4 de junho de 2026

Arcebispo de Porto Alegre defende necessidade de um projeto de nação

Nas últimas semanas, Dom Jaime Spengle começou a se manifestar sobre as condições políticas do país, em uma delas enviou mensagem ao  Ato Em Defesa da Soberania e do Patrimônio Nacional, da Assembléia Legislativa do RS criticando a “dilapidação do patrimônio nacional” , em outra ocasião, rebateu a mensagem de ano novo de Temer dizendo: “Quem diz que a vida está mais barata não vive a realidade do nosso povo”. Acompanhe sua entrevista ao Sul21. 
Dom Jaime Spengler Foto: Guilherme Santos/Sul21
 
 
 
“O que mais precisamos hoje, diante da situação nacional – e eu diria também eclesial – é o caminho que o discernimento propõe”
 
Por Marco Weissheimer 
 
Em 2013, o catarinense Jaime Spengler tornou-se o arcebispo mais jovem do país ao assumir, aos 53 anos, a Arquidiocese de Porto Alegre. Nos últimos quatro anos, Dom Jaime Spengler vem exercendo suas atividades religiosas como arcebispo sem deixar de se manifestar sobre a situação pela qual passa o Brasil. No último dia 25 de dezembro, Dom Jaime criticou as declarações feitas na noite anterior, na mensagem de Natal de Michel Temer, falando que a vida do povo estava mais barata. “Quem diz que a vida está mais barata não vive a realidade do nosso povo”, afirmou o arcebispo em entrevista à rádio Gaúcha.
 
No dia 12 de dezembro, Dom Jaime Spengler enviou uma mensagem ao Ato Em Defesa da Soberania e do Patrimônio Nacional, realizado na Assembleia Legislativa, criticando a “dilapidação do patrimônio nacional” e a “entrega das riquezas naturais à exploração desenfreada de empresas multinacionais, que olham para nossos bens naturais apenas com o olhar da ganância e da avareza”. E, no dia 26 de abril deste ano, divulgou nota apoiando as paralisações da greve geral convocada por centrais sindicais e movimentos sociais contras as reformas da Previdência e Trabalhista.
 
Em entrevista ao Sul21, o arcebispo de Porto Alegre fala sobre a conjuntura nacional e sobre os desafios colocados para a Igreja Católica no atual cenário. Para ele, há duas coisas centrais faltando no país: discernimento e um projeto de nação. “Há décadas ouvimos que o bolo precisa crescer para depois ser repartido. No entanto, há anos, acompanhamos a realidade da pobreza e da miséria que só crescem. A repartição do bolo sempre fica pra depois. Hoje, no Brasil, temos uma porcentagem muito pequena da população concentrando a maior parte da riqueza em suas mãos. Quando esse bolo será repartido? – questiona Dom Jaime Spengler.
 
Sul21: 
Nos últimos meses, o senhor fez várias declarações sobre questões relacionadas à conjuntura política e social do país. Na mais recente delas, o senhor criticou a mensagem de Natal de Michel Temer, onde este afirma que está mais barato viver no Brasil. Qual sua avaliação sobre a situação que o país está vivendo?
 
Dom Jaime Spengler: Creio que estamos vivendo um momento muito complexo da história do Brasil. Há sinais de uma crise muito forte que marca a vida das instituições e do nosso povo. O que vemos e testemunhamos no nosso cotidiano é a realidade dura e difícil do nosso povo, a realidade do desemprego, da violência e de serviços básicos que não satisfazem as reais necessidades da maioria da população.
 
Na tradição cristã existe um princípio que eu creio deva ser aplicado ao momento que estamos vivendo. É aquilo que normalmente se chama de discernimento. Segundo a tradição cristã, o discernimento pressupõe três coisas. Em primeiro lugar, a compreensão e o estudo das questões que estão em jogo. A segunda é rezar essa realidade. Essa dimensão para nós, cristãos, é fundamental. E a terceira é a disposição para o diálogo. Por meio do estudo pormenorizado do que está diante de nós, do saber rezar essa realidade e do diálogo podemos desenvolver a capacidade de discernimento. Talvez o que mais precisamos hoje, diante da situação nacional – e eu diria também eclesial – é esse caminho que o discernimento nos propõe.
 
Sul21: O senhor usou a expressão “rezar essa realidade”. A ideia da oração é normalmente associada a uma atividade voltada para o interior de cada pessoa. O que significa exatamente “rezar a realidade”?
 
Dom Jaime Spengler: A oração sempre expressa aquilo que vivemos, seja interiormente ou exteriormente. A fé não é algo simplesmente privativo. Ela toca, sim, a vida privada, mas ela também deve repercutir a realidade vivida na sociedade. Eu sou membro de uma sociedade e é nela que, cada um de nós, é chamado a testemunhar aquilo que acredita. É neste contexto social e histórico que vivemos, que cada batizado é chamado a ser sal da terra, luz do mundo, fermento na massa, isto é, agentes de transformação dessa realidade para melhor. A oração é um meio privilegiado para encontrarmos indicações para a superação de realidades que precisam ser superadas. Hoje nós vivemos uma crise grande também de vida espiritual. Nos tornamos pragmáticos demais, o que tem lá sua necessidade, mas não podemos jamais a dimensão contemplativa da vida.
 
Sul21: Nós últimos anos temos assistido no Brasil, e no mundo de forma geral, ao crescimento de uma cultura do ódio, da intolerância e da violência, que se manifesta muito hoje nas redes sociais e também na vida cotidiana. Como o senhor analisa esse fenômeno?
 
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“Há um clima de acirramento e polarização que vem sendo alimentado há anos”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
 
Dom Jaime Spengler: Essa polarização vem sendo construída há décadas. O discurso do nós e eles, nós e os outros. Isso foi fomentando aos poucos, no interior da sociedade, essa polarização que vemos diante de nós hoje e que dificulta qualquer possibilidade de diálogo entre os diversos setores que compõem essa sociedade. Somente a construção de espaços de diálogo entre pessoas verdadeiramente interessadas em cooperar para deixar a nossa realidade um pouco melhor para os que virão depois de nós pode trazer mais vida para a nossa gente. A polarização não ajuda e hoje isso está muito acirrado entre nós. Não é “culpa” do momento atual que estamos vivendo, mas a expressão de uma situação vem sendo alimentada há anos.
 
Como fazer para superar essa situação? Somente pessoas dispostas a se reunirem ao redor da mesa e dialogar a respeito de temas comuns, dispostas verdadeiramente a colaborar de alguma forma para construir a possibilidade de dias melhores para o nosso povo.
 
Sul21: Há quem ainda pense que a igreja não deveria se envolver com estes problemas sociais e políticos, limitando a sua atividade ao plano espiritual. Aqui na América Latina, a Igreja Católica tem uma tradição de atuação social muito forte. Como o senhor vê o papel da igreja diante dessa realidade conflituosa que estamos vivendo?
 
Dom Jaime Spengler: Creio que podemos partir daquela expressão no Evangelho, onde Jesus diz: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância”. Onde a vida é ferida, desconsiderada e machucada nós não podemos permanecer indiferentes. Como testemunha de uma experiência de fé diante dessas realidades, a Igreja não pode não se posicionar. A Igreja jamais vai seguir uma linha partidária. Ela sempre procura acompanhar a realidade na sua complexidade. Não se trata de apoiar uma ideologia, um partido ou coisa que o valha.
 
Olhando para a realidade brasileira hoje, creio que é possível dizer que nos falta um projeto de nação. Temos mais de três dezenas de partidos políticos com projetos nem sempre claros e objetivos. A construção de um projeto de nação, no contexto desta complexidade, é um desafio enorme. Somente homens e mulheres – os jovens, em particular – guiados por princípios autenticamente republicanos, desejosos de cooperar para a transformação dessa realidade para melhor é que podem representar uma presença distinta no atual contexto.
 
Sul21: O Papa Francisco, desde o início de seu papado, vem provocando uma verdadeira revolução dentro e fora da Igreja Católica, com posições muito eloqüentes e críticas ao próprio sistema capitalista, como aparece exemplarmente na encíclica Laudato Si. Nos últimos dias, foram publicadas algumas reportagens na imprensa mundial tratando da resistência de setores mais conservadores que ele vem enfrentando dentro da própria Igreja por conta de suas ideias. Como avalia o impacto dessa atuação do Papa Francisco até aqui?
 
Dom Jaime Spengler: Primeiro, gostaria de fazer uma observação sobre a nossa realidade econômica. Há décadas ouvimos que o bolo precisa crescer para depois ser repartido. No entanto, há anos, acompanhamos a realidade da pobreza e da miséria que só crescem. A repartição do bolo sempre fica pra depois. Hoje, no Brasil, temos uma porcentagem muito pequena da população concentrando a maior parte da riqueza em suas mãos. Enquanto isso, a grande maioria do nosso povo luta e trabalha duro para garantir o pão de cada dia de forma honesta. Quando esse bolo será repartido? Estamos entre as dez maiores economia do mundo, mas a qualidade de vida e o nível de distribuição de renda no Brasil parece não avançar. Há anos ouvimos falar da necessidade de reformas que não avançam. Agora estamos vendo aí essas reformas trabalhista e da Previdência que, são necessárias mas precisam de um amplo espaço de debate com a sociedade, o que, me parece, não está acontecendo. Continue lendo aqui 
 

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3 Comentários
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  1. JB Costa

    7 de janeiro de 2018 3:56 pm

    Excelente entrevista; tanto

    Excelente entrevista; tanto pelas perguntas bem formuladas como, e principalmente, pelas respostas dadas pelo Cardeal. 

    A Igreja Católica com esse papado parece querer trilhar novos rumos. Livrar-se do dogmatismo sectário que foi a marca dos seus dois últimos antecessores.

    Acho que se saiu bem na pergunta mais espinhosa que foi a envolvendo o julgamento de Lula. A meu ver falhou apenas num ponto, qual seja, quando pede que “se faça justiça”. Ora, só para poucos essa expressão é perfeitamente inteligível: que o réu seja condenado, casa haja elementos suficientes para isso OU que seja DECLARADO INOCENTE.

    Para muitos, no entanto, esse “faça justiça” vai ser apreendido como só a condenação. Não faltarão aproveitadores para explorar essa ambiguidade.

    Sobre a falta de um projeto de Nação: sim, tivemos alguns, mas foram sistematicamente sabotados pelas forças sobejamente conhecidas. Isso desde Vargas. 

    O termo é grandiloquente. Talvez por isso seja associado – erroneamente – a grandes inflexões, materiais ou comportamentais, quando na realidade esse projeto pode se implementado paulatinamente e através de ações bem focadas e com eficácia assegurada. 

    Isso a meu ver ocorreu de certa forma nos governos de FHC e de Lula. Em especial neste último. 

  2. cezar perin

    7 de janeiro de 2018 5:19 pm

    Coragem

    um homem de ideias e coragem em tempos   de ZUMBIS

  3. Avelino de Oliveira

    7 de janeiro de 2018 5:24 pm

    Caro Nassif
    Estamos no meio

    Caro Nassif

    Estamos no meio de um projeto de Btasil.

    Não há crises, o povo apenas paga a parte que sempre pagou.

    Os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.

    Enquanto se enriquece alguns brasileiros, a soberania é drenada, para a riqueza de outros poucos do mundo.

    Setores da igreja católica ajudaram, e muito, a criar esse projeto.

    Para meu espanto, um dos padres, cuja missa era reacionarissima,  golpista, humildemente está com outro discurso, que vejo como hipócrita, por parte dele.

    Saudações 

     

     

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