O Senado do Paraguai abriu na manhã desta sexta-feira (6) a sessão que pode selar a destituição do presidente Santiago Peña. Pressionado pelo colapso do banco digital Ueno Bank, que deixou milhões de cidadãos sem acesso às próprias contas, o mandatário manobra para adiar o desfecho de um processo que ameaça não apenas seu cargo, mas também sua imunidade perante a Justiça.
Após a Câmara dos Deputados aprovar a abertura do processo por unanimidade na quinta-feira (5), com 78 votos, os senadores assumiram a condução do julgamento político. A defesa de Peña, notificada na noite anterior com 15 páginas de acusações e 300 de anexos, solicitou a ampliação do prazo para sustentações de 12 para 72 horas.
Pelas redes sociais, Peña publicou uma foto com seus advogados e pressionou o Legislativo. “Esperamos que o Senado obrigue minha solicitação de prórroga do plazo para exercer meus direitos constitucionais de defesa, ante sua notória insuficiência“, escreveu.
Para que o presidente seja afastado em definitivo, são necessários 30 votos entre os 45 senadores. Caso a destituição se confirme, o vice-presidente Pedro Alliana, que teve um pedido de impeachment sumariamente rejeitado pela Câmara, assumirá o comando do país até o fim do mandato, em agosto de 2028.
O colapso do Ueno Bank
A derrocada de Peña, representante do tradicional partido Colorado, ocorre no rastro de um escândalo financeiro profundo. Na terça-feira (3), o Banco Central paraguaio liquidou o Ueno Bank por insolvência. A instituição administrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos previdenciários.
O Ministério Público abriu investigação criminal e decretou a prisão de oito ex-dirigentes do banco. O presidente da República é apontado pela oposição por conflito de interesses, manipulação de regras e acobertamento institucional, uma vez que figurou como acionista do grupo controlador do banco até março de 2025.
Renúncia e manobras no Congresso
Na tentativa de evitar os danos judiciais de uma cassação, Peña chegou a enviar ao Congresso uma carta de renúncia em formato de vídeo na quinta-feira. No pronunciamento, justificou o ato “pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas“.
O presidente também se dirigiu aos cidadãos que perderam suas economias. “Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai. Também quero pedir desculpas ao povo. Se em algum momento falhei, nunca foi minha intenção decepcionar a confiança que depositaram em mim“, declarou.
A estratégia por trás da renúncia voluntária seria preservar o status de senador vitalício, benefício constitucional que garante imunidade parlamentar pelo resto da vida a ex-presidentes. Chefes de Estado destituídos por julgamento político, contudo, perdem esse direito.
Por isso, a oposição passou a exigir a rejeição do pedido de renúncia e a continuidade do impeachment. “Se aceitarmos esta renúncia, o que estamos fazendo é permitir que Santiago Peña obtenha foro parlamentar e que todo o dinheiro que foi roubado fique impune, porque a Promotoria não poderá apresentar acusações contra ele“, afirmou o senador opositor Líder Amarilla.
A sessão conjunta do Congresso destinada a avaliar a renúncia terminou suspensa por falta de quórum. Uma ala de parlamentares governistas esvaziou o plenário ao perceber que não teria os votos suficientes para chancelar a saída voluntária do presidente. Com a manobra, o trâmite da renúncia travou, abrindo caminho para que o Senado retomasse o rito do impeachment nesta sexta.
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