AUTOPSICOGRAFIA
_____________________________ publicado na Revista Presença nº 36, novembro de 1932
O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
ISTO
_____________________________ publicado na Revista Presença nº 38, abril de 1935
Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplismente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda,
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
“(…) este poema e o anterior se completam perfeitamente, até pela escolha do título que o poeta apôs ao segundo: “Isto”, como a dizer: “o que parecia um absurdo (concentrado na expressão) ‘chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente ‘, não o é”, pois que “Eu simplesmente sinto / Com a imaginação; / Não com o coração”.
Cleonice Berardinelli, “Fernando Pessoa: antologia poética”, p. 58,59 – 1ª ed. – Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2012.

Imagem: Almada Negreiros (1893-1970). Retrato de F. Pessoa. 1935. in Presença, nº 48, 1936.
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