
Vencer o Jair não basta III – o passado não nos condena
por Márcio Venciguerra
O patriarcado não é destino e nem foi prevalente na história da humanidade. Trata-se de uma aberração atravancadora do desenvolvimento humano que tem comprovadamente destruído as chances de uma vida melhor. Esse é o assunto deste terceiro artigo sobre a necessidade de manter a intensidade das críticas ao candidato Jair Bolsonaro. Apesar de o atentado ter chocado a todos os democratas, a ameaça representada pelo projeto dos nazicrentes não pode ser ignorada.
A utopia patriarcal parece forte, mas é na verdade um ponto fraco na política de Jair – um mito com pés de barro porque nem a maioria dos homens ou das mulheres gostaria de viver num mundo sem namoro e sem fitna (o charme revolucionário feminino, segundo os islâmicos). A forma como essa perspectiva é desagradável pode ser ilustrada pela série de TV O Conto da Aia, cuja segunda temporada em cartaz na TV a cabo.
Talvez por causa da prevalência dos filmes de histórias da Bíblia ou de aventuras dos gregos e romanos, há uma falsa narrativa de que o patriarcado é um regime estável e dominante no nosso passado. Não era verdade nem na Antiguidade.
Heródoto, por exemplo, ficou pasmo ao saber de mulheres egípcias empregadas no comércio, fazendo negócios imobiliários, com propriedades, garantindo empréstimos e testemunhando nos tribunais. Isso é particularmente interessante porque o seu par nas leituras do ensino médio, o Homero, foi o autor da versão grega do Mito de Eva (ao menos acho isso, mas veja como faz sentido). Em ambos os mitos tudo gira em torno de uma maça encarnada de “pomo da discórdia” e “fruto do pecado”
Na Ilíada, o príncipe troiano Páris tem de decidir entre duas virtudes masculinas – a sabedoria e o poder rancoroso – ou a possibilidade de casar com a mulher mais linda do mundo. Como escolheu Helena, acabou perdendo a guerra. Nem as amazonas ajudaram muito.
Mesmo entre pessoas de esquerda essa narrativa falsa pró-patriarcas costuma ser prevalente. A começar pela seguinte leitura dinâmica e superficial de Rosseau a Engels.
No princípio, se vivia numa sociedade livre, até que alguém cercou um pedaço de chão e o fez o primeiro terreno Após garantir a posse dos frutos da terra, o fazendeiro teve a ideia de fazer o mesmo para controlar a fertilidade da mulher e se tornou um patriarca. Assim começou a trajetória que deu no que deu: Tradição, Família, Estado e Propriedade Privada.
Esse resuminho é falho se olhar melhor. Quem deu a Friedrich Engels a imagem de comunismo original foram os relatos sobre os iroquis de um precursor da antropologia, Lewis Henry Morgan, feitos entre 1851 e 1877. Eram pessoas reais, não parte do mito do bom selvagem.
Os guerreiros iroquis foram o fiel da balança na disputa entre ingleses e franceses na América do Norte por dois séculos. Tanto que os ingleses tiveram de lançar mão da guerra bacteriológica bárbara, num dos episódios genocidas mais repugnantes da história, ao introduzir a varíola trazida da Europa em cobertores, de forma deliberada.
O iroquis não eram primitivos e tinham um imaginário sofisticado. Benjamim Franklin e outros “pais fundadores” dos Estados Unidos aprenderam alguns conceitos de democracia com eles, como a livre determinação dos povos, presentes na Grande Lei da Paz. Aliás, a Constituição Iroqui começa com a escolha de um sujeito que ficou bem conhecido entre os brancos: “nós, o povo, decidimos”. O equilíbrio entre os sexos dos iroquis demorou mais para ser compreendido pelo europeu do que a harmonia política entre os homens, mas ajudou a inspirar feministas da virada para o século XX.
Mesmo com apoio do imperialismo, capaz de destruir todos os aspectos da vida de um povo dominado, são notáveis os exemplos de resistência ao patriarcado em culturas africanas e americanas durante a colonização. Ou dos povos da Indonésia e de Sumatra contra o avanço do Islã, levado ali pelo comércio e não pela guerra.
A formas mais livres de sexualidade associadas ao sentimento de liberdade são laços bastante estáveis e difíceis de romper. Já o patriarcalismo demanda uma pressão permanente das autoridades e clero para se manter. Sempre que a opressão diminue, como aconteceu no final da idade média européia, a fitna retorna. No entanto, ao ver esse renascimento, os patriarcalistas reagem com contra-reformas, inquisição, guerra dos cem anos, puritanos e, atualmente, os nazicrentes.
No mundo muçulmano a tendência não foi tão liberalizante quanto no ocidente, mas houve o mesmo padrão de conflito. Maimônides teve de fugir quando os islâmicos do Marrocos foram impor a lei religiosa em Córdoba, por volta de 1150 d. C; e foi servir ao reino de Saladino, no Iraque. Na geração seguinte, a Espanha não foi mais um local onde se inventava bom aço e poesia. A Bagdá livre onde Al-Khwarizmi criou a álgebra acabou tendo o mesmo fim imposto pelos religiosos.
Aprendemos pouco sobre esses processos na escola porque o currículo é parte da construção ideológica da centralidade da Europa patriarcal sobre o resto do mundo. As outras culturas são massacradas também no imaginário, dando a falsa impressão que a humanidade vem dos patriarcados greco-romanos.
Acreditamos até na balela que o Império Romano caiu por causa das orgias e não porque os povos vizinhos explorados descobriram formas de vencê-los. Armínio (não o Fraga) acabou com uma legião fácil porque fora mercenário contratado e aprendera os pontos fracos. Vinho e sexo não enfraqueceu Roma. Isso é um mito para manter o patriarcado como alternativa ao fracasso. Sendo que a Humanidade sempre obteve muito sucesso sem ele.
A mais antiga profissão – Depois da Segunda Guerra, em Yale, sob influência dos evolucionistas britânicos (além de Morgan, também havia Tylor e Spencer), o precursor da antropologia George P. Murdock resolveu colocar em planilhas o que se sabia sobre culturas atuais e antigas. Um dos resultados foi a Amostra Padrão Transcultural (Standard Cross-Cultural Sample – SCCS) que demonstrou que o patriarcalismo é estatisticamente uma raridade na história humana.
Na mesma época, na Europa, a arqueóloga Marija Gimbutas lia as escavações dos povos precursores indo-europeus com os olhos de quem fora criada na Lituâniana profunda do início do século XX, onde a maioria da população vivia no paganismo, com pouca ou quase nenhuma presença da patriarcal Santa Madre.
Para ela, a guerra era uma coisa rara quando se formaram as primeiras cidades agrícolas da Eurásia, pois os principais altares eram ocupados pela figura da deusa mãe. A mitologia da deusa tornava a sociedade menos dominada pelos homens e, portanto, menos guerreira, reza a teoria. Então, há cerca de 4 mil anos, houve um aumento das batalhas, devido à maior mobilidade oferecida pelos cavalos. Montados, os povos indo-europeus passaram a valorizar mais os deuses masculinos, o que levou para a criação de mitos da criação masculinizados e a troca das sociedades matrifocalizadas pelas patrifocalizadas.
A honestidade intelectual de Marija e suas seguidoras as fizeram rejeitar o termo matriarcado e passaram a usar o conceito de matrifocalizado para definir sociedades com política mais favoráveis às mulheres. Para Marija, é possível medir a importância feminina olhando os cemitérios. Haver mulheres enterradas com honras de rainha ou guerreira significa que eram vistas assim em vida. E isso acontecia até nas patrifocalizadas.
A grosso modo, as patrifocalizadas eram culturas com uma valorização masculina no imaginário, mas que, no frigir dos ovos, a homarada nem sempre mandava de verdade. Tinham rainhas e outras mulheres poderosas. Eles só se exibiam mais, especialmente como guerreiros e salvadores do reino. Essa lógica foi bem explicada com um estudo sobre a mais antiga das profissões: caçador.
A antropóloga Kristen Hawkes e seus colaboradores, durante a década de 1970, mediram a comida dos índios Aché, do Paraguai, e do povo Hadza, da Tanzânia. O estudo ofereceu um bom vislumbre do que é patrifocalização.
As mulheres Aché costumavam ser responsáveis por trazer uma média diária de 10.356 calorias. Já homens, quando conseguiam abater uma presa, levavam 40 mil calorias a cada bicho morto. Parece bom, mas a média diária deles é de 4.663 calorias – menos da metade do obtido pelas mulheres. Isso porque a maior parte dos dias é da caça.
Como experiência, Kristen pediu aos caçadores para ignorarem os grandes mamíferos e dedicarem-se a pegar coelhos e outros animais pequenos. Houve um aumento no volume de carne arrecadado, porém, os homens desistiram da proposta porque não havia graça em voltar todos os dias com um pouco de carne de roedor.
O ideal é abater um grande animal e fazer uma festa na volta à tribo. A distribuição alegre e generosa de comida traz a vantagem da exibição. Quando Kristen perguntou às 28 mulheres Aché quem poderia ser o pai das 66 crianças da tribo, se chegou a uma média de 2,1 pais para cada rebento. Os nomes dos grandes caçadores apareciam no topo da lista dos amantes.
Os grandes guerreiros, segundo Marija, tinham também essa vantagem de atrair amantes com gestos de generosidade e coragem. Como uma estrela dos esportes, atraiam a atenção das moças.
Infantaria sem glamour – Associado ao aumento de população gerado pelo cultivo de grãos, o patriarcalismo antigo se beneficiou de uma grande mudança tecnológica na guerra, com a invenção da infantaria. A barreira de homens com escudos tirou o valor individual do guerreiro. O aumento relativo da segurança em batalha, produzido pelas táticas ombro a ombro, implicava novo acréscimo de cooperação na hierarquia masculina. Se o risco de morte compensava pelo aumento do apelo sexual e a fama, agora as mulheres podiam ser obtidas por meio da confiança de seu irmão de armas. Os gregos e romanos são exemplos máximos desta relação entre o patriarcado e a barreira de escudos e lanças.
Há no cinema uma glamorização desse machismo. No filme feito para a garotada, o imperador inimigo vivido por Rodrigo Santoro está cheio de piercing, para se mostrar um decadente pela fitna. Santoro, em entrevista, disse que não adiantou a pesquisa histórica que fez para construir o personagem Xerxes por que o filme não tinha base real alguma.
Em 300 de Esparta, o sucesso se deve ao patriarcalismo dos gregos e sua grande infantaria pesada, capaz de bater a superioridade numérica persa. Como é difícil encontrar exemplo melhor de laços bem atados entre os homens, esse mito é um fundamento da construção do patriarcado militarista. Tanto que o inimigo na continuação do filme é liderado por uma brava guerreira a ser destroçada.
Enfim, até nos filmes de guerra o patriarcalismo é chato. Esse é seu ponto frágil, não tem romance.
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