5 de junho de 2026

Equívocos científicos: um pequeno engano, por Gustavo Gollo

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Equívocos científicos: um pequeno engano, por Gustavo Gollo

Apresentei aqui no GGN anteriormente alguns equívocos científicos atuais, mostrando que a ciência não é infalível, que enganos acontecem e fazem parte da dinâmica científica, do modo como o conhecimento científico se desenvolve naturalmente.

Sob meu ponto de vista, os equívocos tratados anteriormente constituem erros estruturais fundamentais, ambos com graves consequências para a biologia, ao contrário do que mostrarei a seguir, simples e pontual.

A determinação do número de cromossomos humanos

O número de cromossomos humanos foi determinado na década de 1890 e, em 1914, pelo menos 15 pesquisadores haviam publicado artigos relatando o número de cromossomos humanos: 48. A constatação era duvidosa devido a dificuldades técnicas de observação e contagem dos cromossomos, fato explicitamente relatado pelos pesquisadores.

Apesar de tais dificuldades, no início da década de 20 ficou estabelecido o número de 48 cromossomos para a espécie humana. Esse resultado foi consistentemente confirmado por dezenas de estudos posteriores e publicado nos livros didáticos até 1956, quando novas técnicas estabeleceram, fora de dúvida, a contagem de 46 cromossomos para o Homo sapiens.

Tanto o erro, quanto a correção, me parecem fatos banais. O próprio conhecimento em questão, o número de cromossomos humanos, me parece uma banalidade, mais uma curiosidade que algo realmente digno de atenção, embora minhas apreciações sobre tais questões costumem destoar das usuais. Meu interesse na questão decorre de duas considerações: o fato de tratar-se de um equívoco científico bem documentado, atestando a existência de erros científicos, em contraposição às concepções usuais que atribuem uma infalibilidade dogmática às conclusões científicas; e certas peculiaridades que ocasionaram o erro.

O equívoco em questão, simples e banal, consistiu, meramente, em um erro de contagem. Deve-se ter em mente que as imagens conseguidas pelos pesquisadores da época não facilitavam as contagens de cromossomos, longe disso, era difícil conseguir imagens claras e bem definidas das microscópicas estruturas; todas elas eram confusas, emaranhados difíceis de serem identificados um a um.

As considerações acima justificam a dificuldade na contagem, não o estabelecimento “científico” de uma crença: se as imagens não eram claras e confiáveis, por que o número de cromossomos humanos foi estabelecido tão categoricamente? De fato, até o início da década de 20, os artigos concordavam, quase todos, com o número 48, ao mesmo tempo em que não asseguravam a certeza da contagem. Melhoramentos nas técnicas permitiram a obtenção da imagem acima, e de outras igualmente elucidativas que confirmaram, sistematicamente, o mesmo número. Dezenas de estudos, talvez centenas, confirmaram o “fato”.

Tais considerações revelam a conclusão muito simples de que a ciência é uma atividade humana, falível, como qualquer outra – embora, muito frequentemente, ninguém consiga vislumbrar qualquer alternativa racional à conclusão científica.

O papel do cientista é duvidar absolutamente de tudo; nenhuma dúvida, por menor que seja, pode ser tolerada pela ciência, e todas elas devem ensejar esclarecimentos. Assim, sempre duvidando de tudo, de cada detalhe, de cada inferência, os cientistas vão eliminando tudo o que possa ser negado, restando apenas as conclusões indubitáveis, aquelas que nenhuma pessoa sã conseguirá negar. Atente que novas descobertas, novas concepções podem mudar esse estado de coisas, tornando racionais certas dúvidas anteriormente impensáveis. Verdadeiros cientistas, dignos desse rótulo, não aceitam dogmas.

Apesar disso, a ciência é uma atividade humana, e inúmeros “cientistas” são, lamentavelmente, criaturas dogmáticas, forjadas sob um ensino dogmático que eles mesmos também impingem a seus discípulos, uma lástima. Tais criaturas são facilmente identificadas. Raramente utilizam argumentos racionais, preferindo os argumentos de autoridade; veneram citações e referências, dando a elas muito mais atenção que aos argumentos e à racionalidade das conclusões. Consideram-se muito rigorosos quanto a tudo isso, e não permitem de nenhum modo que uma simples imposição racional, um mero argumento, destrua suas convicções firme e rigorosamente estabelecidas com base em artigos científicos respeitáveis, fundamentados por outros igualmente rigorosos.

Em contraposição a eles, creio que citações e referências servem apenas para abreviar argumentos, nada mais que isso. Argumentos se sustentam por si, não necessitando de nenhum respaldo de autoridade. O contrário disso constitui os dogmas.

 

Tendo sido sugerida no século XIX, a contagem de 48 cromossomos foi ganhando força e credibilidade a cada novo estudo. E todos confirmavam o erro, um a um, com mais ênfase conforme o aperfeiçoamento das técnicas facilitava a contagem, tornando-a cada vez mais clara e segura. Note que, durante décadas, todos “sabiam” que o número de cromossomos humanos era 48, fato estabelecido cientificamente. Costuma ser bem difícil se contrapor a dogmas, mesmo um tão banal quanto esse, que poderia ser negado por uma simples contagem – dogmas são passíveis de refutação por argumentos, nesse caso, o argumento consiste na contagem de elementos em uma imagem.

Foi preciso um novo equívoco para consertar o primeiro.

Estudantes de citologia aprendem em suas primeiras aulas que as células devem ser conservadas em soluções salinas. Imersas na água sem sal, as células absorvem líquido em excesso, incham e estouram. Equívocos, no entanto, acontecem.

Foi um descuido desse tipo, a imersão da célula em água, que permitiu a dispersão dos cromossomos, facilitando enormemente a contagem, expondo nitidamente o erro, e estabelecendo, fora de dúvida, o número de 46 cromossomos para a espécie humana.

                              

Fico a pensar no que seria caso o tal descuido não tivesse ocorrido, e os sucessivos estudos tivessem confirmado cada vez mais rigorosa e categoricamente o equívoco, e em quantos outros equívocos científicos existirão, atestados por estudos cada vez mais categóricos…

Aos amantes do jogo da ciência, a perspectiva gerada pela elucubração acima é animadora! Devem existir inúmeras conclusões, referendadas e consagradas por centenas de “observações” rigorosas e categoricamente documentadas, cujos autores se preocuparam muito mais com a manutenção de dogmas que com os fatos, o que propicia saboroso material para os amantes do jogo. Alerto, no entanto, que não será fácil se contrapor a dogmas; haverá sempre quem os defenda contra toda a racionalidade.

Quanto à credibilidade científica, ela não se baseia em dogmas, nem se vangloria da infalibilidade. Verdadeiros cientistas sabem que toda a ciência é falível, e que todo o conhecimento humano é passível de dúvidas e questionamentos. Boa ciência, no entanto, é aquela que se sustenta contra todas as dúvidas racionais, que apesar de todos os ataques, de todas as críticas, permanece como única alternativa sensata.

O jogo da ciência se processa através da demolição de hipóteses prévias, com auxílio de dúvidas radicais, implacáveis, contundentes, e da construção de novas respostas capazes de resistir provisoriamente a novas críticas que acabarão por arrasá-las, um dia, abrindo espaço para a invenção de novas hipóteses.

A falibilidade científica é um dos temperos do jogo.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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