
Livro traz depoimentos de artistas do movimento MPBTrans
por Augusto Diniz
O livro “Vozes transcendentes – os novos gêneros da música brasileira” (Hoo Editora), lançado recentemente, apresenta o chamado movimento musical MPBTrans, que reúne artistas LGBTQI (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, transgêneros, travestis, queer e intersexo).
Não que não houvesse no passado artistas ligados à subversão dos conceitos tradicionais de gênero, mas é que recentemente ganhou força o grupo em função não somente pela linguagem estética, mas de tratar nas músicas questões relacionadas à identidade, preconceito e racismo. As ferramentas da internet e a produção independente são as duas plataformas que dão impulso a esses trabalhos.
A obra da historiadora Larissa Ibúmi Moreira expõe por meio de densos depoimentos artistas dessa cena musical hoje, como Liniker, Johnny Hooker, Raquel Virgínia, Assucena Assucena (essas duas do grupo As Bahianas e a Cozinha Mineira), Rico Dalassam, Linn da Quebrada, entre outros – 14 no total.
O livro é um esclarecimento aqui no Brasil da teoria da norte-americana Judith Butler, estudiosa da identidade fora do binarismo homem x mulher, que ao realizar uma palestra sobre o assunto em São Paulo ano passado sofreu protesto – como se um tema de nossos tempos não pudesse ser tratado, numa das maiores demonstrações da incapacidade de parte da sociedade de conviver com o pensamento atual.
Além dos personagens tratados no livro, há outros que valem ser citados desse grupo intitulado MBPTrans, como Pablo Vittar e Karina Buhr. Aqui não se trata de discutir qualidade musical desses artistas que transitam majoritariamente pela MPB, pop, rap e funk– embora seja relevante estudar quais referências o movimento se baseia.
O trabalho “Vozes transcendentes” na verdade se presta ao aprofundamento do tema, para evitar julgamentos antecipados sobre os músicos da MPBTrans. As descrições dos personagens sobre a realidade que vivem desde a adolescência na busca de espaço e afirmação social são dignos e mostram pessoas com enorme capacidade criativa e de realização.
Um dos relatos que mais chamam a atenção é de Luana Hansen, que chegou a atuar como “avião do tráfico”, e depois de muitos altos e baixos conseguiu se impor na música, com dois CDs hoje lançados. Do mais conhecido dos personagens tratados, Lineker, extrai-se de seu depoimento uma sofrida trajetória em um ambiente opressor em sua cidade natal.
“Vozes transcendentes” é um bom ensinamento para quem costuma enxergar a música apenas no sistema binário, de composições fáceis e débeis, que no fundo sabe-se que a realidade é outra – e a hipocrisia impera – no mundo de papai e mamãe. O livro ainda expõe as dificuldades no dia a dia desse universo longe dos palcos, dos holofotes e de seu público. Vale muito a leitura.
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