O Brasil avançou no uso de mosquitos Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia, que bloqueia a replicação do vírus da dengue. A estratégia começou em Jurujuba, bairro de Niterói (RJ), entre agosto de 2015 e janeiro de 2016, e chegou a toda a cidade em 2019. Um estudo-piloto da Fiocruz com o World Mosquito Program mostrou queda de 69% nos casos de dengue após dois anos e de quase 90% após cinco.
Hoje, segundo o Ministério da Saúde, a soltura ocorre em 16 municípios, que somam 16 milhões de habitantes, com investimento de R$ 117 milhões até agora. A pasta planeja incluir outras 54 cidades a partir de 2027, alcançando mais 7,2 milhões de pessoas; em São Paulo, Campinas e Ribeirão Preto estão na lista. Neste ano, foram adquiridos mosquitos suficientes para atender cerca de 10 milhões de habitantes.
Os ovos são produzidos em duas biofábricas, a Wolbito do Brasil, em Curitiba, com capacidade de até 150 milhões por semana, e a Flyttr, em Campinas, com até 190 milhões. Os insetos são liberados semanalmente por agentes de saúde e, ao cruzarem com fêmeas selvagens, geram descendentes que também carregam a bactéria. Em algumas semanas, cerca de 70% dos mosquitos do local passam a ser portadores, o que reduz a transmissão da doença. Segundo o ministério, o processo leva em média até 26 semanas.
O pesquisador da Fiocruz Luciano Moreira, que liderou os estudos de Niterói e de Campo Grande (MS), conheceu a técnica na Austrália, no laboratório de Scott O’Neill, descobridor do método. Os testes iniciais mostraram que a bactéria bloqueia a replicação dos vírus da dengue e da chikungunya e, depois, também do zika. Segundo Moreira, a redução média dos casos varia de 30% a 70%, porque ainda existe transmissão residual. Ele aponta como virada de chave a inclusão do método nas diretrizes nacionais de saúde em 2024, quando deixou de ser pesquisa acadêmica e virou política pública.
Esse foi o pior ano da doença desde 2000, com 6,56 milhões de casos e 6.321 mortes, sob forte influência do El Niño. Em 2026, o fenômeno climático volta a preocupar. Segundo o boletim InfoDengue, a projeção para o período de setembro de 2026 a janeiro de 2027 é de aumento de 138,2% nos casos na região Sul, 98,4% no Centro-Oeste e quase 85% no Sudeste. A Fiocruz também indica tendência de alta em Acre, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro e Sergipe.
Para o infectologista Julio Croda, da Fiocruz, a tecnologia se sustenta sozinha após cerca de dois anos, quando atinge em média 60% de cobertura municipal. Por isso, a liberação precisa começar dois anos antes da temporada que se quer proteger. Ele defende priorizar locais com picos da doença em anos mais quentes, já que a dengue avança para áreas tradicionalmente mais frias, como Sul e Sudeste. Segundo ele, as biofábricas estão prontas, mas a produção esbarra em limitações orçamentárias.
O Ministério da Saúde afirma que atualizou o plano nacional de combate à dengue, com apoio a planos locais em capacitação, manejo clínico, vigilância e suporte técnico. A pasta explica que a quantidade de ovos necessária varia conforme o tamanho da população e as características de cada município.
Outro obstáculo é regulatório. A diretora-executiva da Flyttr no Brasil, Natália Ferreira, relata que, até o início de outubro, a diretriz da Saúde adotava como padrão o mosquito da Fiocruz/Wolbito. A empresa negocia com o ministério a produção em Campinas e oferece também a cepa wAlbB, mais resistente a altas temperaturas e potencialmente útil em períodos de El Niño. Moreira, por sua vez, afirma que a experiência brasileira, com evidências de eficácia e segurança em 16 países, mostra que o modelo está pronto para ser replicado e levado a outras nações.
*Com informações da Folha.
LEIA TAMBÉM:
Deixe um comentário