5 de junho de 2026

Anotações sobre o grande desastre, por Gilberto Maringoni

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Por Gilberto Maringoni

 
A maior proeza de Jair Bolsonaro não foi ter vencido as eleições. Foi ter imposto sua agenda para toda a disputa. E esse – contraditoriamente – pode ser seu calcanhar de Aquiles no governo. A mercadoria que prometeu vagamente entregar – “mudar isso que está aí” – pode não constar de seu estoque. Esse é tema para outro artigo. Quero me deter no caminho que percorremos até aqui.
 
Há uma pergunta essencial a ser respondida: por que, num país de 14 milhões de desempregados, com uma recessão sem sinais claros de reversão, em processo acelerado de desindustrialização e com serviços públicos rumando para o colapso, a agenda eleitoral se voltou para uma pauta claramente moralista e despolitizada?
 
E mais: como alguém considerado pela direção do PT como o adversário ideal a ser batido no segundo turno teve esse poder de agenda ao longo dos últimos meses.
 
Talvez a chave da resposta esteja em como o próprio PT decidiu encarar o enfrentamento nas urnas. Lula buscou controlar o leme da jornada ao se colocar como candidato até os 44 minutos do segundo tempo – ou seja, até meados de setembro, sem indicar um vice ou plano B.
 
Para isso, não priorizou a luta política aberta. Condenado e encarcerado, resolveu concretizar uma ideia de duvidoso efeito prático. A vertente traçada foi a de delegar tacitamente a direção de campanha aos seus advogados, que impetraram ações em cima de ações, numa comovente confiança no sistema jurídico brasileiro.
 
O caminho escolhido não foi o de questionar o governo Temer e seus representantes ocultos na campanha presidencial, mas o de mostrar Lula como vítima injusta de um processo fraudulento. É a mais pura verdade. Mas fazer da condição do ex-presidente o centro da campanha, ao invés dos problemas concretos vividos pela maioria dos brasileiros, foi aposta de alto risco. Em lugar de um julgamento de Temer e de suas reformas regressivas, Lula chamou para si a questão. Sua tática foi transformar as eleições em um plebiscito sobre si mesmo.
 
Percebendo a insuficiência dessa opção, ela veio acompanhada de outra: a saudade dos bons tempos, quando o Brasil crescia e os salários idem. O país era respeitado no mundo e o futuro parecia radioso. Parte disso é verdade. Mas saudade é um sentimento seletivo, como se sabe. Tende a ser unidimensional. Escolhemos o que lembrar e escolhemos o que esquecer. Diferentemente de olhar criticamente o passado para entender o presente – a base do estudo da História – a saudade tem os dois pés no idealismo. Assim, os pilares da campanha petista até o final do primeiro turno tinham na vitimização e na saudade suas linhas mestras. Ou seja, em sentimentos fora da política e do confronto.
 
Uma terceira linha de conduta foi agregada a essas vertentes. Se o centro de tudo seria Lula, faltava uma peça no quebra-cabeças. O raciocínio se tornaria redondo com o mantra “Haddad no governo, Lula no poder”, um mal ajambrado slogan retirado da campanha de Héctor Cámpora à presidência da Argentina, em 1973. Esse era o complemento para sustentar o nome de Lula como candidato até a undécima hora, transformando Fernando Haddad em mero biombo seu. Além de desqualificar o real candidato petista, a formulação o deixou na sombra até depois de iniciada a campanha.
 
Haddad não participou de debates, sabatinas e entrevistas até o final de setembro. Isso dificultou muito a fixação de seu nome e a politização da campanha. Como subproduto, os pouco mais de dois minutos de horário televisivo que o PT dispunha no primeiro turno foram tomados pela tentativa de colar seu nome ao de Lula. Não houve nenhum ataque a Jair Bolsonaro. Nenhum, o que é incrível .Traçados esses vetores todos, uma resultante sobressai: o PT optou por despolitizar a campanha na primeira volta, deixando uma avenida aberta para que algum aventureiro aparecesse.
 
Quando Jair Bolsonaro sofre o atentado em 7 de setembro, a campanha muda de rumo. Hospitalizado e com risco de vida, ele também se torna vítima. Lula perde a primazia dessa condição. Com isso, o ex-capitão consegue, enfim, emplacar a sua agenda como central. Sem política, valendo-se de medos e preconceitos arraigados na população, Bolsonaro adiciona mais um ingrediente, o antipetismo. E aqui evidencia-se um antipetismo de novo tipo. Trata-se de uma repulsa popular ao partido, diferentemente de sua versão conservadora e de direita, que via na ascensão dos pobres um problema a ser vencido.
 
O novo antipetismo sensibilizou os órfãos do próprio PT, as vítimas da depressão de 2015-16, promovida por Dilma e Joaquim Levi. Os que aceleradamente perderam empregos, oportunidades e enfrentaram uma situação econômica que se degradava aceleradamente. Os que confiaram no discurso desenvolvimentista da candidata petista naquelas eleições e viram seu contrato selado através do voto ser rompido sem explicação, com a adoção do programa de Aécio Neves para a economia. Esses formam a massa de dezenas de milhões que entraram em desespero e caíram na conversa fácil da propaganda fascista e de suas respostas simples para problemas complexos.
 
É preciso olhar para essas linhas de força traçadas na campanha de 2018 e que tiveram raízes fincadas nos últimos anos para que tentemos entender o que aconteceu. Claro, há Ciro Gomes e sua vergonhosa omissão na luta, desrespeitando até mesmo seus apoiadores e correligionários. Há também o uso criminoso do WhatsApp, que precisamos compreender mais profundamente.
 
Mas se não focarmos as avaliações na política e em nossas insuficiências, empurraremos o problema com a barriga para mais adiante. Podemos nos confraternizar em nossas dores e frustrações – o que deve ser feito – e fazer como os republicanos espanhóis após a dramática derrota da Guerra Civil (1936-38). Diziam eles: “Perdemos, mas nossas canções são incomparavelmente mais belas”.
 
Não há dúvidas. Não apenas nossas canções são mais belas, como reunimos o que há de melhor no mundo do trabalho, da academia – com destaque para os estudantes –, da cultura, das artes e da inteligência, enfim. Temos ao nosso lado o mais importante líder popular de nossa História, um candidato – Fernando Haddad – que se agigantou na jornada e uma liderança de primeira grandeza, como Guilherme Boulos. E mais do que tudo, unimos a esquerda, os democratas, parte dos liberais, dos nacionalistas e dos que lutam por um Brasil socialmente justo. Temos de cumprir um roteiro doloroso, chorar sozinhos e juntos., tomar fôlego, entender racionalmente o que aconteceu e voltar à ação.
 
Lamber nossas feridas está sendo duro. Encarar a besta-fera fascista exige coesão e comunhão de propósitos. Que o exame e as avaliações desse período não nos dilacerem, mas consolidem a união pela resistência e superação. O fascismo não permanecerá.
 
Já vencemos no passado e venceremos no futuro.
 
Não estamos sozinhos. Somos milhões.

Gilberto Maringoni

Gilberto Maringoni de Oliveira é um jornalista, cartunista e professor universitário brasileiro. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.

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13 Comentários
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  1. eugenialoureiro

    2 de novembro de 2018 2:51 pm

    Meu deus, como pode ser, eu

    Meu deus, como pode ser, eu sempre esqueço que a culpa é do PT e do Lula.

     

    1. Marcos Videira

      2 de novembro de 2018 5:49 pm

      É tudo mentira

      Não acredite em MENTIRAS. Tudo o que estão falando é fake news. A realidade é outra:

      (1) Bolsonaro perdeu as eleições

      (2) a genialidade política de Lula criou uma estratégia eleitoral que levou o PT a outra vitória.

  2. eugenialoureiro

    2 de novembro de 2018 3:01 pm

    Lutar por Lula Candidato foi

    Lutar por Lula Candidato foi a luta contra a fraude que se manifestava nas eleições que se avizanhavam e que só agora fica bastante clara com o convite de Bolsonaro presidente a Moro para o Superministério da Justiça, a aceitação deste, e que, pasmem, segundo Mourão (vice), esse concluio já vinha deste antes do 1º turno.

    O whatsup foi recurso de candidato sem partido e sem eleitor e, dada a própria natureza da candidatura, necessariamente ilegal. De forma legal não teria os recursos para conseguir o mesmo resultado. A parte legal digamos assim foi cunprida pelo Judiciário completamente omisso para não dizer conivente e a mídia descaradamente conivente.

     

  3. André Oliveira

    2 de novembro de 2018 3:31 pm

    O PT elegeu a maior bancada
    O PT elegeu a maior bancada da Câmara e levou seu candidato à presidencia ao segundo turno tendo 45% dos votos válidos, sabe por que? Pq Lula empurrou sua candidatura até o último minuto do segundo tempo. Se o PT tivesse lançado outro candidato a presidencia desde o início a performance eleitoral do partido na eleição geral teria sido inferior a que foi.

  4. GEORGE Vidipo

    2 de novembro de 2018 4:06 pm

    A culpa é do PT.

    Se existe uma esquerda no Congresso em 2019 se deve ao PT. Aqui no Rio de Janeiro, o PSOL, a melhor esquerda, esperava eleger 4 ou seis deputados federais, elegeu um e o segundo depende da “justiça” para nomear outro. Seu candidato a governador chegou em terceiro e isso aconteceu devido ao voto util. Sim a esquerda foi quase varrida do Brasil. Isso foi resultado de um movimento começou em 2013. Curiosamente o PSOL e o PSTU imaginavam serem os privilegiados pelo povo, que condenava o governo de centro-esquerda petista. O povo gritava mais saúde e mais educação.  

    O intelectual deveria lembrar que o resultado de 2013 foi o domínio do Congresso de politicos conservadores e que permaneceu nesse novo mandato. Houve sim renovação, mas a essencia é a mesma. O Bolso foi apenas o beneficiado desse movimento “contra tudo que isso aí”. 

    Obs:

    . Desde que o PT assumiu o poder em 2002, os intelectuais progressista condenavam o partido dizendo que era de direita. Havia também um “concenso”, entre eles, que não havia mais “direita e esquerda”. No entanto na midia hegemônica e nas redes sociais o PT era taxado de comunista e tinha uma estratégia do poder pelo poder. Depois o PT passou a ser o maior corruto do Planeta.  

    . Creiro que esses intelectuais deveriam também fazer uma autocritica sobre como contribuiram para ascensão do Bolso.

    1. Ataíde Coutinho

      2 de novembro de 2018 4:47 pm

      Concordo

                   O antipetismo é uma moda  que o psol adora usar ,abraçaram de forma inquestionavel a pecha de Petecorrupto ,Freixo no RJ abadonou uma campanha à prefeitura pra abraçar o antipetismo e perder a eleição para um evangélico , em SP os candidatos do PSOL  que adotaram o antipetismo como plataforma politica se deram muito bem  .

                 Todos esqueceram o cenário de terra araasada pego por Lula em 2002 , mesmo em crise o pais pego por Temer e Bolsonaro está muito melhor que em 2002 aonde quem dava a as redeas economicas era o FMI , e não tinhamos  presal , assim como Vargas o petismo só terá valor lá na frente para alguns historiadores !

    2. Serjao

      2 de novembro de 2018 7:16 pm

      kkkkkkkkkkkkk

      A culpa é da Dilma, é do Lula, é do PT.

      Seria cômico…

  5. Fernando J.

    2 de novembro de 2018 4:07 pm

    Nomes aos bois

    “E mais: como alguém considerado pela direção do PT como o adversário ideal a ser batido no segundo turno teve esse poder de agenda ao longo dos últimos meses.”

    Não fica dando indireta, não,  ô Gilberto, vamos dar nomes aos bois. Por uma questão de justiça, não foi só esse aí abaixo, há mais, principalmente os colunistas cheerleaders, animadores de torcida, que pululam nas redes sociais. 

     A imagem pode conter: texto

     

    Por quais motivos e razões alguém se depara com essa publicação aí acima e printa a tela e guarda? Resposta, porque em 22.09.2018 era uma completa e total SANDICE. Só a petezada alucinada não via isso, incapaz de enxergar o tamanho do anti-petismo. “Anti-petismo non ecziste” DIRCEU, Zé. 

    A História vai colocar no seu devido lugar o responsável por essa tragédia, não sou eu, vai ser a História. 

  6. Marcos Videira

    2 de novembro de 2018 4:36 pm

    Só a verdade liberta e nos unirá

    MARINGONI: você apenas tangenciou a causa principal dessa tragédia: o antipetismo. Todas as pesquisas de todos os institutos mostraram que essa força negativa seria determinante no resultado. Além dos institutos, políticos experientes e vitoriosos (Jaques Wagner, Flávio Dino, etc) alertaram e defenderam uma Frente. Tudo isso foi repudiado por Lula e pelo PT. Isto são fatos e o que foi previsto se consumou: um ignorante fascista foi legitimado pelo voto.

    Você está escrevendo esse artigo porque sabe que foi formada um bancada na Câmara entre PCdoB, PSB e PDT (com 69  deputados) que atuará de forma autônoma e não aceitará mais a imposição da hegemonia petista. A Frente Ampla proposta por esses partidos NÃO aceita mais imposições como a que ocorreu nestas eleições (ver artigo escrito 2 meses antes das eleições e publicada por este GGN – ‘Domingo Sangrento” de Ricardo Cappelli).

    Não podemos jogar para baixo do tapete os enormes erros que nos levaram a essa dramática situação. As pessoas que vão participar dessa Frente Ampla (vitalmente necessária) não podem ser enganadas. Acredite: a verdade liberta !

  7. Fernando J.

    2 de novembro de 2018 4:46 pm

    Comentário de 07.07.2015

    Em 07.07.2015, Luís Nassif publicou uma coluna “

    O dia seguinte ao impeachment“, em que antecipa tudo o que estamos vivendo HOJE. Há mais de 3 anos. Versava, entre outros tópicos, sobre a inação do governo Dilma frente ao golpe. Fiz o comentário abaixo: 

    imagem de Fernando J.Fernando J.

    Caro Alex, sou realista

    Cenário de hoje, julho/2015. Lula e o PT não sobrevivem a 2018. Já estou conformado com isso. A luta agora é manter o governo no campo progressista a partir de 2018, com o Ciro Gomes. 

    Esqueçam o comentário acima, leiam a coluna do Nassif, fecha em tudo. 

     

  8. Jossimar

    2 de novembro de 2018 5:26 pm

    O PT cometeu um erro fatal:

    O PT cometeu um erro fatal: abrir mão da candidatura Lula.

    Deveria ter mantido o Lula candidato e OBRIGADO o stfede a cassá-lo.

    O STF não cassaria a chapa porque os golpistas PRECISAVAM de uma eleição com o PT para que o PT fosse derrotado e o golpe legitimado pelas urnas do tse.

    Nesse caso, o PT deveria se retirar da disputa e alegar fraude e perseguição continuada e ainda denunciar o golpe de 2016 aplicado com o respaldo do judiciário.

    Poderia manter o discurso de golpe, fraude, perseguição, etc

    Com a derrota humilhante perdeu todo o discurso.

    Sem o Lula o PT jamais venceria a eleição, qualquer um podia enxergar isto.

    O Lula é muito maior que o PT e estava MUITO claro que, se fosse necessário, o tse e a lava jato impediriam a vitória do PT a qualquer custo.

    Com o Lula cassado e o PT fora da disputa presidencial o partido poderia focar em eleger uma bancada maiior no congresso usando a perseguição ao Lula e ao partido como mote e se colocar como defensor do país, dos pobres, dos direitos trabalhistas, dos direitos civis, defensor das minorias, etc etc

    E os bozos não teriam como incutir na população o ódio contra o PT porque o partido não estaria na disputa presidencial.

    Era melhor um recuo tático do que uma derrota anunciada.

    Penso que neste caso ganharia o Alckmim ou o Ciro. Dois merdas, mas menos piores que o bozo.

    Do jeito que foi feito podemos dizer que o PT se comportou EXATAMENTE como queriam os golpistas.

    Nas próximas eleições o PT se tornará m partido nanico.

    1. Ale Nogueira

      3 de novembro de 2018 3:38 pm

      Lúcido!

      A verdadeiro luta é contra o golpe! Somente Lula poderia, ou derrotar o golpe sendo eleito, ou denunciá-lo em sendo cassado. Haddad em nenhum momento da campanha usou a palavra “golpe”.

  9. JJLopez

    3 de novembro de 2018 10:27 am

    Entrega das nossa soberania e riquezas

    Onde andam os governadores progressistas que não dão um pio sobre a entrega do país às empresas estrangeiras? Maior catástrofe não é a reforma trabalhista ou da previdência. De longe a entrega do Brasil e seus recusrsos naturais, sua soberania é milhões de vezes mais catastrófico para o país a méda longo prazs do que essas reformas. Acorda Brasil! As caravelas da pilhagem voltaram!

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