
Acaso o leilão de Libra foi um mau negócio? Talvez, pensou Simplício, o regime de concessão fosse mais interessante para o país que o regime de partilha, adotado no leilão. Mas fora o pessoal da AEPET ninguém sabe realmente distinguir um do outro. E é possível que o pessoal da AEPET, os últimos nacionalistas vivos remanescentes da campanha do petróleo, tenha exagerado na avaliação negativa da decisão do Governo.
– Se fosse tão ruim assim para o país e tão bom para as petroleiras estrangeiras, a maioria delas, que havia se inscrito para o leilão, teria dado lances. E não deu. Além disso, a Globo, na palavra de William Wack, reagiu com grandes críticas à parte abocanhada pela Petrobrás. Isso dá o que pensar, raciocinou o professor Galileu, consultado por Simplício.
– O resultado não é tão mau assim porque o principal é tirar o petróleo do fundo do mar e transformá-lo em investimentos e custeio da educação e da saúde, concordou Simplício.
– Mas não seria mais interessante deixá-lo no fundo do mar, como queriam alguns nacionalistas da AEPET e os petroleiros, para vendê-lo mais caro daqui a umas décadas na forma de derivados?, provocou Angeline.
– Daqui a algumas década estaremos todos mortos, ponderou Galileu, recorrendo a um antigo enunciado do velho Keynes. Ninguém sabe exatamente o que acontecerá nos próximos anos no mercado dos hidrocarbonetos. Os americanos estão produzindo gás e óleo de xisto aos borbotões, e falam seriamente em ficar autossuficientes em energia não renovável. Como têm poucas preocupações com o meio ambiente, é possível que o consigam.
– E parece que não são apenas eles, disse Simplício.
– Parece, não. China e Argentina têm bilhões em reservas de gás e óleo de xisto. É uma questão de tecnologia transformá-los e usá-los internamente ou colocá-los no mercado.
– Então, disse Angeline, a Presidenta tem razão quando fala em tirar o petróleo do fundo do mar o quanto antes possível. Em lugar de guardar o óleo para forçar o preço, pode ser mais prudente aproveitar os preços de curto prazo atuais antes que desabem pela concorrência com o xisto, de que também o Brasil tem grandes reservas.
– Mas numa coisa o pessoal da AEPET tem razão, observou Galileu. Devíamos nos preparar para produzir derivados do petróleo do pré-sal, e não apenas vendê-lo como matéria prima. É na produção de derivados que estão os maiores lucros da indústria.
– Não vai sair uma gota de óleo do pré-sal antes de cinco anos. Teremos tempo de criar mais refinarias e complexos petroquímicos até lá, palpitou Angeline. Basta ter estratégia, embora este seja um ponto fraco do atual Governo.
– E quanto aos petroleiros?, provocou Simplício.
– É apenas uma corporação oportunista que quis usar o leilão do pré-sal como cavalo de pau para arrancar um aumento de salário. Parece que perdeu, disse Galileu.
Simplício pôs a seguinte reflexão na agenda vermelha: Mais vale petróleo a curto prazo na flor das águas do que petróleo caro no fundo do mar.
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