
Um extraordinário repórter investigativo da “Folha”, revirando as entranhas da espionagem brasileira contra dirigentes de outros países, encontrou o inacreditável arsenal de equipamentos usados nesse trabalho sujo pela Abin. Numa sala de um prédio abandonado em Sobradinho estavam escondidos, entre outros aparelhos de bisbilhotagem, um gravador Phillips tamanho família, um gramofone invertido para escuta, um espelho montado num cabo de vassoura para observação no andar de cima, e uma lista de garotas de programa.
– Caso Obama venha novamente ao Brasil, a equipe deve trabalhar com a precisão de um relógio, leu Simplício para Angeline, com os olhos no “Manual de Espionagem Secreto” da Abin. Um bombeiro tipo Luma de Oliveira deve distrair Michelle, a mulher de Obama, enquanto a puta mais bonita da praça, preferivelmente loura para ele variar, leva o Presidente pra cama e bota o gravador ligado debaixo do travesseiro. Feito isso, com o tempo da trepada bem cronometrado, a puta sai discretamente com o gravador, recebe o dinheiro e se manda.
– Mas que diabos vai estar nesse gravador além dos gemidos de sempre?, se irritou Angeline.
– Ah, tudo dependerá das circunstâncias. Dependendo do nível das relações do Brasil com os Estados Unidos, a puta vai perguntar o que nos interessa.
– Mas não é mais simples contratar a puta e esquecer os equipamentos?
– Não, Angeline. Ao que eles dizem, espionagem hoje deve ser feita com algum grau de tecnologia. O tempo das Mata Haris acabou.
– A propósito, onde você viu essa lista de equipamentos? A “Folha” não publicou…
– Um ex-espião da Abin que está puto com o valor de sua aposentadoria me deu, pensando que eu conhecia alguém da Globo para divulgar.
– E por que a o Globo não partilhou a revelação com a “Folha”, como os muy amigos da grande imprensa sempre fazem?
– Porque são patriotas, e não publicam material secreto que prejudique o Governo e o Estado brasileiros. Se dessem essa lista de equipamentos – que foi mais ou menos o que se usou para espionar os iraquianos, iranianos e outros apontados pelos jornalistas investigativos extraordinários da “Folha” na sua matéria de capa -, todas as pessoas que não gostam de ser espionados mudariam para o Brasil, criando-se uma imensa corrente turística impossível de ser suportada pela rede hoteleira e pela aviação no ano da Copa.
– A propósito, inquiriu Angeline, o que tem em comum com a atual espionagem americana de nossa Presidenta a monitoração de alguns estrangeiros feita pela Abin em 2002?
– É que a “Folha”, prejudicada pelos concorrentes por falta de escândalos de espionagem, precisava de um caso só seu. Aí, no desespero, pegou o da Abin mesmo!
Simplício escreveu na agenda vermelha sob o olhar severo de Angeline: “Quem não tem escândalo de espionagem de Snowden caça com espiadas singelas da Abin.”
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