Não se engane, este não é um filme apenas sobre drogas, putas, finanças desreguladas e crimes financeiros em série. O Lobo de Wall Street é uma bem humorada narrativa do nascimento, ascensão, apogeu e declínio da religião neoliberal. O protagonista do filme interpretado por Leonardo DiCaprio é o pastor simbolo de uma era que afundou o planeta numa crise que provocou desemprego, desespero e infelicidade para centenas de milhões de seres humanos.
As drogas sempre acompanharam o homem na sua jornada. O primeiro relato escrito sobre o uso das mesmas que eu conheço foi feito por Heródoto. O historiador grego do século V aC narrou o medo pavor que os gregos tinham dos Citas, um povo nomade belicoso que fazia uso da maconha antes das batalhas.
As putas também sempre fizeram parte do cenário humano e urbano. Os turistas romanos que visitavam Atenas no século I dC, registraram que elas preparavam “…armadilhas para todo mundo”, como advertiu Dicearco. Turistas romanos que visitaram a cidade também relataram que foram enganados por prostitutas, um deles reclamou “…que realçavam sua beleza natural com sapatos de cortiça para enganar na altura, seios falsos e artifícios para clarear a pele.” (Tony Perrottet, Férias Pagãs, Rocco, 2005).
Os golpes econômicos também não são novidade moderna. Em seu colossal “Ab Urbe Condita Libri”, Tito Lívio narra como durante a Segunda Guerra Púnica alguns comerciantes romanos enriqueceram desonestamente. O esquema era muito simples. “Tais publicanos, aproveitando-se da garantia dada pelo Estado para os riscos que corriam, em virtude das tempestades, ao fazer fornecimentos para o exército, haviam declarado falsos naufrágios. Até os que realmente tinham acontecido deveram-se mais a astúcia que a fatalidade. Metendo pequenas cargas em navios velhos e inseguros, empurravam-nos para o mar alto e recolhiam a equipagem em botes previamente preparados, declarando depois carregamentos bem mais consideráveis. No ano precedente essa fraude fora denunciada ao pretor Marco Emílio, que apresentara o caso ao Senado; mas nenhum senadocolsulto fora lavrado a propósito, porque os senadores não queriam descontentar a classe dos publicanos.” (Ab Urbe Condita Libri, Tito Livio, Livro XXV, terceiro volume, Paumape, 1990).
A novidade retratada no filme de Martin Scorsese é o fato da união das drogas, putas e golpes financeiros ter sido transformado numa religião secular. O protagonista do filme não é apenas um corretor desonesto, ele é um líder espiritual e mantém uma relação devocional com os empregados. Jordan Belfort funda a empresa com alguns apóstolos e logo a transforma numa verdadeira catedral cheia de fiéis. No púlpito secular ele realiza bizarras cerimônias de adoração ao dinheiro e faz sua pregação diária, sempre de maneira a levar os empregados ao delírio. Como se fosse um eleito por Deus, o pastor símbolo do neoliberalismo promete a riqueza aos seus devotos seguidores e motiva-os a fazer qualquer coisa para obter lucro. Eles fazem e ganham muito dinheiro, deixando-o milionário.
Os exageros produzem o declínio de Jordan Belfort. Ao final ele é obrigado a responder pelos crimes financeiros que cometeu. A questão subjacente ao filme é a seguinte: como tudo isto ocorreu num país que acredita ter chegado ao topo do mundo em razão da ética protestante?
Segundo Max Weber, para os protestantes, a riqueza só é “…ruim, do ponto de vista ético, conforme seja uma tentação ao ócio e a fruição pecaminosa da vida, e a sua aquisição somente é ruim quando realizada como o último propósito, o de uma vida folgada e sem cuidados. Entretanto, enquanto realização de um dever em uma profissão, esta não é apenas moralmente permitida ma é, na verdade, ordenada. A parábola do servo que era rejeitado porque não aumentava as capacidades que lhe eram confiadas parece ser bem explicita. Desejar ser pobre era, e isso era frequentemente argumentado, semelhante a desejar não ser saudável; é censurável como uma glorificação do trabalho e aviltante para a glória de Deus. Especialmente a mendicância, da parte de alguém apto a trabalhar, não é apenas o pecado da preguiça mas uma violação do dever do amor fraterno que estava de acordo com as próprias palavras do apóstolo.” (A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Max Weber, Martin Claret, 2013).
Belfort sem dúvida alguma se esforçou bastante para levantar seu império. Mas os fundamentos do seu trabalho não eram aqueles preconizados pela ética protestante descritos por Max Weber: “… a utilidade de uma profissão, e, dessa forma, a sua benevolência aos olhos de Deus, é medida, antes de mais nada, em termos morais e, portanto, em termos da importância dos bens produzidos, na profissão, para a comunidade.” (A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Max Weber, Martin Claret, 2013).
O protagonista de O Lobo de Wall Street trabalha muito, mas o seu trabalho é imoral e só produz benefícios para ele mesmo e para seu pequeno séquito. Seu trabalho é motivado pela acumulação de riqueza, cuja finalidade única é a fruição (pecaminosa, diriam os protestantes). Mas é importante notar que no ambiente em que Jordan Belfort se move isto é a regra, não a exceção. O que ele fez foi expandir de maneira irracional os limites de um contexto em que já ocorria a negação da ética protestante, em que o espírito do capitalismo (tal como descrito por Max Weber) já estava totalmente corrompido.
Esta é uma das razões pelas quais o novo filme de Martin Scorsese é bem melhor do que o de Oliver Stone. Em Wall Street (1987) a predominância da ética protestante ainda emoldura a ação desviada/desviante dos protagonistas, apesar de o filme ser ambientado na década de 1980 (portanto, na mesma década em que Belfort estava construindo seu império depravado dentro de um sistema capitalista totalmente desprovido de ética e regulação).
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