6 de novembro de 2026

O Grande Erro de Interpretação da Inflação Brasileira pela Esquerda Neoliberal, por Alfredo Pereira Jr.

A adoção de políticas econômicas neoliberais, como no terceiro governo de Lula, colocaram o país em uma "camisa de força"
Marcello Grassmann

A esquerda brasileira atribuiu à emissão excessiva de moeda a hiperinflação entre 1970-1990, associada ao Plano Real.
O autor defende que a causa real da inflação foi o aumento do petróleo e insumos em dólar, não o excesso de Cruzeiros.
Propõe retorno a políticas keynesianas e uso de moeda digital estatal para controlar inflação e combater fraudes financeiras.

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O Grande Erro de Interpretação da Inflação Brasileira pela Esquerda Neoliberal

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por Alfredo Pereira Jr.

A esquerda (então social-democrata) brasileira foi muito afoita na condenação do “milagre econômico” promovido nos governos de Médici e Geisel, no período da Ditadura Militar, atribuindo à excessiva emissão de moeda soberana (o então Cruzeiro) a hiperinflação sofrida na década que começa ao final dos anos 1970 e só termina com o Plano Real em meados da década de 1990.

Os referenciais teóricos se invertiam! Delfim Netto, ministro da economia no período final do Milagre, foi Socialista (Fabiano), era favorável à emissão monetária soberana para impulsionar o desenvolvimento econômico, e era também favorável à distribuição da riqueza gerada, ao final do processo. De fato, no período de hiperinflação havia grande excesso de moeda soberana circulando, mas, pergunto: foi esse excesso de emissão a causa da inflação de preços que ocorria neste período?

Adotando o referencial teórico do inimigo (a Escola de Chicago americana, tendo como expoente Milton Friedman), a esquerda liberal – então social-democrata e depois (até hoje) neoliberal – entendeu que a resposta à pergunta acima seria positiva, e passou a recomendar a austeridade monetária (e fiscal) como remédio para a hiperinflação, mesmo que o principal artífice do Plano Real, André Lara Resende, tenha repetidamente se manifestado contra esta interpretação. Nesta visão de mundo, auto-contraditória, que desenvolveu nos últimos 30 anos, a esquerda neoliberal passou a defender a precedência da poupança sobre o investimento (tanto público como privado), e o corte dos investimentos públicos, como política de (suposto) favorecimento aos assalariados, mantendo o poder de compra dos salários e demais rendimentos.

Essa estratégia não teve sucesso por mais que quatro anos, levando à derrota de Fernando Henrique Cardoso e à ascensão do Partido dos Trabalhadores em 2002, que conseguiu minorar os efeitos danosos da austeridade monetária e da redução do estado ao mínimo (via privatizações) com a introdução de programas de assistência social como o Bolsa Família, que até o presente momento garantiram a permanência de Lula no poder, nos momentos em que a política se fez por meios legais e legítimos.

Entretanto, a adoção de políticas econômicas neoliberais, como no terceiro governo de Lula, tendo Fernando Haddad no Ministério da Economia, colocaram o país em uma “camisa de força” (André Lara Resende), na qual o desenvolvimento humano se torna impossível, e o endividamento dos pequenos empresários e trabalhadores ultrapassa todos os limites de tolerância.

Temos, então, que retornar aos fundamentos próprios da social-democracia, em John Maynard Keynes, e sua correta aplicação pelo Socialista Fabiano Delfim Netto, possibilitando o maior surto de desenvolvimento da história do país, o “Milagre Econômico”. Keynes era Cartalista (conceito que advém do livro Teoria Estatal do Dinheiro, de Joseph Knapp, publicado em 1925), o que significa que a origem do dinheiro para investimento público anti-crise cíclica do capitalismo seria a emissão soberana pelo estado, independentemente de uma poupança prévia, ou seja, primeiro é criado o dinheiro, depois é investido adequadamente a ao final temos a riqueza gerada pela infra-estrutura, tecnologia, materiais e trabalho humano, que foram financiados com o dinheiro emitido.

Ora, só quem viveu a época do Milagre e pós-Milagre, como eu, filho de empresário inovador que fez empréstimos em dólar para ampliar sua empresa (e foi à falência devido à alta do petróleo e conseqüente alta do dólar, tornando sua dívida impagável), pode ter uma noção menos ideológica e mais prática do que efetivamente causou a hiperinflação brasileira.

Minha resposta à pergunta inicial é negativa, ou seja, não foi o excesso de impressão de Cruzeiros que causou a hiperinflação. A verdadeira causa foi o aumento do petróleo e dos insumos em dólar, encarecendo os custos de produção e impedindo o funcionamento das muitas empresas que tinham feito empréstimos em dólar.  Mas porque, então, devemos perguntar, havia um excesso de Cruzeiros em circulação, gerando o efeito inercial de reajustes que mantinha a hiperinflação?

A resposta, meus caros amigos, só hoje em dia consigo entender, e espero que concordem comigo. Com a política vigente na época, que incentivava os empresários a fazer empréstimos em dólar, e com a avalanche especulativa de dólares que entrou no país após a alta do petróleo, o governo federal era obrigado a emitir Cruzeiros para converter esses dólares em moeda nacional! Esses Cruzeiros, evidentemente, como se tratava de papel-moeda com livre circulação, inflacionavam os preços, mesmo que não fossem apropriados pelos trabalhadores. Os trabalhadores estavam com dificuldade em pagar as contas do mês justamente porque esse dinheiro não ia para o bolso deles, e, portanto, não se tratava de modo algum de inflação por excesso de demanda!

Se minha hipótese for verdadeira, não temos motivo para continuar aderindo à perniciosa política econômica defendida pela Escola de Chicago, e consagrada no maléfico “Consenso de Washington”, que tinha como meta manter a hegemonia do dólar como meio de pagamento e reserva de valor internacional. Hoje em dia, com a possibilidade de emissão de uma moeda digital estatal cuja circulação pode ser controlada para se evitar não só a hiperinflação como também as muitas fraudes financeiras com as quais o neoliberalismo é conivente, devido à regra de reservas fracionárias em 10%, podemos ter uma nova política monetária de emissão de moeda soberana voltada para o investimento público produtivo, desse modo também combatendo as fraudes financeiras, uma vez que tal moeda é controlada pelo estado federal e pode ser desativada nos computadores do estado, no caso de operações ilícitas. Ao lado disso, temos uma decadência da hegemonia do dólar, possibilitando, em parceria com o BRICS, que usemos meios de pagamento digital como o PIX, no plano internacional, sem necessidade de conversão em dólar!

Alfredo Pereira Jr. – PG Filosofia UNESP, INE2S-CLE/UNICAMP, Pesquisador CNPQ

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