20 de junho de 2026

O Brasil, Vichy e os anos negros, por Franklin Frederick

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O Brasil, Vichy e os anos negros

O Brasil visto através de grandes obras da literatura II

por Franklin Frederick

Continuamos no texto a seguir nossa exposição sobre o ‘Brasil visto através de grandes obras da literatura’, iniciada na semana passada com a publicação aqui de ‘Dostoievski no Brasil’. Como afirmamos anteriormente, a nova imagem do Brasil projetada internacionalmente pelo Governo Temer, tem atraído vários escritores estrangeiros que, em suas obras, demonstram cada vez mais o seu interesse pelo nosso país.

Na Alemanha, por exemplo, o escritor Gunter Grass, prêmio Nobel de 1999, fez importantes revelações sobre sua relação com o Brasil numa longa entrevista publicada em Der Spiegel. Nesta entrevista, além de mencionar sua admiração pelo nosso país e nossa literatura – ele considera Guimarães Rosa um dos maiores escritores do século XX – Grass confessou também que seu romance ‘A Ratazana’ (Die Raettin) é na realidade um retrato lírico e intimista de um magistrado da mais alta corte de justiça brasileira. Constatamos assim que, desde a mãe brasileira de Thomas Mann – Julia da Silva Brunhs, mãe do escritor, nasceu em Parati – o Brasil segue influenciando profundamente a literatura alemã.

A vizinha Argentina tampouco conseguiu escapar da nova influência cultural do Brasil: “História Universal da Infâmia” (Historia Universal de la Infamia), de Jorge Luis Borges, tem um capítulo inteiramente dedicado ao PSDB. Este capítulo, o mais longo desta obra, tem sido citado em várias antologias de literatura latino-americana.

E quem poderia imaginar que, na Espanha, um tema tão árido como as parcerias público-privadas planejadas pelo Governo Temer se transformaria, nas mãos de Garcia Lorca, nesta contundente tragédia que é ‘Bodas de Sangue’ (Bodas de Sangre)? Não podemos deixar de mencionar, aliás, que as privatizações brasileiras são também o foco do aclamado documentário realizado pelo diretor americano Francis Ford Coppola, ‘Apocalypse Now’.

E ainda nos EUA, o testemunho pungente da Ministra dos Direitos Humanos Luislinda Valois sobre a sua vida de escrava, mobilizou ninguém menos que Harriet Beecher Stowe, de quem Abraham Lincoln disse ser responsável pela guerra civil americana devido ao impacto de seu romance sobre a escravidão, de enorme sucesso na época, ‘A cabana do Pai Tomás’ (Uncle Tom’s cabin). Sensibilisadíssima pela história de Luislinda e horrorizada ao saber que condições como as descritas pela nossa ministra ainda sejam possíveis em pleno século XXI, Harriet Beecher Stowe decidiu lançar-se em outra cruzada, desta vez contra a escravidão em nosso país. A indignada escritora americana acaba de lançar seu primeiro livro ambientado no Brasil, onde relata as desventuras de Linda – nome da personagem principal do romance, uma singela homenagem à Luislinda. ‘Aunt Linda’s penthouse’ – ainda sem título em português – já é um bestseller nos EUA. Oprah Winfrey recomendou o livro em seu programa de TV e, em uma resenha desta obra no The New York Times, um crítico comentou que Paris Hilton e as irmãs Kardashian não conseguiram conter as lágrimas ao ler a comovente estória de Linda.

Mas a obra de ficção mais importante e que melhor representa o interesse dos escritores americanos pelo Brasil é, sem dúvida, o livro fundamental de William Faulkner, prêmio Nobel de 1949, sobre a democracia brasileira: “Enquanto agonizo” (As I lay dying).  

*  *   *   *  *                                                                                                           

‘Eu não sabia que amava tanto meu país. Estou cheio de dor, de raiva e de vergonha. Não consigo falar com ninguém que eu suspeite julgar o que aconteceu diferentemente de mim. À primeira palavra que revele sua frouxidão, sua aceitação, eu o odeio. Experimento uma espécie de horror físico e me distancio. Este covarde, este traidor não pode ser do mesmo povo que eu. Agora compreendo muito bem o quê poderia começar uma guerra civil. ’

Estas palavras, que exprimem com tanta clareza o que muitos brasileiros, como eu, sentiram quando um golpe de estado  derrubou o governo da Presidente Dilma Roussef, são do escritor e crítico literário francês Jean Guehénno e se referem à derrota e ocupação da França pelo exército nazista. Guehénno as anotou em seu ‘Diários dos anos negros’(Journal des années noires). Não é uma coincidência que essa citação descreva tão bem o que sentimos no nosso país. Há de fato uma série de paralelos reveladores entre a França ocupada de Vichy e o Brasil atual. Vejamos:

– Assim como os franceses foram surpreendidos pela rapidez e facilidade com que o exército alemão derrotou e ocupou a França; o golpe no Brasil, bem menos dramático e violento que uma derrota e ocupação militares, claro, surpreendeu, contudo,  pela facilidade e rapidez com que derrubou um governo eleito democraticamente.

– A ocupação dividiu a França entre ‘colaboradores’ e ‘resistentes’; do mesmo modo o golpe dividiu a sociedade brasileira em ‘colaboradores’- com o golpe – e ‘resistentes’-ao golpe.

– Sobretudo, a ocupação fez com que o pior da sociedade francesa da época viesse à tona e adquirisse um enorme protagonismo social: a ‘canaille’ tomou o poder. Do mesmo modo, o golpe trouxe consigo o pior do Brasil, esta mistura de arrogância, estupidez e mediocridade que toma o país.

Jean Guehénno: ‘Eu vivia, eu pensava dentro da civilização (e bem mais do que eu acreditava). Será necessário viver e pensar entre e contra os bárbaros. ’

Há ainda outras semelhanças ainda mais preocupantes: suponhamos que o Brasil tivesse sido realmente ocupado por uma potência estrangeira e que esta potência tivesse todo o interesse, por razões de dominação econômica e competição internacional futura, em impedir que o Brasil desenvolvesse sua economia e sua tecnologia; o que esta potência faria? Ela tentaria destruir, por exemplo, as maiores e mais competitivas empresas brasileiras; poderia também proceder à venda de ativos nacionais tranferindo-os a grandes grupos internacionais. Esta potência estrangeira poderia obrigar o Brasil a congelar pelos próximos vinte anos os investimentos na saúde e na educação, condenando assim o povo brasileiro ao subdesenvolvimento físico e intelectual, o que sempre facilita a dominação. Sem investimento nas universidades públicas, onde se realizam praticamente todas as pesquisas científicas do país, se destrói também qualquer possibilidade de avanço tecnológico brasileiro. Esta potência estrangeira poderia também abrir à exploração internacional os recursos naturais do Brasil e mesmo impor uma legislação permitindo que estrangeiros possam adquirir terras dentro do país.

Jean Guehénno: ‘Esta tirania é demasiado absurda e o absurdo demasiado aparente à demasiadas pessoas para que isso possa continuar. ’

Não podemos nos enganar mais, somos um país ocupado, Vichy é aqui. Quanto tempo esta ocupação vai durar, quantos anos negros temos pela frente, ninguém sabe ao certo. O que podemos afirmar com certeza é que o estrago feito até aqui levará décadas para se reparar. E que muito já é irreparável.

Jean Guehénno: ‘Que nossa situação seja ignóbil é uma certeza, mas, ainda mais, ela é absurda. ’

Mas temos que resistir. Nossos ‘maquisards’ permanecem firmes e apontam o caminho a seguir. Porém, infelizmente, parece que será preciso ainda muita destruição, conflito e sofrimento no Brasil para que mais gente acorde, a resistência aumente e se torne mais eficaz.

Jean Guehénno: ‘Não sei o que fazer. Contudo, isto é certo: os homens não são feitos para a guerra, é verdade. Mas eles também não são feitos para a servidão. ’

É preciso que, de algum modo, a ignorância e a irresponsabilidade, hoje tão à vontade em nosso país, recuem. Precisamos voltar a acreditar na decência e no bom senso.

Jean Guehénno: ‘Não, o bom senso não é a coisa melhor partilhada do mundo. Mas devemos continuar a fazer como se fosse. Ele o será. Não há outra esperança. ’

 

 

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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  1. Lionel Rupaud

    8 de novembro de 2017 6:16 pm

    Gostei muito do seu texto,

    mas não se inlude, os verdadeiros resistentes, portanto não os dos últimos dias antes da chagada das tropas aliadas, não representaram mais de 1 % da população. E numerosos foram os que denunciaram (anonimamente claro) vizinhos aos empregados de Vichy e dos nazistas. Meu avó Charles o foi por gente que frequentavam a mesma igreja…

  2. povobrasileiro

    8 de novembro de 2017 8:43 pm

    resistentes de 45

    A maioria dos resistentes tinha militância operária, principalmente comunista e uns poucos gaullistas. Mas quando os americanos salvaram a cara dos franceses apareceram milhares de valentes para raspar o cabelo de namoradas de alemãs, e denunciar alguns verdadeiros resistentes como colaboradores. Mais ainda no ano seguinte…

    Parecem os ex-combatentes brasileiros, beneficiários de auxílios e pensões. Primeiro eram apenas os verdadeiros combatentes, notando-se que os oficiais mais jovensnno primeiro escalão, que foi lutar, eram principalmenteç civis com treinamento de CPOR, pois os profissionais não eram aprovados em exame de saúde, logo após sua aprovação para mudança de posto. Nos dois outros embarques havia muitos oficiais, pois já sabiam que a guerra já havia trminado na região onde iam. Logo inventram a maroteira de “zona de guerra”, no litoral e depois em muitos lugares, que concedia aos que lá estivesse o mesmo status dos combatentes.

    Enquanto isso, os oficiais reservistas que haviam combatido eram impedidos de alistar-se, e os da Aeronáutica demoraram muito para ter as patentes, recomendadas por seus comandantes combatentes americanos, reconhecidas pelos burocratas comandantes brasileiros. E tinham feito uma ótima campanha.

     

     

  3. Rui Ribeiro

    9 de novembro de 2017 11:42 am

    Anos Negros ou Anos Arianos?

    Os anos em que a França foi ocupada pelos Nazistas não foram anos negros, foram anos arianos.

    Porque o preto é associado a tudo que não presta?

    Como diria Willian Waack, o nazismo deve ser coisa de pretos.

    Paint it black, Charlie Watts!

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