinformação, o uso de inteligência artificial pelos apoiadores de Bolsonaro e a interferência americana, a campanha eleitoral se tornou um laboratório de manipulação de informações. Era necessário travar uma guerra contra as notícias falsas disseminadas a cada segundo nas redes sociais.

Para combater as notícias falsas da extrema-direita, os apoiadores de Lula no Brasil adotaram uma estratégia digital específica: ignorar completamente as publicações da oposição para evitar alimentar o algoritmo das redes sociais. Essa tática de indiferença em relação à extrema-direita foi implementada sob a orientação do deputado André Janones, que liderou essa abordagem com seus milhões de seguidores no WhatsApp, Facebook, Instagram, YouTube e TikTok. As instruções eram para não curtir, não comentar e não interagir de forma alguma quando o conteúdo aparecesse. O algoritmo, então, deduzia que o assunto não interessava a ninguém e reduzia seu alcance natural. Em vez de dedicar incontáveis ​​horas a refutar a desinformação do campo opositor, a estratégia consistia em redirecionar toda a energia e interação para disseminar suas próprias mensagens, seus próprios temas e apoiar a mídia independente.

É preciso ressaltar que os sucessos do governo foram obscurecidos pela mídia, que era opositora de Lula e boicotou sistematicamente todas as campanhas presidenciais. A maior parte da propaganda da campanha de Lula foi censurada pelo presidente e pelo vice-presidente do Tribunal Eleitoral, indicado pelo ex-presidente Bolsonaro, que permaneceu leal à família Bolsonaro. Isso foi agravado pelo apoio da META (empresa controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp), que a equipe de campanha de Lula acusou de favorecer seu oponente por meio de falhas algorítmicas, remoção de publicações progressistas, restrições ao alcance das mensagens de campanha e censura aos apoiadores e influenciadores de Lula. No Brasil, a META detém um quase monopólio no mercado de publicidade digital paga em larga escala para campanhas eleitorais. A empresa já gerou mais de € 51 milhões, 85% a mais do que na eleição presidencial anterior. Uma dúzia de organizações de monitoramento e grupos de pesquisa no Brasil publicaram relatórios indicando evidências de possível tratamento preferencial à campanha do senador Flávio Bolsonaro. (Veja em Slate.fr)

É preciso ressaltar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sempre priorizou a educação para os jovens brasileiros. A mobilização nas ruas de todo o país demonstrou que esses jovens não iriam abandonar seu “benfeitor”.   

Os principais programas sociais implementados por Luiz Inácio Lula da Silva para a juventude brasileira têm como foco a educação, a inserção profissional e o combate à pobreza.

O programa Pé-de-Meia (Poupança para Estudos) visa combater a evasão escolar e apoiar estudantes do ensino médio de famílias desfavorecidas. Trata-se de um sistema de poupança e subsídio condicionado, pago a estudantes de escolas públicas de ensino médio em troca de boa frequência e bom desempenho nos exames. Esses fundos acumulam-se em um montante único que pode ser sacado ao final do programa. O programa agora também se estende ao ensino superior.

O Bolsa Família visa garantir uma renda mínima para famílias vulneráveis. Impacto na juventude: O auxílio está condicionado ao acompanhamento da frequência escolar de crianças e adolescentes e à atualização de seus calendários de vacinação, promovendo, assim, sua participação contínua nos sistemas de educação e saúde.

Objetivo do programa ProUni (Universidade para Todos) : Facilitar o acesso de jovens de famílias de baixa renda a universidades privadas. Funcionamento: Concede bolsas de estudo parciais ou integrais com base no desempenho acadêmico e na renda familiar.

FIES (Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior) Objetivo: Financiar as mensalidades do ensino superior privado para estudantes com recursos financeiros insuficientes. Oferece condições flexíveis de pagamento, distribuídas após a formatura e a entrada no mercado de trabalho.

Desenrola Brasil (Desdobrar Brasil) Objetivo: Remover os nomes de cidadãos superendividados e aumentar a capacidade financeira de jovens adultos. É um programa de renegociação de dívidas com condições preferenciais que visa, entre outros, jovens adultos trabalhadores ou estudantes presos a dívidas bancárias ou comerciais.

Mas creio que a mobilização foi além da defesa de conquistas sociais; os jovens se conscientizaram do perigo que o retorno da extrema direita representava para a democracia brasileira e para o Estado de Direito.

Em todas as manifestações, a defesa da democracia e de seus valores tornou-se um mantra. Para esses jovens, Lula personificava os valores da democracia e do Estado de Direito. Lula representava a garantia de seu futuro, e Flávio Bolsonaro, um perigo para a democracia e uma ameaça às conquistas sociais.

Mas fica a dúvida de como Lula governará com um congresso pior que o anterior? Para esses jovens, Lula deveria mudar a forma como o governo é governado e implementar ferramentas de democracia participativa, pois Lula tem apoio popular. A Constituição Cidadã Brasileira de 1988, de fato, consagra mecanismos de democracia participativa e semidireta, além da democracia representativa. (Veja meu artigo no Cairn.info, fevereiro de 2010)

Vale ressaltar que, mesmo sem maioria e enfrentando um Congresso conservador e de extrema-direita, Lula consegue garantir a governabilidade contando com o apoio popular. É importante distinguir os resultados eleitorais da composição atual do governo, já que mudanças partidárias e outras alterações modificam os grupos parlamentares ao longo de seu mandato, e Lula é um excelente negociador.

É importante lembrar que a Constituição brasileira é muito progressista em termos democráticos, principalmente graças aos seus mecanismos de participação popular direta (especialmente por meio do Artigo 14). Sinta-se à vontade para fazer uma busca no Google…

Aqui estão os principais mecanismos:

  • Plebiscito: Uma consulta popular organizada *antes* da elaboração de uma lei ou ato administrativo, permitindo que o povo aprove ou rejeite uma diretriz geral.
  • Referendo: Uma consulta popular organizada *após* a elaboração de um projeto de lei ou ato constitucional, permitindo que o povo o aprove ou rejeite definitivamente.
  • Iniciativa popular: Permite que os cidadãos apresentem um projeto de lei diretamente ao Congresso Nacional. Para ser admitido, o projeto deve reunir as assinaturas de pelo menos 1% do eleitorado nacional, distribuídas por pelo menos cinco estados brasileiros.

*Participação na governança e fiscalização públicas. A Constituição e as leis dela derivadas também institucionalizaram a participação da sociedade civil nas políticas públicas:

  • Conselhos de administração: Órgãos mistos (compostos em partes iguais por representantes do Estado e da sociedade civil), presentes nos níveis municipal, estadual e federal, responsáveis ​​por deliberar sobre temas como saúde, educação e bem-estar social.
  • Orçamento participativo: Embora tenha surgido no âmbito municipal (notadamente em Porto Alegre), esse mecanismo se baseia na descentralização e na transparência, incentivadas pelo texto constitucional.
  • Ação Popular: Instrumento legal disponível a qualquer cidadão para requerer a anulação de um ato administrativo que prejudique o patrimônio público, a integridade da administração pública ou o meio ambiente. Esqueci de acrescentar que Lula deve restaurar o sistema presidencialista, que foi sequestrado sob Bolsonaro; este último, por incompetência, delegou grande parte da execução orçamentária ao Congresso, o que levou à corrupção em larga escala envolvendo verbas públicas.

Como franco-brasileira e avó, espero que os jovens na França sigam o exemplo do Brasil, que fomentou uma forte solidariedade política intergeracional para salvar a democracia brasileira. Jovens e idosos compareceram às urnas, reduzindo significativamente a abstenção.

A juventude brasileira desmantelou redes de notícias falsas da extrema-direita adotando uma estratégia de indiferença, recusando-se a compartilhar conteúdo de extrema-direita e conservador. É possível derrotar a extrema-direita francesa e combater as notícias falsas nas redes sociais seguindo o exemplo do Exército Democrático de Lula.  

* Marilza De Melo Foucher é Doutora em Economia (Sorbonne), jornalista e escritora franco-brasileiro.

***

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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