4 de junho de 2026

Especial GGN: A ameaça da desinformação sobre o desarmamento, por Instituto Igarapé

“O aumento de 1% de armas de fogo em circulação eleva em até 2% a taxa de homicídio no Brasil (Ipea). E o Mapa da Violência calcula que, entre 2004 e 2012, o Estatuto do Desarmamento poupou 160 mil vidas. Revogá-lo é um retrocesso”
 

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Jornal GGN – A Revogação do Estatuto do Desarmamento, possibilitando o porte de armas aos brasileiros, foi uma das bandeiras de campanha do presidente eleito Jair Bolsonaro para a área de Segurança Pública. Prometendo ser uma de suas prioridades assim que tomar posse, em 2019, a liberação de armas é alvo de críticas de organizações da sociedade civil, que avaliam a medida como um retrocesso na segurança, na defesa de direitos humanos e na proteção à vida.

Dois projetos em pauta no Congresso Nacional trazem a promessa do futuro presidente de serem votados no início do próximo ano [confira aqui o que tratam estas propostas]. Buscando compreender os riscos e as consequências da revogação do Estatuto do Desarmamento no Brasil, o GGN consultou diversas organizações e entidades da sociedade civil que apresentaram seus posicionamentos a respeito da medida. Abaixo, a colaboração do Instituto Igarapé para o debate.

Especial GGN: É preciso debater a revogação do Estatuto do Desarmamento

A ameaça da desinformação sobre o Estatuto do Desarmamento

Por Dandara Tinoco

Duas características que podem parecer antagônicas vêm marcando a discussão sobre mudanças na legislação brasileira que regula armas de fogo e munições. O debate é, ao mesmo tempo, intenso e superficial. Intenso porque a segurança está entre as principais preocupações de brasileiros, profundamente atingidos pela violência e, assim, aflitos por soluções. A urgência é legítima. Porém, muitas vezes impede que olhemos com o cuidado necessário para essa questão. Experiências em nosso país e no resto do mundo mostram que flexibilizar as atuais regras implicará em um agravamento ainda maior da nossa situação. Isso fica evidente quando buscamos entender alguns detalhes.

Antes de tudo, é preciso conhecer o que diz a lei 10.826, de 2003. Ao contrário do que faz parecer o nome pelo qual ficou conhecido, o Estatuto do Desarmamento não desarma a população. Cidadãos brasileiros podem ter até seis armas de fogo. Isso, claro, desde que preencham alguns requisitos. É preciso ter mais de 25 anos, comprovar ocupação lícita, residência, capacidade técnica e aptidão psicológica. O indivíduo não pode possuir antecedentes criminais, estar respondendo a inquérito policial ou a processo criminal. Além disso, deve declarar porque necessita de uma arma.

A legislação brasileira tampouco proíbe a comercialização de armas, tema discutido no referendo de 2005. Com frequência, se afirma, de maneira incorreta, que a opinião da população demonstrada naquela ocasião foi desrespeitada. “O comércio de armas e munição deve ser proibido no Brasil?”, perguntou a consulta popular. A maior parte dos cidadãos respondeu que “não” e, acatando isso, manteve-se a comercialização, o que viabiliza a posse. Caso contrário, ela não seria possível.

Mas, então, qual a relevância do estatuto? Um dos importantes avanços da legislação diz respeito ao controle do porte de armas, ou seja, ao ato de andar por aí armado. A lei proíbe cidadãos em geral a portarem armas, salvo no caso de algumas categorias profissionais, como integrantes das Forças Armadas, policiais e guardas municipais. Assim, quem tem uma arma e não se encaixa nesses casos, deve mantê-la em sua casa ou em seu local de trabalho, desde que seja o responsável legal pelo estabelecimento.

A lei representou um avanço porque estudos mostram que mais armas são sinônimo de crescimento na violência letal. Estudos em diversas partes do mundo mostram que ampliar acesso a armas aumenta conflitos com mortes. No Brasil, de acordo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o aumento de 1% de armas de fogo em circulação, eleva em até 2% a taxa de homicídio no Brasil. E, mais, ter uma arma não é garantia de estar protegido. Em São Paulo, o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCrim) constatou que pessoas armadas tinham 56% mais chance de serem mortas por ladrões do que as que circulavam desarmadas. Isso porque o fator surpresa costuma estar a favor de quem pratica o crime e não de quem reage a ele. 

Os riscos de enfraquecer a legislação não acabam aí. Uma série de pesquisas mostram que armas apreendidas pela polícia costumam nascer na legalidade, mas, ao longo de suas trajetórias, acabam sendo desviadas. Isso pode ocorrer a partir de subtrações em arsenais das próprias forças de segurança, de empresas privadas ou vítimas de assalto armadas. Assim, como indicado pelo próprio futuro ministro da Justiça, “uma flexibilização excessiva pode ser utilizada para municiar organizações criminosas”. Adicionalmente, armas elevam as chances de ataques a tiros em massa. Em casa, aumentam o risco de acidentes, suicídios e assassinatos de parceiros.

Precisamos admitir que sozinho o Estatuto do Desarmamento, como toda lei ou política pública, não é uma solução mágica. Segundo a Polícia Federal, o número de registros anuais de armas de fogo de pessoas físicas disparou de cerca de 3 mil, em 2004, para 33 mil, em 2017. Apenas em 2016, 44.475 pessoas morreram pelo disparo de uma arma de fogo. Por outro lado, até o início de 2014, quase 650 mil armas de fogo foram entregues voluntariamente pela população. E, o Mapa da Violência calcula que, entre 2004 e 2012, a lei poupou 160 mil vidas.

Os dados e avaliações demonstram que revogar o Estatuto é um retrocesso. É preciso, ao contrário, aperfeiçoar a lei e sua aplicação. Aprimorar o processo de registro periódico de armas de fogo, mecanismos de consulta para rastreamento mais eficientes e a política de marcação de armas e munições são alguns exemplos de como fazer isso. Aprofundar o debate é crucial para conduzi-lo de maneira responsável. A primeira arma a que devemos recorrer para reduzir a violência é, portanto, a informação.

*Dandara Tinoco é assessora sênior em comunicação e pesquisa do Instituto Igarapé. É formada em jornalismo pela PUC-Rio e possui mestrado em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento pela UFRJ.

 

Acompanhe os outros artigos e debates aqui!

 

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

13 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    14 de novembro de 2018 10:58 am

    No dia em que prestei

    No dia em que prestei depoimento na PF (caso referido aqui no GGN), tive que aguardar algum tempo até a Escrivã da PF ir a outra sala imprimir um documento para eu assinar. Enquanto ela não retornava, fiquei conversando informalmente com a Delegada que tomou meu depoimento. Àquela altura a Delegada já parecia ter se convencido que a investigação contra mim e a diligência feita na minha havia sido inútil. Como ela passou a me tratar de maneira gentil disse-lhe algo mais ou menos assim:

    “Se o Bolsonaro for eleito a senhora vai ter bastante trabalho. Aquela besta fera é apoiado por bestas feras. Se Bolsonaro liberar o comércio de armamentos, a PF vai ser jogada no olho do furação. Os eleitores dele rapidamente começarão a organizar “grupos de ação direta”, ou seja, “grupos terroristas” para impor a força nas ruas as ideias estapafurdias que Bolsonaro defende: o extermínio de gays, negros, sem terras, petistas, comunistas e, por fim, qualquer pessoa que for acusada de se enquadrar numa destas categorias. Em mais de uma década do PT no governo a PF não teve que lidar com um só grupo terrorista de esquerda. Isso é um fato que a senhora não pode negar. Eu não represento um perigo para ninguém, nem arma de fogo eu tenho ou quero ter. Mas esses caras do Bolsonaro são diferentes. Reze para ele não ser eleito, pois se isso acontecer os riscos que os agente da PF terão que correr serão imensos.” 

    Bolsonaro foi eleito e já começou a movimentar os pauzinhos para garantir a “purificação” que ele prometeu aos seus eleitores. Suponho que aquela Delegada da PF certamente está muito mais ansiosa nesse momento do que estava quando teve que lidar com esse inocente tranquilo e desarmado que vos fala. A bonança dos tempos do PT acabou. Agora a PF terá que lidar com os terroristas de verdade. 

    1. Roger Augusto De Christis Berbert

      15 de novembro de 2018 12:28 am

      Classificaria a sua
      Classificaria a sua declaração como teoria da conspiração.

  2. Vladimir

    14 de novembro de 2018 11:17 am

    E só conversar com qualquer

    E só conversar com qualquer apoiador da revogação  do estatuto do desarmamento e perceber que esta discussão é inócua.

    Para eles,o que vale é a justiça direta e,por direta,eles entendem pena de morte para qualquer delito. Não entendem,ou fingem não entender,que o outro lado,o que assalta,está sempre em vantagem. O assalto conta,sobretudo,com a surpresa da vítima.

    Isto não mudará,armado ou não. As vítimas armadas serão meros fornecedores de armas para aqueles que os assaltam.

    Essa gente nunca entenderá a complexidade de uma política de segurança eficaz simplesmente porque não entendem nada complexo.

    1. Jackson da Viola

      14 de novembro de 2018 1:35 pm

      Ja vejo…..

      O pcc ou outros bandos organizados, criando “departamento” especilizado em “guentar” arma importada e de ultimo tipo de playboyzinho classe media/alta……..ou os mesmos playboys trocando o glock ou sig sauer “da moda” por po magico…… ou ainda, ja que ta todo mundo “maquinado”, os assaltntes vão chegar atirando primeiro e perguntando depois…….

  3. Romanelli

    14 de novembro de 2018 11:43 am

    é por estas e outras que os

    é por estas e outras que os AUTO proclamados progressistas estão perdendo no argumento

    VEM CÀ ..que número máigico é esse de 25 anos ? nóis é inutil ? ou 16, 18, 21 ou 25  ..decida ?!

    e porque ter que explicar ? pra que autoridade ? Problema do cara caramba !!  ..ou isso facilita o natal da turma ?

    agora  ..ái daquele que matar-ferir alguém sem estar amparado na LEI  ..assim que deveria ser ..sem demora ..HOJE, nem um nem outro, fica difícil  ..vale faca, pau, pá, enxada e até PRIVADA

    que coisa  ..quanto a posse na RUA, BOZO já recuou desse “!mal entendido”, ele é esperto, sabe que aqui não pode se transformar num FAROESTE, afinal, o BRASIL ostenta pro mundo números piores que aqueles

  4. ze sergio

    14 de novembro de 2018 12:00 pm

    88 ANOS DE ANTICAPITALISMO DE ESTADO ABSOLUTISTA ESQUERDOPATA

    E sua Base formada por Elite e Censura. De um lado o a Ditadura de Feudos, Ditadura de Federações, Democracia sem Povo, os tais ‘Representante do Povo’. Uns tais que se creem Ungidos enquanto censuram e calam a Voz Soberana da População Brasileira. Ditadura Caudilhista Fascista Esquerdopata de Quartéis Militares é vangloriada até hoje. O Brasil de muito fácil explicação. Num raro lampejo de Democracia, aceitaram, fazer um Plebiscito a respeito de Desarmamento. Acordo feito com então parceiro de primeira hora, a Rede Globo, colocou Tony Ramos, em horário nobre. morrendo baleado nas TVs de todos Brasileiros. O Golpe não colou. Então a Opinião Soberana do Povo Brasileiro foi dilacerada num Estatuto de Desarmamento que foi totalmente contrário à Vontade da Nação. Democracia?!! 

  5. mauro silva 1

    14 de novembro de 2018 12:03 pm

    discordo da ilustre jornalista

    uma sucessão de decretos, quese todos assinados pelo ministro ‘rolandolero’, modificaram a lei e isso é ilegal: um decreto não pode alterar o sentido de uma lei federal.

    esses argumentos dos acadêmicos estão desconectados da realidade das periferias e campo.

    o posse e o porte, se as esquerdas continuarem a defender essa posição niilista, será aprovado, mas restrito ‘às pessoas de bem’, ou seja, a versão brasileira dos ‘wasp’ ianques.

    isso está mais claro que o brilho do sol.

    1. Alan Souza

      14 de novembro de 2018 2:43 pm

      This comment has been deleted.

      1. Guilherme Reis

        15 de novembro de 2018 1:08 pm

        Por que uma arma custa 4 mil
        Por que uma arma custa 4 mil reais? Por causa de impostos, o lançamento da Taurus a ts9, arma com ação híbrida e sistema Striker firer, custando menos de 2mil reais para os cacs, acaba com a palhaçada de barrar outras empresas de venderem no país que o valor despenca.

  6. IA2

    14 de novembro de 2018 3:49 pm

    A polícia que mais mata no

    A polícia que mais mata no mundo tá armada. Juiz que quer importar drone de Israel pra atirar em quem tá armado na rua, tem porte de arma. Os militares que deram o golpe na Dilma tão armados. Os bandidos que assaltam e matam tão armados. Quem mesmo é que tá desarmado? Quem mesmo que é obrigado a ficar preso dentro de casa e apavorado sem ter como defender a si mesmo e a família quando a polícia tá de greve? Quem mesmo é que morre no meio da mata por tar desarmado e o pistoleiro do fazendeiro tá armado até os dentes? Quem souber me avisa aqui nos comentários.

  7. Jorge Fernandes

    14 de novembro de 2018 6:45 pm

    Segurança

    é obrigação do Estado

    Se o Estado, afirma que vai armar a população para que esta se defenda, o Estado afirma que é incompetente para fazer aquilo que é sua maior obrigação

     

    Qual a redução nos impostos que o Estado irá fazer, para compensar o fato de que não é capaz de gerir a segurança do cidadão ????

  8. marques Santos de Oliveira

    15 de novembro de 2018 1:04 pm

    Instituto de pesquisa
    Não são confiáveis, taí as eleições pra provar, fazer pesquisa de gabinete não revela a realidade, você está totalmente equivocada nos seus argumentos sobre desarmamento, afinal a própria população não quis o fim do desarmamento foi o governo do PT que impôs, então nada mais justo que devolver o direito aos cidadãos de novo.

  9. BRUNO MARQUES GULLO

    15 de novembro de 2018 7:07 pm

    Debate sobre o estatuto do desarmamento.
    Dandara Tinoco é assessora sênior em comunicação e pesquisa do Instituto Igarapé. É formada em jornalismo pela PUC-Rio e possui mestrado em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento pela UFRJ.

    A pesquisa já diz tudo: Jornalista!!!

    Faça uma pesquisa com quem realmente entende desse assunto, como por exemplo, Bené Barbosa, especialista no assunto. Jornalista não é especialista na área. Sou fã do Bené Barbosa, pois ele realmente entende do assunto, das leis e o fato dessa Dandara ser jornalista é muito suspeito, pois não sabemos em qual lado ela está ou se tem alguma influência política.
    Sejamos racionais, o que mata mais, acidente de trânsito ou armas legalizadas de cidadãos de bem??
    Eu disse armas legalizadas eu não disse armas ilegais, então sejamos sinceros, não entraremos nessa de ser manipulados por pesquisa sem mérito nenhum de quem é um jornalista e ainda mais sem crédito algum. Chamem o Bené Barbosa pra uma entrevista.
    Como alguns amigos que eu li nos comentários disse, o PT acabou com os nossos direitos como cidadão de bem, como afundou o País.
    A lei 10.826/03 ela diz que todo o cidadão de bem pode ter arma, mas não é bem assim! Existe pessoas de bem que mesmo com todos os trâmites em ok, são indeferidos, sinarm, libera para quem acha que deve liberar e não é bem assim!
    Direito administrativo diz que se todo o cidadão atender os requisitos pedidos pelo órgão, ela deve atender, então ela deveria conceder, mas não é bem assim, então queremos nossos direitos de volta.

Recomendados para você

Recomendados