4 de junho de 2026

Cinema: O Amante da Rainha

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

 

O Amante da Rainha (2012): o adultério que ajudou a salvar um país

Longa dinamarquês indicado ao Oscar retrata história real da monarquia no século 18

Filmes de época sempre escondem escândalos que rodeavam os nobres de seu tempo. Por trás de toda a pompa social e do luxo exorbitante, a ganância, falsidade e traições se tornaram assuntos que atraíram os espectadores “plebeus” às salas de cinema. Um dos últimos exemplos a entrar para a galeria é “O Amante da Rainha”, longa dinamarquês dirigido pelo cineasta Nikolaj Arcel, mais conhecido como o roteirista de “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres”. Grande sucesso de público e crítica, esse longa ainda deu origem a uma refilmagem norte-americana estrelada por Daniel Craig e Rooney Mara.

No filme, acompanhamos a história real da rainha Caroline Mathilde (Alicia ikander). Em 1766, ela conta por cartas aos filhos (que não a conhecem) a história de sua vida. Por meio de flashbacks, somos levados a 1759 quando, aos 15 anos, sai de Londres e é enviada à Dinamarca para se casar com o primo, o rei da Dinamarca, Christian VII (Mikkel Boe Følsgaard). O país, afundado em dívidas e com uma população na miséria, será um dos menores problemas da mais nova rainha.

Precisando abraçar uma nação que não era sua e diante de um casamento arranjado sem nenhum sinal de sentimento (Maria Antonieta que o diga), Caroline ainda precisa suportar a insanidade do marido, um rei perdido em seu próprio universo, que faz com que aja de maneira infantil e embaraçosa, beirando o escatológico. Porém, Caroline logo conquista a corte, especialmente sua dama de companhia Louise (Laura Bro) por conta de sua beleza, carisma e talento.

Após dar à luz a Frederik VI, a rainha sente seu tédio amenizado diante dos eventos tradicionais da monarquia, como inúmeras festas e jantares. A corte, porém, preocupada com o agravamento do estado de saúde do rei, convoca o médio provinciano alemão Johann Struensee (Mads Mikkelsen), um ateu de ideias liberais que logo ganha a total confiança do monarca. Auxiliando Christian a governar o país, Johann se torna uma peça-chave na condução dos assuntos políticos, o que não é visto com bons olhos pelos membros do Conselho Real.

De ideias iluministas (algo que não agradava em nada os nobres), Johann acaba se envolvendo com a rainha Caroline Mathilde, tornando o secreto caso amoroso uma grande pedra no sapato, tanto pela sua grande relação de amizade com o rei como por conta das consequências políticas que isso acarretaria no trono da Dinamarca.

Em um ambiente de humilhações e aprisionamento, Caroline encontra em Johann um conforto que lhe falta no marido, que expunha sem pudores sua rotina de humilhações e noites regadas a álcool e prostitutas (apesar de registros históricos apontarem Christian como um provável homossexual). Johann, enquanto isso, vai botando panos quentes no comportamento megalomaníaco e fazendo o que pode para favorecer respaldo sociopolítico ao povo por meio do poder monárquico, como cortes de gastos desnecessários (em uma época que se gastava em quatro meses o montante destinado a um ano) e, assim, direcioná-los aos súditos.

Diante de toda essa estratégia para colocar em prática a liberdade popular que defendem, Johann e Caroline ainda mantêm um fervoroso caso de amor dentro dos aposentos do palácio. Em doses homeopáticas, a dupla traição vai sendo mascarada pela corte, ávida pelo poder de dominar um rei incapaz de pensar por si só. E a Dinamarca, permeada por uma epidemia de varíola, o pavor de uma monarquia tirana que quer cortar pela raiz o ascendente Iluminismo (e a capacidade do homem de pensar por si só) e o influente poder da Igreja.

É curioso observar um filme como “O Amante da Rainha” sendo o longa indicado pela Dinamarca para representar o país no Oscar. Entre os cinco finalistas à estatueta, observar o lado negro da monarquia de uma nação ainda com a tradição real em sua atualidade é, ao mesmo tempo, uma forma de revisitar um passado cruel e celebra a liberdade diante das amarras que lhe fizeram ser hoje um dos países mais desenvolvidos da Europa.

Com todo o cuidado com detalhes necessários a um filme de época de qualidade, como trilha sonora marcante, além de direção de arte, figurino e fotografia bem cuidados, “O Amante da Rainha” traz, ainda, um roteiro bem amarrado e inteligente (vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim), adaptado a quatro mãos pelo diretor e Rasmus Heisterberg, baseado no romance “Princesa de Sangue”, de Bodil Steensen-Leth.

Diante de interpretações corretas de boa parte do elenco, o longa ganha na beleza e carisma de Alicia Vikander como a rainha infiel e perde no apático Mads Mikkelsen, como o amante Johann. Porém, o grande trunfo de “O Amante da Rainha” recai sobre Mikkel Boe Følsgaard como Christian VII. Laureado com o Urso de Prata por sua atuação, o ator oferece toda a força necessária de um personagem atormentado e de atitudes nada convencionais que tem nas mãos a responsabilidade de conduzir uma nação. E tudo isso sem cair no risível, lembrando em alguns momentos – e guardada as devidas proporções  – o espevitado Mozart de Milos Forman em “Amadeus”, magistralmente interpretado por Tom Hulce.

O filme, infelizmente, não inova no formato, abusando de planos abertos e mostrando o lado obscuro da monarquia, mas aproxima o espectador da nobreza ao inserir diálogos de linguajar chulo, bem diferente das regras de etiqueta que predominam nos filmes do gênero. E ainda nos dá uma aula de História que, mesmo que não aprofundada em suas pouco mais de duas horas de projeção e com um epílogo previsível, oferece uma visão panorâmica de um país que saiu da miséria e abriu as portas ao desenvolvimento. Desenvolvimento este, ironicamente, favorecido por um caso de amor proibido.

____
Léo Freitas formou-se em Jornalismo em 2008 pela Universidade Anhembi Morumbi. Cinéfilo desde a adolescência e apaixonado por cinema europeu, escreve sobre cinema desde 2009. Atualmente é correspondente do CCR em São Paulo e desejaria que o dia tivesse 72 horas para consumir tudo que a capital paulista oferece culturalmente.

http://cinemacomrapadura.com.br/criticas/290045/o-amante-da-rainha-2012-o-adulterio-que-ajudou-a-salvar-um-pais/

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados