A questão não é “vida ou economia”, mas “ou outra economia ou não teremos vida”, por Bruno Reikdal Lima

As lutas não fortalecem o exército, mas o mercado, como regulador supremo de todas as realizações e juiz sobre os que devem viver e os que devem morrer.

A questão não é “vida ou economia”, mas “ou outra economia ou não teremos vida”

por Bruno Reikdal Lima

Foi Weber quem escreveu que “quanto mais o mundo da economia capitalista moderna segue suas próprias leis imanentes, tanto menos ele é acessível a qualquer relação imaginável como uma ética religiosa de fraternidade. Quanto mais racional e, portanto, impessoal se torna o capitalismo, tanto mais ocorre isso”. A racionalização da economia capitalista, com suas abstrações que tornam possível a redução de todas as operações dos agentes a cálculos numéricos sem necessárias qualidades materiais, inviabiliza as relações pessoais, os conteúdos de valores éticos de fraternidade. O mesmo Weber em outro momento percebe que “a recusa dos homens modernos em assumir a responsabilidade dos julgamentos morais tende a transformar os julgamentos de intenção moral em julgamentos de gosto (‘de mau gosto’, em vez de ‘repreensível’)”, e que essa fuga de conteúdos éticos para questões de preferências individuais, de gosto e mau gosto, “resulta, em parte, das necessidades subjetivistas e em parte do medo de parecer de mentalidade limitada de um modo tradicionalista”.

Para ser moderno, é preciso ser impessoal. Para ser um “racionalizado”, é preciso reduzir princípios éticos fundamentais a questões de preferências. Deve-se desenvolver a capacidade de transformar a necessidades urgentes e imediatas em questões de opinião individual, tendo o resultado da ação de cada indivíduo em suas tomadas de decisão “opinativas” como quem julgará qual posição era a correta. Caso no processo de disputas de posições existam perdas irreparáveis, são distorções a serem reparadas em uma próxima rodada de apostas econômicas – ou em casos mais cínicos, efeito negativo necessário para o avanço da racionalização econômica. Como o intelectual alemão com quem estamos conversando percebeu, uma economia racional capitalista é “uma organização funcional orientada para os preços monetários que se originam nas lutas de interesses dos homens no mercado“.

Machado de Assis com Policarpo Quaresma deixa bem claro o princípio que rege as relações racionalizadas de uma economia capitalista moderna: “ao vencedor as batatas”. Princípios éticos fundamentais podem ser reduzidos a preferências individuais pois a regra no mercado é tudo ao que vence, nada ao que perde. Racionalidade, bem da verdade, é reduzida à operação de coordenar meios para obter um determinado fim, sem que haja qualquer outro critério para a escolha do fim – afinal, princípios éticos, normativos, que possuem exigências incondicionais que não podem ser necessariamente demonstráveis sob a perspectiva de um cálculo abstrato e impessoal, são questões de preferência e resquícios de tradicionalismos que devem ser deixados de lado para sermos modernos. Dessa forma, sob o desejo de se racionalizar, ações boas são as que obtêm resultados após coordenar meios e atingir o fim escolhido, e alcançar um fim (seja ele qual for) utilizando o processo de racionalização meio-fim torna a ação realizada necessariamente boa (independentemente dos efeitos que tenha produzido).

Assim, temos que a distinção realizada por Weber entre diferentes ações racionais, especialmente a diferença entre a ação racional instrumental que trata da operação técnica meio-fim, e a ação racional valorativa, que toma princípios ou exigências incondicionais para tomadas de decisão (valores), tem pouca função prática à medida que se reduz ações racionais a um único tipo, à razão instrumental. Como ele mesmo comenta, do ponto de vista da racionalidade instrumental, toda outra ação que não opere sob seus critérios aparece como irracional por ser menos eficiente (além dos resquícios de “tradicionalismo”). E a validade, como já comentamos, está na capacidade de ser eficiente em tomar posse de algo desejado. No mercado, nas lutas de interesses entre os agentes, encontramos então os valores supremos decorrentes das ações racionais desejáveis para a economia de mercado capitalista: eficiência e competitividade.

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Como comenta Franz Hinkelammert, na sociedade capitalista com pretensão de uma totalização de mercado, “coexistem as mais variadas relações meio-fim nos processos de produção, medidos pela relação custos de produção/preço do produto, e os mercados são o lugar no qual se entrelaçam uns com os outros. Mas este entrelaçamento é uma relação de luta na qual se encontram as diversas empresas, luta de mercados que se chama competição, a instância que decide acerca da eficiência de cada um dos produtores. O resultado desta luta indica, de uma maneira tautológica, quais das produções podem ser feitas ou sustentar e quais não. O que ganha demonstra, pelo simples fato de ganhar, que é mais eficiente (maximiza seu lucro, minimiza seus custos). Se toda a sociedade se organiza pelo critério da eficiência que se impõe na luta dos mercados, esta competitividade e essa eficiência se transformam nos valores supremos que decidem sobre a validade de todos os outros valores. O que se chama racionalidade da ação se resume, portanto, pela competitividade e a eficiência”.

Os agentes estão postos nesse tipo de ralação econômica em modo de batalha. As disputas são colocadas como o melhor método possível para a produção e melhoramento da economia, e a sociedade desejável deve estar em constante luta. A racionalidade e os valores morais reduzidos à impessoalidade de uma sociedade de mercado requerem uma postura bélica, moral de soldado, posicionamento sacrificial. A entrega é total, a celebração pelas pequenas vitórias necessária, o enaltecimento dos poucos heróis que superaram a violência das trincheiras enquanto milhares são deixados para trás no campo, derrotados, precisa moldar a concepção de mundo de cada agente econômico, de cada sujeito transformado em alguém preparado para ser o sobrevivente exemplar. Precisa ter algo parecido com que Mussolini chamou de “moral das trincheiras”, onde a disciplina “religiosa” criava os laços necessários para a batalha. Não laços de fraternidade, mas de um sacrifício competitivo em que cada combatente precisa saber que seu aliado está, no ponto de partida, potencialmente morto.

Contudo, a guerra para a qual cada um é preparado se dá no campo de batalha, não contra um inimigo comum, senão contra todos os outros que aparentemente também disputam pelos ganhos. As lutas não fortalecem o exército, mas o mercado, como regulador supremo de todas as realizações e juiz sobre os que devem viver e os que devem morrer. Cada luta reforça o funcionamento da própria guerra, alimenta novamente o circuito competitivo para uma nova disputa, infinitamente, sem que possam ser satisfeitas condições para o fim, dado que a finalidade necessária é a acumulação de capital, dada desde o início, fazendo com que a racionalidade meio-fim que já era reduzida se torne restrita: só é racional a ação que deseja capital – e realiza sua acumulação. Uma luta infinita, pois uma das definições de capital é exatamente o “valor que se valoriza”, abstratamente, com tendência infinita. Como disse recentemente o presidente do Banco Central: “a Vida não tem valor infinito”, fazendo referência ao capital, que pode perder todo o chão de materialidade e se mergulhar na impessoalidade de números calculáveis que atingem algo realmente impossível: a condição infinita da riqueza.

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E chegamos ao conteúdo preciso e insano no momento de crise que vivemos: a ilusão de que exista alguma operação econômica possível sem que sujeitos vivos possam participar e usufruir de sua produção. A isso Hinkelammert chama de “suicídio coletivo”: a capacidade de modo eficiente e racionalmente justificado destruir as condições para a produção, reprodução e desenvolvimento da vida. Um sujeito pode optar por abrir mão de todo projeto futuro ao reduzir suas ações a um resultado imediato que elimina as condições necessárias para sua própria vida. Assim opera a sociedade de mercado capitalista em última instância; assim opera a racionalidade de mercado total que toma conta da elite e parcelas populares de nosso país. Ainda comentado por Hinkelammert, “o resultado é uma tendência inevitável do mercado para a destruição tanto dos seres humanos como da natureza, que é condição necessária para a vida humana. Esta tendência destrutiva é a irracionalidade do racionalizado”. Eis o conteúdo irracional da operação de eficiência e competitividade de nosso modo de produção, de nossa organização social capitalista.

Juan José Bautista, filósofo e cientista social boliviano, destaca nesse sentido que “já não se trata do suicídio provocado intencionalmente, mas do suicídio como consequência ou efeito não-intencional”. Nos matamos a todos sem perceber que esse é o resultado de nossa ação aparentemente racional. Não era o fim desejado, pois o fim era o capital e a “economia” (reduzida às relações de mercado capitalista), mas o efeito provocado é a morte, a destruição de condições para a manutenção da vida. A dicotomia, portanto, não é entre “vida ou economia”, mas entre “vida ou capital”. Economia, enquanto regras para a organização do ambiente, da casa, do lar, é coordenação dos meios para garantir a produção, reprodução e desenvolvimento da vida de uma comunidade. Racionalizar é otimizar e maximizar as relações produtivas para que a vida permaneça, para que não haja a morte. A materialidade da morte não cabe na impessoalidade e abstração ilusória do cálculo que tende ao infinito. Se o presidente do BC estava certo em algo, é em perceber que a Vida não é infinita – e por isso a responsabilidade para a manutenção da vida das pessoas é necessária. Não do mercado. Da gente.

Por fim, como abertura para um próximo artigo, é preciso que compreendamos que a aceitação desse tipo de relação produtiva e organização social suicida não funciona sem que tenhamos compartilhadas práticas e conteúdos que compõem uma ideologia hegemônica que constitui as ações e a moralidade das pessoas. Os papéis desenvolvidos pelas instituições na produção e reprodução dessa ideologia precisa ser criticado. A formação escolar voltada exclusiva e propriamente para o mercado (e para a manutenção do mercado), a política reduzida a um cálculo de preferências e opinião pública, a imprensa sem qualquer responsabilidade material, operando também para atender as disputas no mercado (e por sua manutenção) e, também, das religiões como produtoras de uma moralidade sacrificial adequada a um modo de produção específico, ao nosso modo de vida. O sacrifício que sempre aparece como “necessário” na boca de um Ministro da Economia é sustentado e tem sentido na medida em que sacrifícios são ritualmente praticados por sujeitos em algum outro ambiente. Aprendemos a nos sacrificar e a sacrificar pessoas, a racionalizar o assassinato. O “capitalismo como religião”, tal qual propunha Benjamin, também é tema para a construção de outra economia que não violência do capitalismo de mercado total.

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REFERÊNCIAS

BAUTISTA, Juan José. Dialéctica del fetichismo de la Modernidade: hacia una teoría crítica del fetichismo de la racionalidad moderna. Yo Soy si Tu Eres Ediciones: La Paz – Bolívia, 2018.

BENJAMIN, Walter. Capitalismo como religião. Boitempo: São Paulo, 2017.

HINKELLAMERT, Franz; MORA, Henry. Hacia una economia política para la vida. DEI: San José – Costa Rica, 2005.

WEBER, Max. Textos selecionados: Coleção “Os Pensadores”. Tadução Maurício Tragtenberg, Waltensir Dutra, Calógeras A. Ajuaba, M. Irene de Q. F. Smzercsányi e Tamás J. M. K. Szmercsányi. Editora Nova Cultural: São Paulo – SP, 1997.

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