
Eleições 2018: escola sem partido x Partido da Língua Portuguesa
por Fábio de Oliveira Ribeiro
Uma das coisas mais interessantes na história do Brasil é a forma como a propriedade da Língua Portuguesa desempenhou um papel fundamental na apropriação do espaço geográfico. Ela unificava os colonos em face dos índios e, depois, dos escravos. Os “outros”, ou seja, aqueles que não eram portugueses, falavam uma miríade de dialetos o que impedia que eles se entendessem entre si e de se fazer entender diante do conquistador.
Do ponto de vista dos índios que almejavam se aliar aos colonos e dos negros que desejavam viver um pouco melhor servindo docilmente seus proprietários a posse da Língua Portuguesa provavelmente era considerada como uma fonte de poder. Aprendê-la possibilitava entender os colonos e se fazer entender diante deles. Ignorá-la poderia resultar tanto em sofrer violências quanto necessitar de um interlocutor.
A construção e expansão da nação brasileira se deu pela força bruta, mas ela se consolidou pela sedução linguística. Mas no momento em que a esmagadora maioria dos brasileiros passaram a falar português o poder simbólico da língua se desvaneceu. Uma nova fonte de poder teve que ser construída pelos herdeiros dos colonos. E foi assim que uma variante do português (a língua considerada culta) passou a ser mais valorizada, depreciando-se os dialetos da língua portuguesa (o português errado, degenerado) falados nos sertões, nos grotões e nas favelas.
Falar correto se tornou fonte de poder como falar português havia sido no passado. A gramática substituiu o arcabuz, mas o efeito político e repressivo foi o mesmo: a naturalização das diferenças e hierarquias sociais. Com o passar do tempo, porém, o poder simbólico da gramática da Língua Portuguesa também e desgastou por força da universalização da educação. É neste ponto em que nos encontramos nesse momento.
A crise política em que o Brasil se encontra pode de certa maneira ser descrita como a crise de uma língua culta cuja propriedade não é mais exclusiva e, portanto, deixou de ser fonte de poder de uma classe social. Tucanos e petistas usam a mesma língua com a mesma eficiência comunicativa e política e isso abala as hierarquias naturalizadas ao longo de cinco séculos de predomínio no espaço geográfico e político por alguns proprietários da Língua Portuguesa.
Duas soluções se apresentaram então no imaginário daqueles que se julgam donos do poder simbólico e, portanto, do país e de tudo que existe nele (aí incluídas as consciências das pessoas que pensam de maneira diferente). A primeira foi desvalorizar a Língua Portuguesa em face de uma língua estrangeira (que pode ser o francês ou o inglês). Quem fala outra língua é proprietário de algo mais do que quem se comunica apenas em português culto. Um exemplo notável desta distinção foi dado pela imprensa, que elogiava FHC porque ele falava em francês com os governantes franceses ao contrário de Lula que precisava de um interprete.
A reação negativa da elite brasileira ao programa Ciência sem Fronteiras encontra aqui sua principal explicação. O que será de nossos filhos que falam outra língua se os filhos dos pobres também tiverem acesso à essa nova fonte de poder político? Jesse Souza descreve o golpe como fruto do ódio ao pobre. Talvez ele possa também ser explicado pelo medo do pobre, sentimento que encontra sua raiz mais antiga no medo dos índios e dos escravos negros (que sempre estiveram em maior número do que os colonos, mas que não podiam fazer valer sua força porque eram incapazes de unificar seus propósitos utilizando uma só língua).
A outra solução está sendo colocada em prática pelo governo Michel Temer com apoio de alguns líderes do partido criado por FHC: reverter a próxima geração de brasileiros pobres à mais abjeta ignorância pela redução dos investimentos em educação. A desvalorização da Língua Portuguesa está sendo transformado num instrumento político a serviço de um projeto neocolonial.
O sucesso da difusão e da expansão da Língua Portuguesa pelo território nacional se transformou num entrave político ao exercício do poder de maneira tradicional, ou seja, com a exclusão mais ou menos consentida dos “outros”. O projeto de país colocado em prática pelo golpe de 2016 é o mesmo, mas sua estratégia é extremamente perigosa. Para recolonizar o Brasil no momento em que nossa maior riqueza nacional e fonte de coesão cultural (a difusão de uma única língua por todo espaço geográfico) ameaçou a desnacionalização do petróleo a elite decidiu arriscar tudo.
Se esse projeto de país não for interrompido o resultado é previsível. À medida que a unidade linguística enfraquecer, a do território nacional também começará a deixar de ser uma realidade imaginária. Para ver o futuro do Brasil basta prestar atenção ao que ocorreu na Ucrânia, onde a convivência de populações que falam línguas distintas se tornou politicamente impossível no exato momento em que um grupo tentou subjugar totalmente o outro.
A imprensa grita menos Estado, faz propaganda da redução de investimentos em educação e aplaude as iniciativas irracionais dos defensores da Escola sem Partido. Duvido muito que os jornalistas saibam exatamente o que eles estão fazendo a si mesmos e aos netos deles. Por isso, creio que o PT poderia usar a próxima eleição para se construir como um verdadeiro partido da Escola Pública e, o campeão pelejador em defesa da preservação da Língua Portuguesa.
WG
5 de junho de 2018 4:29 pmConcordo com a análise:
Concordo com a análise: rebaixar a língua portuguesa equivale a recolonizar o país. Uma das formas de rebaixamento do idioma é a manipulação da realidade, a depreciação contínua da capacidade de comunicação empreendida pela mídia nativa.
Pedro ABBM
5 de junho de 2018 7:22 pmE no entanto…
E no entanto, não muito tempo atrás, com o PT ainda não poder, lançou-se uma campanha para vilipendiar a norma culta do idioma, apresentada como expressão de arrogância e preconceito das elites, e valorizar a fala errada do ignorante, como se esta fosse um dialeto completo com suas próprias normas.
Para o rico, a norma culta é diletantismo. Para o pobre, a norma culta é riqueza.
Fábio de Oliveira Ribeiro
5 de junho de 2018 10:45 pmDiscordo. O PT sempre foi
Discordo. O PT sempre foi contra a discriminação dos dialetos, o que é algo muito diferente. Lula e Dilma garantiram a higidez da Língua Portuguesa investindo mais na educação do que os governos anteriores. Esse fato não pode ser negado.
A verdade, meu caro, é que você apoia a merda que está sendo feita agora e que será colhida no futuro. Diga isso abertamente e você será premiado pelo seu amado desgoverno Michel Temer.
Anarquista Lúcida
5 de junho de 2018 7:41 pmAnálise meio simplória
Uma língua nunca é totalmente “a mesma” em todo o território em que é falado. A diversificaçao cada vez maior é inevitável. “Preservar a língua portuguesa” pode ser exatamente uma arma de poder, na medida em que se decreta que uma versao da língua é “a” língua, e se desvalorizam todas as outras. Na verdade, o dito “português do Brasil” já é uma língua diferente do português europeu, e a língua descrita nas gramáticas nao é mais usada nem pelas classes mais escolarizadas, e nem mesmo na escrita (nao estou falando de orelhada; vejam os estudos sociolinguísticos da Profa Maria Eugênia Duarte, da UFRJ, que mostrou que mesmo cronistas, jornalistas e cientistas usam em sua escrita uma língua diferente da “oficial”).
Fábio de Oliveira Ribeiro
5 de junho de 2018 7:47 pmImpossível dizer qual aspecto
Impossível dizer qual aspecto do texto você não entendeu. Portanto, devo concluir que o texto nem mesmo foi lido.
Anarquista Lúcida
5 de junho de 2018 8:09 pmPois concluiu mal. Vc é que nao entendeu o que eu disse
Tentei te mostrar como o seu projeto, além de impossível, na verdade teria um efeito oposto ao que vc deseja. Uma língua é algo que vai mudando por si mesma (claro, como resultado da mudança paulatina do modo de falar de seus usuários, que é algo que acontece sem planejamento algum) e nao é algo que se possa engessar, “preservar”, nada disso. Tentativas de tentar congelar a língua, estabelecer uma versao dela que deveria ser seguida, na verdade é que estabelecem diferenças entre os falantes pela modalidade da língua que falam, é um instrumento de poder que nunca favorece as classes populares, mas as leva à exclusao escolar. Mas pode ficar tranquilo, a única coisa boa da Globo é que ela atinge do Oiapoque ao Chuí. Esse é um fator de homogeneizaçao — sempre relativa — que garante pelo menos a intercompreensao dos falantes e retarda o processo inevitável de diferenciaçao, também relativa. Há pelo menos 600 anos que o português se diferenciou do galego, e ainda há uma grande dose de semelhança entre essas duas línguas. No mesmo país, com tvs, rádios e jornais que atingem o território todo, é pouco provável que as diferenças regionais realmente levem a línguas diferentes por um bom período. .
Fábio de Oliveira Ribeiro
5 de junho de 2018 10:46 pmOk… Já entendi. Você apoia
Ok… Já entendi. Você apoia a recolonização do Brasil pela redução de investimentos em educação. Para você a Língua Portuguesa deve ficar à deriva até que a unidade linguística deixe de existir abrindo caminho para o fim da unidade territorial.
Você é uma entusiasta da escola sem partido, mas tem vergonha de admitir isso.
Anarquista Lúcida
5 de junho de 2018 11:04 pmVc, além de palpiteiro, é um cretino de má fé
Estou dialogando direito, sobre algo de que entendo, é minha área profissional, e sobre o que, pelo que vejo, vc nao entende nada. Palpita, e acha que seus palpites podem invalidar tudo o que a Linguística sabe sobre as línguas. E é cretino e de má fé: onde foi que eu disse que sou favorável à reduçao de investimentos em educaçao? Menos ainda de escola sem partido, sou uma das petistas mais assumidas deste Blog.
O que tentei fazer essa sua cabeça dura entender é que, por maiores que sejam os investimentos em educaçao, que desejo tanto ou mais que vc, fui professora a minha vida inteira, isso nao terá os efeitos sobre a língua que vc acredita. Ao contrário, tentar forçar a unidade pela escola só leva à imposiçao de um padrao nao dominado por todos, e portanto à exclusao escolar.
Também disse que a língua nao está correndo o risco de perder a unidade — SEMPRE RELATIVA — porque, se há fatores que favorecem a diferenciaçao, há outros que favorecem a manutençao da intercompreensao. Uma língua NUNCA é homogênea (língua nenhuma, inglês, francês, alemao, a que vc escolher), e a existência da diferenciação nao impede o sentimento de unidade. Tanto que até hoje há quem acredite que o dito português do Brasil e o dito português europeu sao ainda a mesma língua… É pouco provável que uma língua se fragmente totalmente no mesmo país, com tvs, rádios e jornais que circulam pelo país todo, os mesmos livros, e com o mesmo código ortográfico (escrita nao é língua, mas a forma escrita ajuda ao reconhecimento de formas faladas bem diferentemente como “as mesmas” palavras). Talvez em mil anos isso ocorra, mas em mil anos quem sabe o que mais terá ocorrido?