Sugerido por anarquista serio
CARLOS HEITOR CONY
1964 – O último dia de Jango
RIO DE JANEIRO – Lá pelas 10 horas da manhã, sentindo que nada mais tinha a fazer no Rio, João Goulart partiu para Brasília. Lá chegando, descobriu que também não tinha mais governo. Houve apelos à resistência, mas preferiu embarcar para Porto Alegre, onde foi recebido por alguns soldados que lhe prestaram a guarda regulamentar. Reuniu-se com Brizola, que desejava a resistência a qualquer preço, bastava uma palavra de Jango e o movimento militar se transformaria realmente em guerra civil.
Mas ele era homem pacífico e derrotado. Se resistisse, poderia retornar ao poder na crista de uma revolução. Sua índole não era guerreira, governava com tédio, nostálgico de seus campos e de suas invernadas. Cumprira o seu papel dentro das possibilidades de um homem introvertido, inseguro, levado pelos acontecimentos.
Ao contato com as massas, ele se transformava, tinha no sangue o carisma do caudilho de fronteira. Fizera o impossível para se manter no poder, não faria o absurdo. No dia seguinte partiria para o Uruguai, num comprido exílio que devastou seu rosto, tornando-o vincado, sofrido, velho.
O aspecto negativo de seu governo prevalecerá, mas os historiadores já começam a suspeitar que ele foi deposto mais pelas suas qualidades do que por seus defeitos. Não teve comando para domar assessores mais radicais. Criou a Eletrobras que Getúlio Vargas arrolou na carta-testamento como uma empresa “obstaculizada até ao desespero”.
Iniciou os estudos para a construção de uma gigantesca usina, aproveitando o potencial do rio Paraná, e Itaipu forneceria os 12 milhões de kW necessários ao progresso do país. Embrulhado em tantos problemas de ordem institucional e em suas próprias contradições de classe, faria mais se a pressa das esquerdas em aproveitar o vento da história não o tivesse escolhido para um papel que ele dispensava e, no fundo, desprezava.
alexandre casemiro de almeida
29 de dezembro de 2013 8:51 pmSe não me engano, Cony foi um
Se não me engano, Cony foi um apoiador de primeira hora do golpe, me corrijam se eu estiver errado…
Lucinei
30 de dezembro de 2013 3:18 pm“…faria mais se a pressa
“…faria mais se a pressa das esquerdas…”
Tudo nesse país é culpa “das esquerdas”. Boçais de olho grande no poder e conservadores que não aceitam perder nunca nada dão um golpe em um presidente constitucional e a culpa é “das esquerdas”. Qual seria a “alternativa”, ficar a “esquerda” calada? Ora, foi isso que aconteceu logo depois; é isso que secreta ou explicitamete querem até hoje.
O pt tem algo em torno de 15% de representação parlamentar. Se somar “as esquerdas” não dá nem um terço. E essa oposição fica histérica com a “hegemonia cultural” da esquerda. Quem viu aquele patético programa da globonews, o painel, percebe que o problema é com a realidade. Precisam confundi-la, torcê-la. Precisam acreditar que depuseram um presidente constitucional, fazendeiro, para “salvar” o país da cubanização e da república sindical; precisam acreditar que suspender habeas corpus é pra garantia da liberdade; precisam acreditar que achatar o salário é pro bem estar do trabalhador