4 de junho de 2026

A vitória da pós-verdade, por Patrícia Campos Mello

Apoiadores do republicano Donald Trump comemoram em Nova York resultados da apuração do pleito presidencial norte-americano (John Locher/Associated Press)

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Jornal GGN – “Pós-verdade” é a palavra do ano no dicionário Oxford, e significa que trata “circunstâncias em que os fatos objetivos têm menos influência na opinião pública do que apelos à emoção e crenças pessoais”. Segundo a Economist, “apoiar-se em afirmações que parecem verdadeiras mas não estão baseadas em fatos”. Assim descreve Patrícia Campos Mello em seu artigo na Folha sobre como a palavra do ano, eleita pelos lexicógrafos do Oxford, refletem “o ethos, o estado de espírito e as preocupações” vividas em determinado ano.

Este é o nosso ano, o ano em que a “pós-verdade” se instala e desconstrói tudo. Ela recebe força quando se olha o Brexit e a eleição de Donald Trump, e mostram que a verdade deixou de ser matéria prima, se tornou adereço descartável.

Isso é muito ruim. Mas pode ficar pior.

Leia o artigo a seguir.

da Folha

A vitória da pós-verdade

por Patrícia Campos Mello

“Todos têm direito a suas próprias opiniões. Ninguém tem direito a seus próprios fatos”.

A frase, atribuída ao grande senador americano Daniel Patrick Moynihan (1927-2003), nunca foi tão verdadeira.

“Pós-verdade” foi eleita a palavra do ano pelo dicionário Oxford. Segundo o dicionário, a palavra refere-se a “circunstâncias em que os fatos objetivos têm menos influência sobre a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. Na definição da revista Economist, “apoiar-se em afirmações que parecem verdadeiras mas não estão baseadas em fatos.”

Os lexicógrafos do Oxford escolhem a palavra do ano como forma de refletir “o ethos, o estado de espírito e as preocupações” de um determinado ano.

Portanto, é bastante apropriado entronar o “pós-verdade” no ano em que o Brexit e a eleição de Donald Trump provaram que a verdade deixou de ser relevante para muita gente.

A campanha do Brexit martelou o exagero que ser “sócio” da união Europeia custa ao Reino Unido US$ 468 milhões por semana e mentiu que a entrada iminente da Turquia traria hordas de imigrantes ao bloco. Acabou ganhando no referendo.

Trump certamente será eternizado como o político mais mentiroso da História (e olha que a concorrência é grande, hein, Eduardo Cunha “dinheiro do truste não é meu dinheiro”). Acabou eleito presidente.

Só uma pequenas amostra de inverdades trumpianas, que são repetidas ad nauseam:

– muçulmanos comemoraram em New Jersey depois do ataque de 11 de setembro. (Nunca aconteceu)

– o presidente Obama nasceu no Quênia. (Mentira)

– desemprego entre os jovens negros nos EUA é de 58%. (não chega a 28%)

O ano de 2016 provou que mentira tem perna curta, mas isso não tem a menor importância.

Qualquer falsidade pode ser imediatamente desmentida com ajuda de vídeos no YouTube, gravações (sim, Trump apoiou a invasão do Iraque em entrevista ao Howard Stern) e os checadores (aplausos para Politifact, Washington Post, NYTimes, Agência Lupa, Aos Fatos).

Depois de tanto mentir, Trump ganhou o troféu Pinoquio e “calças em fogo” do Washington Post e do Politifact.

E qual foi a reação das pessoas? Para os 60 milhões de americanos que votaram nele, não fez diferença.

Duas semanas antes da eleição americana, estive em Youngstown, Ohio, cidade-símbolo da decadência industrial do chamado Cinturão da Ferrugem, que votou maciçamente em Trump. Sentei em um boteco chamado Golden Dawn, onde vários homens brancos de classe média baixa, alguns com uniformes e mãos cheios de graxa, todos com empregos mal-pagos, tomavam uma cerveja. Indaguei a um deles, Mark, se ele não achava um absurdo Trump ter dito que iria agarrar uma mulher pelos genitais e ter mentido que o presidente Obama tinha nascido no Quênia. A resposta: “Ninguém morreu por causa disso, né? Ele tem uma boca grande, mas pelo menos vai enfrentar os caras lá em Washington.”

Ou seja, ele não é mentiroso e nem desrespeita as mulheres.

Na era da “pós-verdade”, Trump é franco, fala grosso, tem coragem de se insurgir contra o politicamente correto das elites.

A mídia tem uma grande parcela de culpa pelo surgimento dessa era.

Primeiro, pela falsa equivalência.

A mídia tradicional se pauta pela obrigação de sempre ouvir os dois lados e (tentar) ser equilibrado. Mas às vezes, incorre no que se convencionou chamar de falsa equivalência.

Como exemplifica o programa On the Media:

· O presidente Obama afirma que nasceu nos Estados Unidos e, portanto, pode ser presidente do país; seus críticos discordam.

· Isso é falsa equivalência. O certo seria dizer: “Barack Obama nasceu no Havaí em 1961; o movimento “birther” nega este fato.”

Segundo, a fragmentação da mídia possibilita que notícias falsas ou declarações mentirosas dos candidatos se alastrem. Segundo pesquisa do Pew, 62% dos americanos se informam pelas redes sociais hoje, sendo 44% pelo Facebook (não deve ser muito diferente com os brasileiros).

Entre as reputadas fontes de informação dos eleitores americanos estão sites altamente partidários e/ou caça níquéis (que o digam os jovens espertos da Macedônia que ganharam um bom dinheiro postando notícias falsas e ganhando cliques de americanos, que “valem mais”).

Segundo levantamento do Buzzfeed, notícias falsas geraram mais engajamento (compartilhamentos, likes) do que as verdadeiras nesta eleição. Por exemplo, a “notícia” de que o papa Francisco apoiava Trump foi compartilhada quase 1 milhão de vezes.

Algoritmos do Facebook colocam na sua linha do tempo apenas conteúdos similares àqueles que você “curtiu” anteriormente. O resultado é que não há espaço para o contraditório, as pessoas que se informam pelas redes sociais vivem em uma “câmara de eco” – só ouvem o que querem, basicamente.

(E por isso se ouve a pergunta: como o Trump foi eleito, se nenhum dos meus amigos votou nele?)

Em sua primeira semana como presidente-eleito, Trump demonstrou que vai continuar investindo na política da pós-verdade.

Ele declarou pelo Twitter que a “cobertura enviesada” levou o New York Times a perdeu milhares de assinaturas na eleição. O jornal ganhou milhares. E o presidente-eleito disse em entrevista na TV que há entre 2 e 3 milhões de imigrantes ilegais que cometeram crimes (são 820 mil).

Ou seja, nada indica que vá mudar.

*

Uma “finalistas” ao título de palavra do ano foi “alt-right”- “um grupo ideológico associado a visões extremamente conservadoras ou reacionárias, caracterizadas pela rejeição aos políticos tradicionais e pelo uso de mídias digitais para disseminar conteúdo polêmico”. Coisa de sites como o Breitbart News, que veiculou “notícias” sobre os rituais de magia negra de Hillary. O site era capitaneado por Stephen Bannon, que assumiu em agosto como coordenador da campanha de Trump.

Trump anunciou que Bannon será o principal estrategista da Casa Branca em seu governo.

Resta torcer para que “alt-right” não seja a palavra do ano em 2017.

Evan Vucci/Associated Press Bannon (à dir.), nomeado estrategista-chefe do governo do presidente eleito, deixa a Trump Tower

Mandel Ngan/AFP       O presidente eleito Donald Trump fala no dia seguinte à sua vitória eleitoral

 

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

9 Comentários
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  1. Antonio Uchoa Neto

    18 de novembro de 2016 9:28 pm

    Quando a expressão

    Quando a expressão “politicamente correto” começou a ser largamente utilizada, a palavra “hipocrisia” praticamente sumiu.

    Não se ouvia nas conversas, no noticiário, em lugar nenhum.

    Agora começa a reaparecer, aqui e ali, pois não há mais como sustentar a aplicabilidade da expressão que a substituiu.

    “Pós-verdade” é a boa e velha mentira, repaginada, e com  aspecto mais “fashion”.

    Agora, com a chancela do dicionário Oxford.

    Daqui há alguns anos, vai ter o mesmo destino, quando a repugnante canalhice de seus usuários contumazes, como Trump, não puder mais ser disfarçada.

  2. João Alexandre

    18 de novembro de 2016 10:00 pm

    Inversão de valores

    “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!” Isaías 5:20

    1. Alexandre Weber - Santos -SP

      19 de novembro de 2016 2:01 am

      Males da Sociedade, a coisa vêm de longe

      Males da Sociedade

      É claro que os homens são responsáveis perante Deus por mostrar bom senso. A auto-decepção custa caro; o Senhor “desfaz os sinais dos inventores de mentiras, e enlouquece os adivinhos; . . . faz tornar atrás os sábios, e converte em loucura o conhecimento deles” (Isaías 44:25). Eles têm odeado Sua palavra e confiam em opressão e perversidade e persistem nelas. São muito cabeça-dura. Persistem até o fim como a brecha de um “alto muro.” Eles permanecerão no seu caminho com grande afinco. Nada os move. Como uma represa alta quando rompe, rompe de vez. (Eis o princípio do “vigésimo-nono dia.”) Primeiro o muro forma uma barriga, e aí cai tudo, “cuja quebra virá subitamente” (Isaías 30:12-13).

      Tudo isso acontece porque está tudo fora dos eixos. Ninguém confia em ninguém nesta sociedade competitiva. “Ninguém há que clame pela justiça, nem ninguém que compareça em juízo pela verdade; confiam na vaidade, e falam mentiras; concebem o mal, e dão à luz a iniqüidade” (Isaías 59:4). “Obra de violência há nas suas mãos. Derramam o sangue inocente. Seus pensamentos são os pensamentos da iniqüidade” (veja Isaías 59:6-7). Tudo isso parece programação de televisão. Tal caminho só leva à desconfiança: “Não conhecem o caminho da paz, . . . fizeram para si veredas tortuosas” (Isaías 59:8); “o falar de opressão e rebelião, o conceber e proferir do coração palavras de falsidade. . . . Sim, a verdade desfalece, e quem se desvia do mal arrisca-se a ser despojado” (Isaías 59:13, 15). Só lhes será proveitoso quebrar as regras enquanto houver pessoas simples e fáceis de enganar que cumprem com elas. E se não participarem deste jogo, se tornarão vítimas. Isaías não aplaude tal realismo: “Ai de ti, despojador, que não foste despojado, e que procedes perfidamente contra os que não procederam perfidamente contra ti!” (Isaías 33:1). O Senhor nos adianta ainda mais na nossa dispensação, dizendo-nos que não temos direito de trapacear mesmo àqueles que são espertinhos e procuram-nos enganar: “Ai daquele que mente para enganar, porque supõe que outro minta para enganar, pois esse não está isento da justiça de Deus” (Doutrina e Convênios 10:28).

      Naturalmente Isaías nos leva aos tribunais de justiça: “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal” (Isaías 5:20)—sendo isto a arte da retórica, a arte, conforme Platão, “de fazer o bem parecer mal e o mal parecer bem pelo emprego de palavras,” que no mundo antigo se desenvolveu nos tribunais. “Ai dos que são sábios aos seus próprios olhos, e prudentes diante de si mesmos! . . . dos que justificam ao ímpio por suborno, e aos justos negam a justiça!” (Isaías 3: 21, 23). Isso nos lembra de como os ladrões de Gadiânton, quando de posse do governo e os tribunais, quando “obtiveram total controle do governo,” logo “desprezaram os pobres e mansos e os humildes seguidores de Deus” (Helamã 6:39), “ocupando as cadeiras dos juízes” (Helammã 7:4), “deixando os culpados e iníquos impunes, por causa de seu dinheiro” (Helamã 7:5). Eles “justificam ao ímpio por suborno,” diz Isaías (5:23), e ele os adverte no próprio linguajar jurídico que Deus acusará os élderes de Israel e “contra os seus príncipes; é que fostes vós que consumistes esta vinha; o espólio do pobre está em vossas casas!” (Isaías 3:14). O que está em sua casa realmente pertence a estes. “Que tendes vós, que esmagais o meu povo e moeis as faces dos pobres?” (Isaías 3:15. “Ai dos que decretam leis injustas (por sua autoridade intocável), e dos escrivães que prescrevem opressão” (Isaías 10:1)—servindo seus próprios interesses pelas leis que fazem, “para desviarem os pobres do seu direito, e para arrebatarem o direito dos aflitos do meu povo; para despojarem as viúvas e roubarem os órfãos!” (Isaías 10:2).

      Tudo está armado; todo o mundo recebe suborno; a cidade meretriz está cheia de assassinos; os príncipes são rebeldes, companheiros de ladrões; “cada um deles ama as peitas, e anda atrás das recompensas; não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles a causa da viúva” (Isaías 1:23). Mesmo quando claramente tem razão, o pobre não consegue ganhar a causa, porque “o avarento . . . maquina invenções malignas com palavras falsas, mesmo quando o pobre chega a falar retamente” (Isaías 32:7). “ Porque o vil . . . pratica a iniqüidade para usar hipocrisia e . . . proferir mentiras . . . para deixar vazia a alma do faminto, e fazer com que o sedento venha a ter falta de bebida” (Isaías 32:6). O comércio de imóveis é um setor muito explorado por tais pessoas, e os registros antigos, desde os pregadores gregos iniciais, Hesoides e Solon, até os últimos satiristas romanos, inclusive Petrônio, estão repletos de trapaças e golpes pelos quais adquiriram vastas propriedades. “Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e fiquem como únicos moradores no meio da terra!” (Isaías 5:8).]

      Isaías tem muito que dizer sobre o comércio, “Peso de Tiro,” a cidade diadema, “cujos mercadores são príncipes e cujos negociantes são os mais nobres da terra.” O Senhor pretende “denegrir a soberba de toda a glória, e envilecer os mais nobres da terra” (Isaías 23:1, 8-9). São pessoas inquietas esses empresários: “Paz, paz, para o que está longe, e para o que está perto . . . mas os ímpios são como o mar bravo, porque não se pode aquietar, e as suas águas lançam de si lama e lodo” (lembrem-se das águas sujas mencionadas por Leí) (Isaías 57:19-20). “Mas os ímpios não têm paz, diz o Senhor” (Isaías 48:22; 57:21). Babilônia é, ao mesmo tempo, agitada e ocupada, egoista e despreocupada; “Ninguém me pode ver,” diz ela, “eu sou, e fora de mim, não há outra” (Isaías 47:10). Ela tem à sua disposição todo o know-how técnico e comercial. Todos os peritos trabalham para ela—encantadores, astrólogos, analistas inteligentes, contadores hábis—mas serão queimados como restolho. No capítulo 13 de Isaías, vemos o peso de Babilônia, a ampla atividade, os ruídos, o corre-corre, a arrogância, a grande fome para lucros neste centro mundial que é outra Sodoma, um abismo de degeneração moral.

      A Vanglória das Nações

      Por um grande milagre poupou-se a vida do rei Ezequias de Judá e este recebeu mais quinze anos de vida. Numa grande expressão de alegria e gratidão, ele expressou sua gratidão e o alívio infinito de saber que Deus podia dar tudo que se pede a Ele, até a própria vida; de que vale toda a segurança das riquezas do mundo em comparação com isso? Aí aconteceu uma coisa significante. Chegaram os embaixadores de Babilônia, e Ezequias não pôde resistir à tentação de mostrar-lhes toda a tesouraria que representava seu poder e riquezas. “Então o profeta Isaías veio ao rei Ezequias, e lhe disse: Que foi que aqueles homens disseram, e de onde vieram a ti? E disse Ezequias . . . vieram a mim de Babilônia. E disse ele: Que foi que viram em tua casa? E disse Ezequias: Viram tudo quanto há em minha casa; coisa nenhuma há nos meus tesouros que eu deixasse de lhes mostrar. Então disse Isaías a Ezequias: Ouve a palavra do Senhor dos Exércitos: Eis que virão dias em que tudo que houver em tua casa, e o que entesouraram teus pais até ao dia de hoje, será levado para Babilônia; não ficará coisa alguma” (Isaías 39:3-6). O homem não resistiu a exibir seus posses, e sua vaidade somente serviu para despertar a ganância. Gostaram do que viram e voltaram para buscá-lo. Ele havia caído na armadilha.

      Isaías entende muito bem do cenário internacional em que o erro fatal é pensar que o destino está nas mãos dos grandes homens da terra, mas a verdade é que não há grandes homens, somente cidadãos comuns que têm ilusões desatrosas de grandeza. Arrogante é uma das palavras prediletas de Isaías.

      “E visitarei sobre o mundo a maldade, e sobre os ímpios a sua iniqüidade; e farei cessar a arrogância dos atrevidos, e abaterei a soberba dos tiranos” (Isaías 13:11).

      “Farei que o homem seja mais precioso do que o ouro puro, e mais raro do que o ouro fino de Ofir” (Isaías 13:12).

      “Os olhos altivos dos homens serão abatidos, e a sua altivez será humilhada; e só o Senhor será exaltado naquele dia” (Isaías 2:11).

      “Mas eis que o Senhor, o Senhor dos Exércitos, cortará os ramos com violência, e os de alta estatura serão cortados, e os altivos serão abatidos” (Isaías 10:33).

      “A terra pranteia e se murcha; o mundo enfraquece e se murcha; enfraquecem os mais altos do povo da terra. Na verdade a terra está contaminada por causa dos seus moradores; porquanto têm transgredido as leis, mudado os estatutos, e quebrado a aliança eterna. Por isso a maldição tem consumido a terra; e os que habitam nela são desolados; por isso são queimados os moradores da terra, e poucos homens restam” (Isaías 24:4-6).

      O que torna grande uma nação? Poder e riquezas é a resposta que se dá hoje em dia; o objetivo é ser primeiro em força militar e poder econômico. Também se pensava assim nos tempos de Isaías: Ai daqueles que dependem de cavalos e carruagens porque são poderosos, mas que “não atentam para o Santo de Israel; . . . os egípcios são homens e não Deus; e os seus cavalos carne, e não espírito” (Isaías 31:1-3). Não se garante segurança alguma através de alianças, nenhuma espada, tantos dos fortes como dos fracos, terá poder de vencer a Assíria; o Senhor tem seus próprios planos para a Assíria, e ninguém poderia ter imaginado o que seriam. Em que consiste a segurança? Ao construir a fortaleza de Jerusalém, cavaram suas próprias covas. A única defesa verdadeira é o chamado do sacerdócio no templo. Quem entra no jogo de poderes políticos, receberá o galardão de sempre.

      Os assírios garantiram a segurança. Era a nação de maior poder militar. “Fazei aliança conosco,” disseram a Jerusalém (e Isaías preservou as cartas), “e estareis seguros. Sois tolos. Como é que Deus vos salvará, se não tiverdes exército? Precisais de nós. Deus está do lado de quem tem as grandes batalhões.” Isto é o que se chama Realpolitik, o que sempre tem destruído seus seguidores em tempos modernos. Quando Isaías diz ao povo que confie em Deus e não no Egito, dizem que ele não é realista! Aí vêm os assírios, os super-realistas, com o seu poder invencível—e foram todos mortos ao dormir no acampamento. E as grandes nações? “Eis que as nações são consideradas por ele como a gota de um balde, e como o pó miúdo das balanças” (Isaías 40:15). Todas as nações perante ele não são nada, são consideradas como menos de nada e vaidade porque fazem de conta que são grandes (veja Isaías 10:33). “Porque Tofete já há muito tempo está preparada;” e espera-os agora—(“preparei-lhes uma prisão,” disse o Senhor a Enoque [Moisés 7:38]). “Sim, está preparada para o rei”—para a Assíria. “Ele a fez profunda e larga: a sua pira é de fogo, e tem muita lenha; o assopro do Senhor como torrente de enxofre a acender´” (Isaías 30:33). Não se impressionem com “o poderoso, e o homem de guerra, o juiz, e o profeta, e o adivinho, e o ancião” (Isaías 3:2). Somente existe um ser em que se pode confiar. A Assíria desapareceu de um dia para outro, e nunca mais se ouviu falar dela, ao passo que permanecem conosco até hoje umas nações menores, contemporâneas da Assíria, que não tinham condições de apostar na supremacia militar.

      “Mãos Limpas; Coração Puro”

      Tão surpreendentes como as caraterísticas que Isaías detesta, são aquelas às quais ele dá valor—não à motivação, iniciativa, indústria, empreendimentos, trabalho duro, e piedade—nenhuma das virtudes zoramitas, embora estas sejam virtudes de verdade quando não são corrompidas por motivos egoístas ou uma obsessão mórbida com a rotina. Permitem-me a observar de passagem que o trabalho, afinal, não é um corre-corre ocupadíssimo e rotineiro, embora esta seja a essência da vida moderna de comércio e estudo, mas consiste na energia suprema e curiosidade disciplinada de abrir novos caminhos. No livro de Isaías as qualidades que Deus exige aos homens são as de que a sociedade trata com ares de superioridade e desdém. Isaías promete as maiores bênçãos e glória aos mansos, humildes, pobres, oprimidos, afligidos e necessitados. Como!? Ser pobre e oprimido é sucesso? Será que ele nos admoesta a unir-nos aos fracassados? Que valor poderá haver em tais condições negativas e submissivas? De fato, há virtude nisso, mas a presença de Satan´s no mundo é um fator decisivo. Temos a promessa que não haverá pobres em Sião. É justamente porque Satanás lá não estará presente com suas artimanhas. Mas ele é o príncipe do mundo atual, livremente permitido, por um tempo, a provar e tentar os homens. Aqui ele manda.

      E como é que o diabo nos tenta? Na mitologia universal da raça humana, o diabo é o senhor do submundo que controla os tesouros da terra no seu reino maligno; é Plutão, o deus da riqueza, que, por seu controle dos recursos do mundo, dita os negócios dos homens. A última peça de Aristófanes, o Plutão, é um comentário grande e amargo a respeito do tipo de pessoas que se tornam bem-sucedidos neste mundo. Com certeza um dos temas mais prevalecentes da literatura desde a história egípcia dos dois irmãos, Lazarone e Dives, até as vicissitudes da família Joad de Grapes of Wrath (de Steinbeck). Se acreditamos Isaías, o próprio Filho do Homem era “desprezado e rejeitado” (Isaías 53:3), do qual conclui-se que ser altamente bem-sucedido nesta vida não comprova a virtude definitiva. Porque a pergunta de ouro de Satanás, “Tens por acaso algum dinheiro?” faz um efeito paralizador e misterioso que consegue alistar todos, menos os espíritos mais nobres, na grande conspiração. Diz Isaías: “Por isso o direito se tornou atrás, e a justiça se pôs de longe; porque a verdade anda tropeçando pelas ruas, e a eqüidade não pode entrar. Sim, a verdade desfalece, e quem se desvia no mal arrisca-se a ser despojado” (Isaías 59:14-15). Em outras palavras, quem se recusar a aceitar estas coisas, levará uma surra. Continua Isaías: “O Senhor o viu, e pareceu-lhe mal aos seus olhos que não houvesse justiça” (Isaías 59:15). Todos se aproveitam uns dos outros, e isto não agrada a Deus de jeito nenhum. “Eis que o mundo agora jaz em pecado, ninguém faz o bem, não ninguém, . . . e a minha ira está acesa contra os habitantes da terra para visitar sobre eles conforme a sua impiedade.” São as primeiras palavras do Senhor nesta dispensação, proferidas a Joseph Smith no bosque sagrado. A expressão “o mundo jaz em pecado” exige um esclarecimento à moda de Isaías, e também achamos a explicação da mesma expressão em Doutrina e Convênios 49:20: “Mas não foi determinado que possuísse um homem mais do que o outro; portanto o mundo se acha em pecado.” Mamom (riquezas) é um deus ciumento; não se pode servir a ele e a qualquer outro mestre. Para escapar-se da atração poderosa dos bens do mundo e da ameaça mortal àqueles que não os possuem requer uma alma mansa e humilde—e corajosa!

      O que é que Isaías diz que Deus exige àqueles que querem ser justificados (salvos)? Em primeiro lugar devem ser limpos de toda a contaminação: “Lavai-vos, purificai-vos,” diz ele no primeiro capítulo (Isaías 1:16). Não façais vossas orações de mãos cobertas de sangue. O indivíduo de mãos limpas e coração puro, diz o salmista, é aquele que “não entrega a sua alma à vaidade, nem jura enganosamente” (Salmos 24:4). Isaías concorda: é aquele que “rejeita o ganho da opressão, que sacode das suas mãos todo o presente; que tapa os seus ouvidos para não ouvir falar de derramamento de sangue e fecha os seus olhos para não ver o mal” (Isaías 33:15). O povo havia jejuado conforme ordenado por Deus e perplexo perguntou a Isaías por que Deus não o havia escutado. Ao responder-lhe, o profeta disse: “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, . . . e recolhas em casa os pobres abandonados; e quando vires o nu, o cubras . . . ?” (Isaías 58:6-7). Isto também serve de lembrete que nosso jejum requer uma oferta para os pobres. Deus não se impressiona com os templos magníficos que a humanidade Lhe constroi—em todo caso, tudo pertence a Ele, “mas para esse olharei, para o pobre e abatido de espírito, e que treme da minha palavra” (Isaías 66:2). Se o povo continua a justificar-se—“também estes escolhem os seus próprios caminhos, e a sua alma se deleita nas suas abominações” (Isaías 66:3)—Deus não lhes tirará o arbítrio; dará a eles corda suficiente para enforcarem-se: “Também escolherei as suas calamidades, . . . porquanto clamei e ninguém respondeu; . . . e escolheram aquilo em que eu não tinha prazer” (Isaías 66:4).

      Depois de descrever os caminhos de Israel, o peso de Damasco, o peso do Egito, o peso de Babilônia e a Assíria—ou seja, o mundo como é mas não devia ser—Isaías representa em palavras resplandecentes a terra como devia ser—como foi destinada, conforme o propósito para o qual foi criada. “. . . Deus . . . não a criou vazia, mas a formou para que fosse habitada” (Isaías 45:18). A terra estará sob o seu domínio, ele é o Senhor e não há outro. A ele todo joelho dobrará e toda língua confessar´. “E naquele dia . . . o fruto da terra será excelente” (Isaías 4:2). Tudo que resta são Sião e Jerusalém. “. . . o Senhor terá lavado a imundícia das filhas de Sião, e limpado o sangue de Jerusalém” (Isaías 4:4).

      Sendo que Babilônia já não é, um grande suspiro de alívio se ouve; por fim o mundo se acalma e descansa. A cidade dourada, a opressora, não é mais (veja Isaías 14:4). A terra toda descansa. “Boas novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos” (Isaías 61:1). “Nunca mais se ouvirá de violência na tua terra, desolação nem destruição nos teus termos” (Isaías 60:18). Pelo contrário, “julgar´ com justiça aos pobres, e repreenderá com eqüidade aos mansos da terra” (Isaías 11:4). “Pois onde está o furor do que te atribulava?” (Isaías 51:13). “Ó vós . . . que não tendes dinheiro, vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite. Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão? . . . Vinde a mim, ouvi, e a vossa alma viver´” (Isaías 55:1-3). Que assombroso! Naquele dia o homem valerá mais que ouro—uma viravolta dos princípios do mundo. Ao mesmo tempo voltarão as florestas e as árvores se regozijarão: “Ninguém sobe contra nós para nos cortar” (Isaías 14:8). Freqüentemente Isaías compara a iniqüidade crescente do mundo com a exploração brutal e desperdício da natureza, que está chegando a seu auge na atual geração. Todos nós conhecemos suas passagens mais poéticas: “E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho de leão e o animal cevado andarão juntos, e um menino pequeno os guiar´. A vaca e a ursa pastarão juntas, seus filhos se deitarão juntos, e o leão comer´ palha como o boi” (Isaías 11:6-7). Nos meus dias de escola se considerava esta ilustração como se de um Isaías não realista que imaginava um monte de bobagem zoológica. Afinal, o que ele retratou não era a natureza de “dente sangrento e garras” do nosso mundo neo-darwiniano. Desde então muito se tem aprendido sobre a natureza verdadeira de certos animais selvagens. “Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Isaías 11:9). “O deserto e o lugar solitário se alegrarão disto; e o ermo exultará e florescerá como a rosa. Abundantemente florescerá, . . . porque águas arrebentarão no deserto e rebeiros no ermo. E a terra seca se tornará em lagos, e a terra sedenta em mananciais de águas” (Isaías 35:1-2, 6-7); “Para que todos vejam, e saibam, e considerem, e juntamente entendam que a mão do Senhor fez isto, e o Santo de Israel o criou” (Isaías 41:20).

      E este mundo feliz é para todos, da mesma forma que a mensagem de cautela e da promessa de perdão de Isaías é para todos. Os filhos do estrangeiro que aderirem ao convênio “eu os levarei ao monte sagrado.” Eles irão ao templo, o qual será chamado “casa de oração para todos os povos” (Isaías 56:7). O Senhor Deus, que congrega os párias de Israel e todos os animais do campo, diz que não haverá mais cães de guarda para tormentá-los; será uma época felicíssima para o homem e o animal (veja Isaías 56:8-10). “Grandes são as palavras de Isaías” (3 Néfi 23:1). Foi-nos mandado examiná-las, estudá-las, ponderá-las, levá-las a sério, e compreender que as calamidades e bênçãos contidas nestas palavras foram destinadas para a nossa geração. Oro que as palavras deste grande profeta possam nos preparar tanto para estas calamidades como para as bênçãos.

  3. robson_lopes

    18 de novembro de 2016 10:34 pm

    Só faltou a jornalista da

    Só faltou a jornalista da Folha citar os exemplos do impeachment da presidenta Dilma, em que pós-verdade foi a palavra da vez, não apenas dos sites e blogs reacionários, mas também da mídia tradicional, inclusive a folha e todos os demais jornais jornais tradicionais e conservadores.
    O exemplo, óbvio, só fica lá fora, aqui se faz jornalismo sério, isento e imparcial, não espaço para pós-verdades, mas apenas para mentiras, contadas por meio de meias-verdades.

    1. Josias Pires

      18 de novembro de 2016 11:39 pm

      Pura verdade

      Se a Folha (e similares) assumir que mente desbragadamente isto deixaria de ser pós-verdade, mas a pura verdade.

  4. Hamilton

    19 de novembro de 2016 12:36 am

    Os americanos no bar não disseram que Trump não desrespeitou as mulheres, e nem que não dissera que Obama nasceu no Quênia.

    O uso do cachimbo entorta a boca.

    Quem criou a pós-verdade foi a imprensa.

    Agora, aguentem!

     

  5. Hamilton

    19 de novembro de 2016 12:36 am

    Os americanos no bar não disseram que Trump não desrespeitou as mulheres, e nem que não dissera que Obama nasceu no Quênia.

    O uso do cachimbo entorta a boca.

    Quem criou a pós-verdade foi a imprensa.

    Agora, aguentem!

     

  6. sergio ferreira

    19 de novembro de 2016 10:06 am

    Impressão minha ou esse

    Impressão minha ou esse conceito de pós-verdade só se aplica aos “outros”.

     

    Trump mentiu mais que Hillary? 

    Ou melhor, criou mais pós-verdades do que ela?

     

    A campanha do BREXIT criou mais pós-verdades do que a campanha pela permanência britânica na UE?

     

    Esse conceito é interessante, retirada uma faceta elitista presente no texto.

     

     

     

  7. Omar da Silva

    21 de novembro de 2016 1:49 pm

    “Portanto, é bastante

    “Portanto, é bastante apropriado entronar o “pós-verdade” no ano em que o Brexit e a eleição de Donald Trump provaram que a verdade deixou de ser relevante para muita gente.”

     

    E o impeachment sem crime de responsabilidade?

     

    Faz-me rir!

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