Crise? As sete soluções.
O professor Philipp Bagus, da Universidade Rey Juan Carlos, acaba de publicar um bom artigo nas páginas do Ludwig Von Mises Institute, aqui não traduzido mas resumido.
Vale a pena ler, pois Bagus, economista liberal clássico, apresenta a actual situação dos Países ocidentais e descreve as possíveis saídas.
Que, podemos antecipar já, não são nada simpáticas.
Um sistema baseado no papel-moeda e nas mãos dos privados contém as sementes da sua própria destruição. A tentação de imprimir cada vez mais dinheiro para aumentar a sua quantidade em circulação é quase irresistível.
Num sistema que precisa constantemente de mais dinheiro, onde há um continuo aumento dos preços, não faz sentido poupar hoje para comprar amanhã: a melhor estratégia é endividar-se para comprar bens hoje e pagar amanhã, com o dinheiro já desvalorizado. Ainda melhor: comprar bens que possam ser dados como garantias para novos empréstimos. Criamos assim o perfeito cidadão eternamente endividado. E escravo.
Mas as consequências atingem também o Estado: a moeda criada não é utilizada para favorecer o desenvolvimento ou o bem estar social, nem sequer enche os cofres nacionais. E aparecem as dívidas públicas excessivas, “os investidores” estrangeiros.
O mundo ocidental encontra-se agora numa situação em que o sistema do “dinheiro de papel” parece um beco sem saída. Os governos “resgataram” os maus investimentos feitos pelo sector privado, aumentando deficit e despesa, taxando: as dívidas públicas aumentaram também; os bancos centrais (a maioria deles, lembramos, geridos directamente ou indirectamente por privados) começaram a imprimir mais dinheiro para comprar dívida pública. E é tudo dinheiro “grátis”, com taxas de juros perto de zero.
Não está à vista nenhum crescimento. E, ao mesmo tempo, os sistemas bancários estão sentados em cima de enormes pilhas de dívida. Isso significa que a falência duma economia (não necessariamente grande) poderia arrastar consigo um bom número de bancos (não necessariamente pequenos).
O aumento das taxas de juro para níveis mais realistas ou até um abrandamento na impressão de nova moeda poderia pôr em risco a solvência de todo o sector bancário, as empresas com um elevado endividamento e até os governos (caso dos Estados Unidos).
Esta, de forma sintética, a actual situação.
Mas isso significa o quê? Será preciso continuar a imprimir cada vez mais dinheiro e manter as taxas de juros perto de zero, até todos perderem a confiança no sistema monetário? O sistema de papel-moeda irá para a frente ou, mais cedo ou mais tarde, chegará inevitavelmente uma fase de hiperinflação?
Existem, pelo menos, sete possibilidades :
1. Bombear sempre
Os governos e os bancos centrais podem simplesmente continuar no caminho da inflação, imprimindo todo o dinheiro necessário para salvar o sistema bancário, os governos, as empresas de investimentos. Então, chegará a “hiperinflação”: o dinheiro terá cada vez menos valor, os preços irão crescer de forma brutal.
Prós: com a hiperinflação, as dívidas quase desaparecem (ter uma dívida de 1000 quando uma sandes custar 1 significa ter uma grande dívida; ter uma dívida de 1000 quando uma sandes custar 2000 significa ter uma pequena dívida).
Contras: com a hiperinflação as poupanças (até os ordenados) perdem imenso valor (ganhar 1000 quando uma sandes custar 1 é bom; ganhar 1000 quando uma sandes custar 2000 é uma miséria).
2. Desaparecimento dos direitos adquiridos.
Os governos podem melhorar a situação financeira simplesmente não honrando as suas promessas. Por exemplo, podem reduzir drasticamente as pensões públicas, a segurança social e os subsídios de desemprego para eliminar o deficit orçamentário e saldar dívidas pendentes. Muitos direitos, em que as pessoas tinham fundado as suas próprias escolhas na vida, de repente desaparecem.
É a estrada escolhida pelo governo de Portugal.
É uma opção com custos enormes no médio e longo prazo: os deficit são sanados (no curto prazo), verdade, mas é quebrada a confiança de cidadãos e empresas, diminuem investimentos e consumos.
Prós: Forte poupança do Estado, dívida paga.
Contras: Fortes tensões sociais, economia a pique, altos custos no médio e longo prazo.
3. Negar a dívida.
Os governos podem decidir não honrar as suas dívidas. Parece simples, mas também neste caso as consequências são pesadas. Não honrar as dívidas implica perdas para os bancos e companhias de seguros que investiram as poupanças dos seus clientes nos Títulos do governo (que deixam de ser adquiridos: quem compra o Título dum Estado que depois não paga?). As pessoas vêem o valor dos seus investimento cair abruptamente, mas este é apenas o começo: desconhecer a dívida pode facilmente levar ao colapso do sistema bancário nacional antes e de boa parte do internacional depois (os bancos estão todos interligados).
Prós: a dívida “desaparece”.
Contras: também desaparecem as poupanças dos cidadãos com o colapso do sistema bancários.
4. Repressão financeira.
Outra maneira para tentar sair da armadilha da dívida é a repressão financeira, uma maneira de canalizar mais fundos para o governo, facilitando assim o pagamento da Dívida Pública. A repressão financeira pode ser gerada com regulamentos que torne menos atraentes as alternativas aos fundos de investimento públicos: desta forma, é incentivada a compra de Títulos de Estado.
Prós: boa parte da nova dívida é gerada por Títulos de Estado vendidos “em casa” e subtraída aos especulatores internacionais.
Contras: é uma medida parcial, que sozinha não resolve o problema. É necessário também que haja um crescimento real e cortes nos gastos para realmente poder ter efeito.
5. Pagar a dívida.
O problema da super-endividamento também pode ser resolvido com medidas fiscais. A ideia é eliminar as dívidas dos governos e recapitalizar os bancos através dos impostos. A redução do crescimento da dívida alivia a necessidade do banco central de manter os juros baixos e continuar a imprimir moeda. Para atingir esse objectivo, o governo deve cortar a despesa pública, desapropriar riqueza em grande escala: aumentar as taxas, expropriar, confiscar a riqueza. Em seguida, usa estas receitas para pagar as dívidas e recapitalizar os bancos.
Prós: a dívida é paga, abranda a criação de dinheiro.
Contras: empobrecimento geral, queda abrupta do consumos, economia em crise.
6. Reforma monetária.
Outra solução é pensar numa reforma da moeda, incluindo um default (parcial) da dívida pública. Esta opção também é muito interessante para eliminar o sobre-endividamento sem chegar a uma forte inflação dos preços. É como carregar a tecla “reset”, começando de novo com uma nova moeda.
Mas também isso tem consequências: os investidores na posse de grandes quantidades de dinheiro são os mais atingidos.
Prós: diminui a dívida pública, o peso da dívida sobre cada cidadão é reduzido também, inflação controlada.
Contras: a nova moeda será mais débil, perdas significativas para os grandes investidores.
7. Bail -in.
Depois há o bail-in, o esquema já utilizado em Chipre: os credores do banco (os depositantes) absorvem as perdas da instituição. Tornam-se “accionistas” do mesmo banco. As dívidas de facto diminuem e o capital aumenta. O problema é que uma pessoa deveria tornar-se accionista duma empresa com base voluntária, não por decisão unilateral do governo. O bail-in significa que os erros dos bancos são pago por quem depositou as suas poupanças numa conta ou adquiriu outros produtos financeiros (um programa de reforma, um seguro, etc.). O resultado é mais uma vez uma quebra de confiança no relacionamento cidadão-Estado, desta vez quebra que envolve os bancos também, pois são eles os beneficiários directos. E nem falamos aqui de assuntos ligados à ética…
Prós: as dívidas de bancos, e em parte do Estado, diminuem.
Contras: os erros dos bancos são pagos pelos clientes, forte quebra de confianças do cidadãos, prováveis consequências na economia (menos compras).
Estas são as sete hipóteses em cima da mesa. Por enquanto não é possível vislumbrar outra.
Podemos enfrentar qualquer uma destas ou uma combinação de duas ou mais opções (o que é mais provável).
Em qualquer caso, os “buracos” criados pela má gestão vão ser postos em evidência e a ilusão de riqueza irá acabar. Em essência, os contribuintes e os investidores vão ser espremidos para reduzir as dívidas do Estado e fortalecer a moeda. Um imposto extraordinário sobre o património, uma reforma monetária ou umbail -in: tudo isso constitui “repentinas medidas brutais”.
A inflação é muito popular entre os governos, porque permite esconder os reais custos dos resgates dos bancos. Mas há sempre o perigo de que a inflação possa ficar fora de controle. Antes de chegar à inflação galopante, os governos tentarão percorrer as outras opções, um mix delas.
A única coisa sobre a qual não podemos ter dúvida é quem pagará a conta.
Ipse dixit.
Nota: Philipp Bagus é professor associado da Universidade Rey Juan Carlos. Foi premiado em 2011 com oO.P. Alford III Prize in Libertarian Scholarship. É o autor de “A Tragédia do Euro” e co-autor de “Deep Freeze: o colapso económico da Islândia”.””A Tragédia do Euro” até agora tem sido traduzido e publicado em alemão, francês, eslovaco, polaco, italiano, romeno, finlandês, espanhol, português, inglês, holandês, português do Brasil, búlgaro e chinês.
Bagus é um economista clássico liberal, da assim chamada “escola austríaca”. Nada de Modern Money Theory por aqui, portanto.
Fonte: Ludwig Von Mises Institute
http://informacaoincorrecta.blogspot.com.br/2013/12/crise-as-sete-solucoes.html
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