5 de junho de 2026

Lula é Haddad: o desafio do segundo turno, por Paulo Nogueira Batista Jr.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Lula é Haddad: o desafio do segundo turno

por Paulo Nogueira Batista Jr.

Como sofremos! A semana anterior ao primeiro turno trouxe reversão brutal das expectativas, que culminou na onda do domingo 7. Bolsonaro abriu ao longo da semana uma vantagem de 2 a 0 sobre Haddad. E por pouco, muito pouco mesmo, não aumentou a vantagem para 3 ou 4. No domingo, a bola bateu na trave, bateu no travessão, mas não entrou. Foi por um fio.

O que vimos não foi, como disseram alguns dos principais jornais, uma onda de direita ou conservadora. Foi uma onda Bolsonaro, uma onda de extrema direita, que arrasou grande parte da direita tradicional. Os seus candidatos à Presidência e a governos de Estados foram dizimados. No Congresso, os partidos associados a Temer e ao golpe de 2016 murcharam.

A esquerda também ficou abalada, como sabemos. O impacto foi tão forte que muitos desanimaram e passaram a considerar que as chances de Haddad são remotas ou até inexistentes.

Calma! O jogo não acabou. Vamos ter que jogar com garra, dar o sangue, bater na medalhinha. Mas é perfeitamente possível virar o jogo no segundo tempo.

Primeiro ponto: o voto útil da direita já migrou maciçamente para Bolsonaro nos últimos dias antes da votação. Era a tentativa de evitar o PT no segundo turno e liquidar a fatura no primeiro. Mas não houve voto útil na esquerda em Haddad. E por que haveria? Haddad não tinha a menor chance de ganhar na primeira volta. Ciro teve votação respeitável e cresceu um pouco final. É agora que os votos dele e de outros candidatos migrarão para Haddad.

Posso ilustrar esse ponto recorrendo a um pouco de aritmética? A diferença entre Bolsonaro e Haddad foi de 17 pontos percentuais dos votos válidos (46 contra 29). Parece razoável admitir que o grosso dos eleitores de Ciro passe para Haddad no segundo turno. Recebendo, digamos, 11 dos 12,5 pontos de Ciro, Haddad iria a 40% dos votos válidos.

Acredito que é possível também, usando o discurso correto, tirar eleitores de Bolsonaro ou levá-los a votar em branco – especialmente pessoas de baixa renda, que já votaram em Lula e no PT no passado, mas que optaram, desorientados, pela falsa novidade do candidato de extrema direita. É verdade que, segundo os institutos de pesquisa, a taxa de fidelidade (o percentual que declara não mudar de voto em nenhuma hipótese) é alta tanto para Haddad como para Bolsonaro – algo como 80%. Mas, tendo em vista a velocidade e a dimensão da subida de Bolsonaro na reta final, é provável que a sua taxa de fidelidade seja agora menor, ou seja, que tenha aumentado o percentual de votos voláteis e reversíveis.

Repare, leitor(a), que bastaria que 3% dos votos válidos passassem de Bolsonaro para Haddad para levar os dois candidatos a empatar em 43%. Isso, claro, se a transferência de Ciro alcançasse valor próximo ao indicado acima.

Segundo ponto: por motivos não inteiramente claros, Haddad escapou ileso da onda de extrema direita que vitimou várias lideranças de peso do PT e da esquerda (Dilma, Suplicy, Lindbergh, Requião, entre outros). Ele até cresceu um pouco na reta final.

Terceiro ponto (que talvez explique o segundo):  Haddad tem perfil moderado e é um bom candidato para disputar o segundo turno, ocasião em que os candidatos devem tentar se deslocar para o centro. Ele é um político naturalmente “amplo” e pode conquistar, sendo apenas ele mesmo, eleitores mais ao centro do espectro político, não necessariamente muito simpáticos ao PT.

Temos trunfos importantes, portanto. Podemos também (Deus ajudando) contar com os erros dos integrantes mais medíocres ou menos experientes do time adversário (Fala mais, General Mourão! Fala mais, Paulo Guedes!). Mas o decisivo é jogar bem, agressivamente, com coragem, usando todos os trunfos.

O grande trunfo de Haddad continua sendo o ex-presidente Lula, um dos maiores – talvez o maior – líder político da história brasileira. No meu entender, o desafio de Haddad no segundo turno é definir corretamente a sua relação com Lula.

Veja, leitor(a), a complexidade do desafio. Haddad não pode se ofuscar ou anular perante Lula. Mas não pode, também, tomar distância dele. É uma faca de dois gumes. Só que um dos gumes corta muito mais.

A mídia tradicional recomenda, em coro: “Haddad precisa mostrar que é Haddad, a rejeição a Lula é alta, para crescer é preciso ficar mais longe do padrinho político encarcerado”, etc.

Canto de sereia. São muitos os méritos do candidato, que tem tudo para ser um grande presidente. Mas os votos são de quem?

Tomar distância de Lula será visto pelo eleitor como ingratidão e levará a perda de apoio e votos. E quem é visceralmente contra Lula não votará em Haddad de qualquer maneira.

Que melhor conselheiro poderia ter Haddad? Lula, para além de todos as suas qualidades, tem vasta e inestimável experiência em disputar ou orientar disputas eleitorais. E ganhou as quatro últimas eleições presidenciais. Haddad não deve reduzir as suas visitas a Curitiba. Humildade e realismo nunca tiraram voto de ninguém.

Uma inflexão na forma de apresentar a relação com Lula é provavelmente recomendável. Haddad fez bela campanha e chegou ao segundo turno em condições adversas, depois de pouquíssimo tempo de campanha.

No primeiro turno, para garantir a transferência de votos, o lema foi “Haddad é Lula”.  No segundo, o lema não deve ser “Haddad é Haddad”, mas sim “Lula é Haddad”.

Diferença sutil. Lula passa para o início da frase, mas Haddad ocupa o seu centro. Inflexão, não cavalo de pau.

Paulo Nogueira Batista Jr. é economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países.

E-mail: [email protected]

Twitter: @paulonbjr

Paulo Nogueira Batista Jr.

Paulo Nogueira Batista é economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Lançou no final de 2019, pela editora LeYa, o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata. A segunda edição, atualizada e ampliada, foi publicada em 2021. E-mail: [email protected] X: @paulonbjr Canal YouTube: youtube.nogueirabatista.com.br Portal: www.nogueirabatista.com.br

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

10 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Paulo Roberto 2

    11 de outubro de 2018 6:59 pm

    Dados de rejeicao do datafolha???

    Por favor, alguem viu os dados de rejeicao do datafolha… não vir ninguem comentando. Parece que querem esconder.

  2. Roberto Paes Leme

    11 de outubro de 2018 8:57 pm

    Concordo, mas ´nas fotos da

    Concordo, mas ´nas fotos da campanha aparecem apenas Haddad e Manuela sem o Lula. E também achei errado tirar a estrela e o nome do PT.

  3. Jossimar

    11 de outubro de 2018 9:46 pm

    Errou feio.
    Bolsonaro 58 x 42

    Errou feio.

    Bolsonaro 58 x 42 Haddad.

    Está perdido.

    O PT cometeu o gravíssimo erro de substituir o Lula poupando o STF da desonra nacional e internacional.

    Deveria ter deixado o STF cassar a chapa como ameaçaram mas nunca fariam.

    Com este erro histórico o PT legitimou a fraude que esta eleição representa.

  4. Edson J

    11 de outubro de 2018 10:05 pm

    Traição

    Ou ingratidão. É assim que muita gente que conheço está a interpretar essa tentativa de “apagar” Lula. Será que os “çábios” que inventaram isso ainda não notaram que a liderança de Lula e a simpatia por ele são muito maiores do que o PT? Claro, essas pessoas não mudarão o voto para Bolsonaro, mas existem o branco e o nulo. Devagar com o andor, pessoal, porque o autor da matéria  está com a razão.

  5. Cesario

    11 de outubro de 2018 11:11 pm

    Visibilidade
    Um fator que não temos como avaliar de pronto, e que quase todos se esqueceram é a visibilidade da televisão. Com esse instrumento as mensagens terroristas da equipe de Bolsonaro chegarão aos eleitores do nordeste.

  6. cc

    12 de outubro de 2018 4:06 am

    lula.lula.lula
    o tema é lula

    é preciso ainda explicar
    pra muita gente

    haddad é lula.

    sem lula a pauta é bousoignaro.

    é preciso agir e não reagir apenas.

    lula. lula. lula.

    orgulho. sabedoria. conhecimento.
    democracia. e sim honestidade pessoal.

    houve dinheiro pra partidos?
    as regras do jogo político
    praticadas por todos,
    são proibidas para os amigos do povo.
    ok, erro.

    mas lula nunca foi um erro.

    lula é fome zero. luz pra todos. minha casa minha vida. emprestar pro fmi. transposição. cisternas. mei. prouni. enem. federais. mais médicos. sus. resolver oriente médio. protagonismo e autoestima. orgulho de ser brasileiro.

    haddad é lula.

  7. Stalingrado Lula da Silva

    12 de outubro de 2018 10:49 am

    Lula venceria no primeiro turno
    Ciro Jeirissati, fugiu.
    Quem não quer o fascismo, votará em Haddad.
    A briga é transmitir emoção para o eleitorado que votava no PT e migrou para Bolsonaro baseado em notícias fantasiosas.
    A história do PT pedir perdão é da chamada pequeno-burguesia carola.
    Não tem que abandonar Lula, este é o jogo da Globo e do PJ Partido da Justiça.
    #HaddadNoGovernoLulaNoPoder

  8. Alexandre Weber - Santos -SP

    12 de outubro de 2018 12:02 pm

    A realidade é dura e cruel

    A minha opinião é a de que, nem Haddad, nem Lula não sabem governar e por isto fizeram e vão continuar a lambança do PT.

  9. Maria Luisa

    12 de outubro de 2018 12:10 pm

    Lula é Haddad

    Acho que a ideia da mudança no slogan é boa, fortalece o Haddad.  Melhor mesmo o Haddad assumir o protagonismo dessa eleição, falar em seu nome e partir pro tudo ou tudo. 🙂

  10. Juliano Santos

    12 de outubro de 2018 7:38 pm

    A onda Bolsonaro às vésperas

    A onda Bolsonaro às vésperas do primeiro turno é volátil sim. Mas para revertê-la é preciso muito empenho, pois pela inércia ela garante a vitória do coiso com naturalidade.

    Esse avalanche de votos de ultima hora se deu a partir do apoio do Bispo Macedo. Este apoiava Alkimin que com essa mudança caiu de 10 para 5%. O voto do coiso passou a entrar no povão, aí virou onda.

    Acontteceu parecido com a Marina em 2014. Um evento trágico, a morte do Eduardo Campos, a colocou no jogo e começou a subir, também por ser evangélica. O PT descontruiu Marina pelo discuros centrado na economia, fragilidade dela por ter programa neoliberal.

    Breno Altman do Opera Mundi defende que sa faça a mesma coisa agora. Faz sentido, pois o calcanhar de Aquiles do coiso é o seu programa economico, ultraliberal. É aí que se pode recuperar o voto do pobre que era do Lula. 

    O evangélico pobre pode ficar até um pouco assustado com a agenda “obcena” do Haddad, mas na hora de votar pode pensar no emprego, no salário, no decimo terceiro, férias e nos seus diretos. Pode pensar também na faculdade para o filho.

    Isso o PT deu ao pobre, e não há fakenews que tire isso. A unica chance é botar o programa economico petista do lado do Paulo Guedes, e apostar na lucidez do povo. Não há mais o que fazer.

    PS: A questão dos direitos humanos, a luta contra o fascismo, homofobia, machismo e etc é bom também. Mas consquistará poucos votos, os conservadores esclarecidos de centro. Não é o suficiente

Recomendados para você

Recomendados