A derrota de Trump: quando o nacionalismo econômico encontra seus limites sociais
Das promessas de reindustrialização à perda do Congresso, as eleições americanas revelam as contradições entre protecionismo, inflação, distribuição de renda e legitimidade democrática — com consequências para o Brasil e a economia mundial.
por Maurício Luperi
1. Uma derrota que ultrapassa as urnas
As eleições legislativas americanas de 3 de novembro de 2026 produziram uma das mais expressivas derrotas políticas de Donald Trump. Os democratas conquistaram o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, avançando inclusive em estados tradicionalmente republicanos, como Texas, Kansas e Carolina do Sul.
O resultado não representa apenas uma mudança na composição do Congresso. Constitui uma rejeição significativa à condução política e econômica do governo e coloca em questão a capacidade do trumpismo de converter suas promessas de recuperação nacional em melhorias concretas nas condições de vida da população.
As pesquisas realizadas com eleitores apontaram a preocupação com o custo de vida, a insatisfação com a política tarifária, a guerra contra o Irã e o desgaste institucional entre os fatores relevantes para a derrota republicana.
Segundo pesquisas de saída divulgadas pela Reuters, aproximadamente nove em cada dez eleitores consideraram o custo de vida um fator importante ou decisivo em seu voto. Cerca de 70% defenderam que o Congresso deveria exercer maior controle sobre a Presidência.
O fenômeno merece uma interpretação que ultrapasse as explicações convencionais sobre o desgaste eleitoral de governos em eleições intermediárias.
Trump retornou à Casa Branca prometendo recuperar a indústria americana, proteger os empregos nacionais, reduzir a dependência externa e devolver prosperidade às famílias trabalhadoras. Sua estratégia combinou protecionismo comercial, incentivos ao investimento privado, redução de impostos, restrições migratórias e uma política externa marcada pelo unilateralismo.
Entretanto, a promessa de reconstrução econômica entrou em contradição com seus instrumentos e resultados distributivos.
A questão central é que uma política econômica não se legitima apenas por seus objetivos declarados ou pelo desempenho dos mercados financeiros. Sua sustentação política depende também de como os benefícios e os custos são distribuídos entre os diferentes grupos sociais.
A derrota de Trump recoloca, portanto, uma questão fundamental da economia política: não basta prometer crescimento, reindustrialização e soberania econômica quando os custos imediatos dessas políticas recaem sobre parcelas expressivas da população.
2. A contradição entre protecionismo e poder de compra
O protecionismo não constitui, por definição, uma política economicamente equivocada.
A história do desenvolvimento industrial demonstra que países hoje desenvolvidos utilizaram tarifas, subsídios, compras governamentais, financiamento público e outras formas de intervenção estatal para construir suas capacidades produtivas.
Os próprios Estados Unidos recorreram extensivamente à proteção industrial em diferentes momentos de sua história.
Ha-Joon Chang, em Kicking Away the Ladder (2002), demonstra como diversos países que atualmente defendem o livre-comércio utilizaram políticas protecionistas durante seus processos de industrialização.
A questão, portanto, não é simplesmente escolher entre livre-comércio e protecionismo.
O problema está na natureza, na seletividade, na coordenação e nos objetivos da política comercial.
Tarifas podem proteger atividades estratégicas, estimular investimentos e contribuir para a diversificação produtiva. Entretanto, quando aplicadas de maneira abrangente, sem articulação suficiente com políticas industriais, tecnológicas e de financiamento, também podem elevar os preços de bens finais e insumos intermediários.
Isso ocorre porque parte dos custos tarifários é absorvida pelas empresas importadoras e outra parcela pode ser transferida aos consumidores.
Além disso, empresas nacionais que dependem de componentes importados podem enfrentar elevação de custos, comprometendo sua competitividade.
Os benefícios de uma eventual substituição de importações tendem a depender de investimentos e processos de aprendizagem que exigem tempo. Já os aumentos de preços podem ser percebidos rapidamente pelas famílias.
Surge, assim, uma contradição temporal e distributiva: os ganhos produtivos prometidos são incertos e frequentemente futuros, enquanto determinados custos aparecem imediatamente no orçamento doméstico.
Essa contradição não é apenas teórica. Existem evidências empíricas importantes sobre seus efeitos na economia americana.
3. O que as pesquisas empíricas revelam sobre as tarifas de Trump
Um estudo de Mary Amiti, Stephen Redding e David Weinstein, publicado em 2019 no Journal of Economic Perspectives, examinou os efeitos das tarifas introduzidas pela administração Trump em 2018.
Os pesquisadores identificaram um repasse praticamente integral das tarifas aos preços domésticos dos produtos importados atingidos.
Em outras palavras, os exportadores estrangeiros não absorveram, de maneira generalizada, os custos adicionais da política comercial americana.
Esses custos recaíram principalmente sobre empresas importadoras e consumidores dos Estados Unidos.
Ao final de 2018, os autores estimaram aproximadamente US$ 3 bilhões mensais em custos tarifários adicionais e US$ 1,4 bilhão mensais em perdas de eficiência econômica.
A pesquisa também identificou alterações nas cadeias de suprimento, redução da variedade de produtos importados e aumento de custos para empresas que utilizavam insumos estrangeiros.
Outro estudo, realizado por Pablo Fajgelbaum, Pinelopi Goldberg, Patrick Kennedy e Amit Khandelwal, publicado em 2020 no The Quarterly Journal of Economics, aprofundou essa avaliação.
Os autores estimaram perdas de US$ 51 bilhões para consumidores e empresas compradoras de importações, antes de considerar a arrecadação tarifária e os ganhos dos produtores nacionais.
Depois desses ajustes, a perda líquida agregada de renda real foi estimada em US$ 7,2 bilhões.
Mais importante para nossa discussão, os pesquisadores identificaram efeitos distributivos diferenciados entre setores e regiões.
As tarifas retaliatórias impostas por parceiros comerciais prejudicaram atividades exportadoras americanas, inclusive em regiões politicamente próximas ao Partido Republicano.
Esses resultados revelam uma contradição frequentemente negligenciada no discurso protecionista: uma política apresentada como instrumento de defesa dos trabalhadores nacionais pode produzir custos para esses mesmos trabalhadores, dependendo de sua estrutura produtiva, dos insumos utilizados e das respostas dos parceiros comerciais.
Quadro 1 — Evidências empíricas sobre as tarifas americanas de 2018
| Estudo | Evidência principal | Implicação econômica |
| Amiti, Redding e Weinstein (2019) | Repasse praticamente integral das tarifas aos preços domésticos dos importados atingidos | Custos suportados por importadores e consumidores americanos |
| Amiti, Redding e Weinstein (2019) | US$ 3 bilhões mensais em custos tarifários e US$ 1,4 bilhão em perdas de eficiência ao final de 2018 | Encarecimento de importações e redução de bem-estar |
| Fajgelbaum et al. (2020) | Perda líquida agregada estimada em US$ 7,2 bilhões | Ganhos setoriais não compensaram integralmente os custos |
| Fajgelbaum et al. (2020) | Efeitos negativos das retaliações sobre trabalhadores de setores comercializáveis em regiões republicanas | Distribuição territorial desigual dos custos |
Fontes: Amiti, Redding e Weinstein (2019); Fajgelbaum et al. (2020). Elaboração do autor.
É importante observar que essas pesquisas examinam a experiência de 2018, durante o primeiro mandato de Trump. Não constituem uma estimativa direta dos efeitos das medidas comerciais adotadas em 2025 e 2026.
Entretanto, demonstram mecanismos econômicos relevantes para compreender os riscos de estratégias tarifárias semelhantes.
Tampouco se pode concluir que as tarifas, isoladamente, determinaram a derrota eleitoral de 2026. A insatisfação também envolve a guerra contra o Irã, os preços da energia, o ambiente institucional e outros fatores políticos.
O que as evidências permitem afirmar é que a promessa de proteger a economia nacional por meio de tarifas não garante que os custos dessa proteção sejam suportados por produtores estrangeiros.
Essa constatação é decisiva para compreender os limites sociais do nacionalismo econômico.
4. O conflito distributivo que os indicadores agregados não revelam
Uma das limitações recorrentes do debate econômico está na tendência de avaliar o sucesso de governos por indicadores agregados, como crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), valorização das bolsas de valores e desempenho dos investimentos.
Essas variáveis são importantes, mas não revelam, isoladamente, como os resultados econômicos são distribuídos.
Uma economia pode apresentar crescimento e valorização de ativos financeiros enquanto segmentos expressivos da população enfrentam dificuldades para pagar moradia, alimentação, energia, saúde e serviços essenciais.
Da mesma forma, uma inflação em desaceleração não significa que os preços tenham retornado aos níveis anteriores. Significa apenas que continuam aumentando, em média, a um ritmo menor.
Essa distinção é particularmente importante para compreender a insatisfação eleitoral.
O eleitor não necessariamente avalia sua situação econômica com base na taxa anual de inflação divulgada pelas autoridades estatísticas. Sua percepção está relacionada ao custo efetivo de manutenção do padrão de vida, à evolução de sua renda disponível e à segurança de seu emprego.
A questão distributiva também aparece na relação entre rendimentos do trabalho e rendimentos da propriedade.
Políticas que favorecem a valorização de ativos e a rentabilidade empresarial não asseguram, automaticamente, aumentos proporcionais dos salários reais.
Consequentemente, bons resultados financeiros podem coexistir com insatisfação social.
A economia política oferece uma interpretação mais abrangente desse fenômeno: a legitimidade de uma estratégia econômica depende não apenas de sua capacidade de produzir riqueza, mas também das relações sociais e institucionais que determinam sua apropriação.
Essa questão não é exclusiva dos Estados Unidos.
A financeirização das economias contemporâneas ampliou a importância dos rendimentos associados à propriedade de ativos, à intermediação financeira e aos ganhos patrimoniais.
A valorização financeira pode ocorrer independentemente de uma expansão equivalente da produção, do investimento produtivo e dos salários.
Nesse sentido, a derrota de Trump expressa uma contradição entre a narrativa da prosperidade nacional e a experiência econômica concreta de parcelas importantes do eleitorado.
5. A reindustrialização exige mais do que tarifas
A defesa da reindustrialização americana possui fundamentos econômicos que não devem ser confundidos com a orientação política de Trump.
A perda de capacidades industriais em determinadas regiões dos Estados Unidos, a concentração geográfica dos investimentos e a dependência de cadeias internacionais de suprimento são problemas reais.
O avanço industrial chinês também colocou desafios à capacidade tecnológica e produtiva americana.
Esses problemas, entretanto, não podem ser enfrentados adequadamente apenas pelo encarecimento das importações.
Uma política industrial consistente exige coordenação entre diferentes instrumentos: financiamento de longo prazo, investimentos em infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento, qualificação profissional, política energética, compras públicas e mecanismos de acompanhamento dos resultados.
Exige também distinguir setores nos quais existe potencial efetivo de desenvolvimento daqueles em que a proteção apenas preserva estruturas pouco competitivas.
Albert Hirschman, em The Strategy of Economic Development (1958), demonstrou a importância dos encadeamentos produtivos para a transformação estrutural das economias.
O desenvolvimento não resulta simplesmente da proteção de empresas existentes, mas da criação de relações produtivas capazes de estimular novos investimentos e atividades econômicas.
Essa perspectiva permanece atual.
Proteção sem investimento pode simplesmente elevar preços.
Subsídios sem critérios de desempenho podem preservar privilégios.
Desonerações tributárias sem compromissos de expansão produtiva podem ampliar margens empresariais sem gerar os resultados esperados em emprego e inovação.
A reconstrução industrial depende, portanto, de uma arquitetura institucional capaz de transformar incentivos econômicos em capacidades produtivas duradouras.
Essa distinção impede duas conclusões igualmente equivocadas: a de que o fracasso político de Trump comprovaria a superioridade irrestrita do livre-comércio e a de que qualquer política protecionista seria suficiente para promover desenvolvimento.
6. O retorno dos limites institucionais ao poder presidencial
A conquista democrata das duas Casas do Congresso introduz uma nova etapa na relação entre Executivo e Legislativo.
Trump continuará exercendo a Presidência até o encerramento de seu mandato, mas encontrará maiores obstáculos para aprovar sua agenda legislativa quando o novo Congresso assumir, em janeiro de 2027.
A Câmara dos Representantes poderá ampliar investigações e exercer maior fiscalização sobre a administração federal.
O Senado, por sua vez, terá instrumentos importantes para condicionar nomeações e limitar determinadas iniciativas presidenciais.
As negociações orçamentárias também se tornarão mais complexas.
Entretanto, seria precipitado interpretar a vitória democrata como capacidade automática de reversão das principais políticas do governo.
O presidente conserva o poder de veto, atribuições executivas e instrumentos relevantes de política comercial e externa. Além disso, as regras legislativas americanas impõem dificuldades à aprovação de diversas medidas sem apoio bipartidário.
O resultado mais provável é uma combinação de contenção institucional, conflitos políticos e negociações seletivas.
Essa recomposição dos mecanismos de controle entre os poderes possui importância democrática própria.
O presidencialismo americano foi concebido sobre um sistema de freios e contrapesos que pressupõe a possibilidade de contenção recíproca entre as instituições.
A derrota republicana restabelece uma capacidade de fiscalização parlamentar que havia sido reduzida pela convergência política entre a Casa Branca e as maiorias republicanas.
Mas existe um risco: a contenção do Executivo pode se transformar em paralisia decisória, particularmente nas negociações fiscais e orçamentárias.
A capacidade de transformar a vitória eleitoral em resultados concretos constituirá, portanto, um desafio também para os democratas.
7. Política fiscal, Federal Reserve e os limites da autonomia monetária
A nova configuração política poderá afetar a condução da política fiscal americana e, indiretamente, as condições monetárias internacionais.
Um Congresso controlado pelos democratas poderá restringir determinadas iniciativas tributárias e exigir negociações sobre gastos públicos e financiamento federal.
Isso não significa, necessariamente, uma trajetória de austeridade fiscal.
As prioridades distributivas dos dois partidos são diferentes, e a disputa sobre o orçamento envolve escolhas relativas à tributação, às despesas sociais, à defesa e aos investimentos públicos.
Também seria equivocado supor que a derrota de Trump provocará automaticamente uma redução das taxas de juros americanas.
O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, continuará avaliando inflação, emprego, atividade econômica e condições financeiras.
Entretanto, essas variáveis não são independentes das decisões políticas.
Uma eventual moderação tarifária poderia reduzir pressões sobre determinados preços. A diminuição das tensões geopolíticas poderia aliviar custos energéticos. Por outro lado, conflitos orçamentários poderiam ampliar a incerteza e afetar os prêmios de risco.
Isso evidencia um ponto frequentemente negligenciado: a política monetária não opera em um vazio institucional.
As decisões sobre juros interagem com a política fiscal, o comércio exterior, a estrutura produtiva, os conflitos distributivos e as expectativas dos agentes econômicos.
Reduzir a interpretação da inflação e dos juros a uma relação mecânica entre demanda agregada e taxa básica significa ignorar parte importante dos mecanismos que determinam a evolução dos preços.
A experiência americana oferece, assim, mais um exemplo da necessidade de compreender a inflação a partir de suas diferentes origens, distinguindo pressões de demanda, custos, choques externos e alterações de preços relativos.
Essa distinção é fundamental também para a economia brasileira, onde choques cambiais, preços administrados, indexação e custos financeiros desempenham papéis importantes na dinâmica inflacionária.
8. O trumpismo pode sobreviver à derrota de Trump
A derrota eleitoral de um governo não implica necessariamente o desaparecimento das forças sociais que o sustentam.
O trumpismo encontrou apoio em segmentos da população que experimentaram perda de empregos industriais, insegurança econômica, estagnação relativa de rendimentos e crescente desconfiança das instituições tradicionais.
Essas transformações possuem raízes estruturais.
A reorganização internacional da produção, a financeirização, a concentração de renda e as mudanças tecnológicas alteraram profundamente a distribuição regional e social das oportunidades econômicas.
A resposta política a esses processos não foi uniforme.
Parte da insatisfação foi canalizada para demandas de proteção social e reconstrução produtiva. Outra parte encontrou expressão em discursos nacionalistas, anti-imigração e de contestação às instituições.
Trump conseguiu articular essas insatisfações em torno de uma narrativa de recuperação da grandeza nacional.
O problema é que mobilizar politicamente uma insatisfação não significa resolver suas causas.
A derrota republicana sugere que essa distância entre promessa e realização passou a produzir custos eleitorais relevantes.
Entretanto, enquanto permanecerem as condições econômicas e sociais que alimentaram o fenômeno, sua base política poderá continuar existindo.
Karl Polanyi, em The Great Transformation (1944), demonstrou como a expansão das relações de mercado, quando desarticulada dos mecanismos de proteção social, pode desencadear reações políticas e institucionais.
Embora formulada em outro contexto histórico, essa interpretação oferece elementos importantes para compreender as tensões contemporâneas entre globalização, insegurança econômica e nacionalismo político.
Também Dani Rodrik, em The Globalization Paradox (2011), examina os conflitos entre integração econômica internacional, soberania nacional e democracia.
Essas contribuições ajudam a compreender por que a crítica ao trumpismo não pode se limitar à defesa das políticas econômicas que antecederam sua ascensão.
Parte das condições que favoreceram sua emergência estava associada justamente às insuficiências dessas políticas para enfrentar a desigualdade, a desindustrialização regional e a insegurança econômica.
Por isso, seria inadequado celebrar o resultado como o encerramento definitivo do trumpismo.
A questão decisiva é saber se as forças políticas alternativas conseguirão oferecer respostas mais consistentes às demandas de segurança econômica, emprego de qualidade, mobilidade social e participação democrática.
Sem essas respostas, a insatisfação poderá simplesmente assumir novas formas políticas.
9. As consequências para o Brasil e a economia internacional
A mudança na composição do Congresso americano abre possibilidades relevantes para o Brasil, mas não assegura uma transformação imediata da política econômica dos Estados Unidos.
O primeiro efeito potencial está relacionado ao comércio internacional.
Uma redução da escalada tarifária e das tensões comerciais poderia favorecer exportadores brasileiros e diminuir a incerteza enfrentada pelas empresas.
Entretanto, não se deve ignorar que o protecionismo industrial possui apoio em setores dos dois principais partidos americanos.
O segundo efeito envolve o câmbio e as condições financeiras internacionais.
Uma eventual redução das pressões inflacionárias americanas, acompanhada de queda dos juros dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, poderia favorecer fluxos financeiros para economias emergentes e reduzir pressões sobre suas moedas.
Para o Brasil, esse cenário poderia ampliar o espaço para uma política monetária menos restritiva.
Mas não existe relação automática entre vitória democrata, desvalorização do dólar e queda da taxa Selic.
A evolução do câmbio dependerá também das condições geopolíticas, dos diferenciais de juros, dos fluxos de capitais e das decisões das autoridades econômicas brasileiras.
A experiência brasileira de 2024 demonstrou a importância desses mecanismos.
Pressões cambiais, quando não adequadamente administradas, podem ser transmitidas aos preços domésticos e contribuir para decisões monetárias excessivamente restritivas, com custos importantes sobre a atividade produtiva e as despesas financeiras do Estado.
Isso reforça a necessidade de uma política cambial articulada à política monetária, em lugar de uma estratégia que atribua exclusivamente à taxa de juros a responsabilidade pela estabilidade dos preços.
O terceiro efeito está relacionado à política externa.
A recomposição dos controles parlamentares poderá limitar determinadas iniciativas unilaterais da administração Trump e ampliar espaços de negociação multilateral.
Ainda assim, o Executivo americano continuará desempenhando papel central na condução diplomática.
Finalmente, existe uma consequência política para a América Latina.
A derrota republicana enfraquece a percepção de que a expansão internacional da direita radical constitui um processo eleitoral irreversível.
Mas a trajetória dessas forças dependerá fundamentalmente das condições econômicas, institucionais e sociais de cada país.
O Brasil não deve interpretar o resultado americano como substituto de suas próprias escolhas de desenvolvimento.
Ao contrário, a experiência reforça a importância de construir políticas industriais, monetárias, fiscais e cambiais capazes de combinar crescimento produtivo, estabilidade econômica e melhoria distributiva.
10. A lição mais importante: desenvolvimento econômico é também uma questão de legitimidade social
A derrota de Trump permite recuperar uma questão frequentemente esquecida no debate econômico contemporâneo.
O crescimento não constitui um objetivo independente das condições sociais em que ocorre.
Uma estratégia de desenvolvimento precisa responder simultaneamente a três desafios: ampliar a capacidade produtiva, distribuir seus benefícios e preservar a legitimidade democrática das instituições.
A experiência americana evidencia os riscos de separar essas dimensões.
O nacionalismo econômico pode identificar problemas reais de desindustrialização e dependência externa, mas fracassar ao escolher instrumentos que ampliam os custos sociais sem produzir resultados produtivos suficientemente rápidos ou abrangentes.
Da mesma forma, uma orientação liberal pode criticar corretamente os custos de determinadas tarifas sem oferecer soluções para os problemas estruturais que alimentaram a demanda por proteção.
A alternativa não está na oposição simplista entre Estado e mercado.
Está na construção de instituições capazes de orientar o investimento, promover inovação, elevar a produtividade e assegurar que os ganhos econômicos se traduzam em melhores condições de vida.
Essa perspectiva também exige reconhecer que inflação, salários, lucros, juros e câmbio integram relações distributivas que não podem ser compreendidas apenas por modelos abstratos de equilíbrio.
As escolhas econômicas produzem vencedores e perdedores, alteram relações de poder e condicionam a sustentação política dos governos.
A derrota de Trump torna essa realidade particularmente visível.
Ela também demonstra que a legitimidade democrática não pode ser reduzida ao desempenho eleitoral ou à eficiência econômica presumida das políticas públicas.
A democracia exige instituições capazes de mediar conflitos sociais, limitar a concentração de poder e produzir respostas efetivas às necessidades coletivas.
Quando essas instituições deixam de oferecer perspectivas concretas de melhoria das condições de vida, amplia-se o espaço para lideranças que prometem soluções rápidas, frequentemente acompanhadas de discursos nacionalistas e confrontação institucional.
O desafio é enfrentar as causas econômicas e sociais dessas insatisfações sem sacrificar as instituições democráticas.
Conclusão — A derrota eleitoral e a contradição econômica
A vitória democrata nas eleições legislativas de 2026 representa um importante limite institucional ao poder de Donald Trump.
Mas seu significado mais profundo talvez esteja na contradição entre a promessa de reconstrução econômica nacional e a percepção de deterioração das condições de vida de parte do eleitorado.
O protecionismo, isoladamente, não assegura reindustrialização. A valorização dos mercados financeiros não garante prosperidade compartilhada. E a defesa da soberania nacional não substitui uma estratégia consistente de desenvolvimento econômico e social.
As pesquisas empíricas sobre as tarifas americanas demonstram que políticas comerciais apresentadas como instrumentos de proteção nacional podem transferir custos importantes para consumidores e empresas domésticas.
Isso não significa rejeitar a política industrial ou a proteção seletiva de atividades estratégicas.
Significa reconhecer que sua eficácia depende da articulação com investimentos produtivos, inovação, financiamento, transformação estrutural e mecanismos distributivos.
A experiência americana tampouco autoriza concluir que a resposta esteja no retorno irrestrito às políticas econômicas anteriores ao trumpismo.
Foram justamente as insuficiências dessas políticas, particularmente diante da desindustrialização regional, da desigualdade e da insegurança econômica, que contribuíram para criar as condições de sua ascensão.
O desafio dos democratas será demonstrar que existe uma alternativa capaz de enfrentar esses problemas sem reproduzir os custos sociais e institucionais da experiência trumpista.
Para o Brasil, a principal lição é igualmente relevante.
Uma política econômica só será duradoura quando combinar transformação produtiva, estabilidade macroeconômica, redução das desigualdades e instituições democráticas capazes de sustentar essas escolhas.
Trump perdeu o Congresso. Mas a disputa decisiva permanece aberta: quem será capaz de oferecer uma resposta econômica e social convincente às contradições que produziram o próprio trumpismo?
Leituras recomendadas — referências auditadas
Fontes jornalísticas
1. AX, Joseph; HEATH, Brad; LANGE, Jason. Democrats seize Congress in sweeping midterm repudiation of Trump. Reuters, 4 nov. 2026. https://www.reuters.com/legal/government/democrats-seize-congress-sweeping-midterm-repudiation-trump-2026-11-04/
2. REID, Tim; HUNNICUTT, Trevor. Top takeaways from the US midterm elections. Reuters, 4 nov. 2026. https://www.reuters.com/business/media-telecom/takeaways-us-midterm-elections-2026-11-04/
3. CHAUHAN, Shashwat; HATHI, Utkarsh. Wall Street rallies after Democrats win Congress; data center stocks slide. Reuters, 4 nov. 2026. https://www.reuters.com/business/us-stock-index-futures-steady-democrats-seize-congress-2026-11-04/
Pesquisas empíricas
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5. FAJGELBAUM, Pablo D.; GOLDBERG, Pinelopi K.; KENNEDY, Patrick J.; KHANDELWAL, Amit K. The Return to Protectionism. The Quarterly Journal of Economics, v. 135, n. 1, p. 1–55, 2020. https://doi.org/10.1093/qje/qjz036
Fundamentação teórica e histórica
6. POLANYI, Karl. The Great Transformation: The Political and Economic Origins of Our Time. Nova York: Farrar & Rinehart, 1944. Edição posterior: Beacon Press, 2001. https://www.loc.gov/item/00064156/
7. RODRIK, Dani. The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy. Nova York: W. W. Norton, 2011. https://drodrik.scholars.harvard.edu/publications/globalization-paradox-democracy-and-future-world-economy
8. CHANG, Ha-Joon. Kicking Away the Ladder: Development Strategy in Historical Perspective. Londres: Anthem Press, 2002. https://anthempress.com/books/kicking-away-the-ladder-pb
9. HIRSCHMAN, Albert O. The Strategy of Economic Development. New Haven: Yale University Press, 1958. https://search.worldcat.org/title/The-strategy-of-economic-development/oclc/265036663
Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.
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