8 de junho de 2026

A vacinação em massa passará pelos rumos da escola, por Roberto Bitencourt da Silva

Não tem como ser promovido o retorno presencial das atividades de ensino. Tem que ser assegurada a inclusão digital.

A vacinação em massa passará pelos rumos da escola

por Roberto Bitencourt da Silva

A educação está longe de se situar no centro do sistema social e produtivo, sob o regime civilizatório do capitalismo. Isso especialmente no Brasil, como em outros países periféricos e tecnologicamente dependentes, talhados que são na importação de equipamentos e na transplantação de saberes e ideias.

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Em nossas paragens, do ponto de vista global da economia e da sociedade, uma greve na educação superior costuma ter ruído não mais do que marginal. Por sua vez, na educação básica uma greve dos professores tende a incomodar um pouco mais as autoridades e o poder, por conta do impacto na rotina e no cotidiano das famílias. Há também certa dimensão associada à assistência social, sobretudo no ensino fundamental, envolvendo crianças e jovenzinhos.

Mas, uma greve aí mal arranha o sistema produtivo e distributivo. Não afeta a circulação de mercadorias e do capital, ou seja, não incide sobre o que definitivamente constitui o eixo da sociedade capitalista: a acumulação de capital. Pouco tende a perturbar o sono do poder.

Na contramão, os trabalhadores dedicados aos setores de transportes, limpeza urbana, combustíveis e alguns mais têm maior capacidade potencial de afetar a dinâmica do poder com ações sindicais e paredistas. Contudo, por razões absolutamente singulares, devido às contingências da pandemia, parece que a importância da educação básica para o sistema ganhou certa envergadura estratégica.

Como de hábito, as matérias jornalísticas veiculadas pelos veículos massivos e comerciais de comunicação tendem a retirar o direito de voz dos professores sobre os assuntos relacionados à educação, em meio à pandemia. Além da satanização de praxe, quando em greve, aos professores não é conferido sentido de pertinência para falar e influir na construção da opinião sobre a pauta educacional explorada pela grande mídia.

Em meio aos acenos aqui e acolá das secretarias estaduais e municipais de educação no país, a favor da retomada das atividades presenciais nas escolas, menos espaço ainda é oferecido aos professores. Médicos, autoridades públicas, psicólogos, políticos, pretensos especialistas que nunca deram uma aula, enfim, não são poucos os personagens que possuem vozes garantidas, de modo a obscurecer, a todo custo, a figura central da educação, que é o professor.

Nesse domingo, reticente, assisti parte de uma matéria sobre o retorno presencial das atividades escolares, exibida no Fantástico. Não vi tudo, mas o que vi até que não foi horrível, como esperava. Ela mais ou menos tratou o assunto de maneira algo matizada e até hesitante. Para o padrão da Globo, também atendendo às expectativas dos estabelecimentos particulares de ensino, que almejam o retorno custe o que custar, até que a reportagem do Fantástico não foi das piores coisas sobre o tema da educação na pandemia.

A situação sanitária é muito grave, está completamente descontrolada no Brasil. O governo federal boicota criminosa e acintosamente a realização de uma vigorosa campanha de vacinação do Povo Brasileiro. Os governos estaduais e municipais, não raro, agem na esteira, com negligência, para dizer o mínimo. Pouco se esforçam para criar alternativas. O Povo, sobretudo os estratos mais espoliados e marginalizados da classe trabalhadora, mergulhado no subemprego e no desemprego crônico, completamente a deus-dará.

Nesse cenário tenebroso, suspeito que a luta do magistério da educação básica, contra as determinações oficiais arbitrárias e absolutamente inseguras da volta presencial das aulas –ações do professorado que já vêm se manifestando aqui e ali, desde meados do ano passado – tende a se configurar em uma luta que poderá servir como uma plataforma política relevante para reverberar a necessidade de uma vacinação geral e ampla da nossa gente.

Não há segurança alguma no retorno das atividades presenciais. As costumeiras e apressadas comparações com a Europa não combinam com a realidade nacional. Nos países da OCDE, por exemplo, o máximo de alunos em turmas nas escolas de ensino fundamental chega a cerca de 25 jovens e crianças.

No Brasil, habitualmente na escola pública a relação professor/aluno varia entre 45 e 50 por turma. Quando, por aqui, as autoridades andam a propor uma redução para 70% ou 50% de alunos por turma, isso significa, simplesmente, ainda estar acima do número total de estudantes nos países ricos e centrais do capitalismo, países-espelho das elites tupiniquins colonizadas e cúmplices do genocídio em curso. No Rio de Janeiro nem a água potável está garantida.

Não tem como ser promovido o retorno presencial das atividades de ensino. Tem que ser assegurada a inclusão digital. Porém, a relevância da educação básica tem chamado a atenção na quantidade de matérias jornalísticas, já preocupadas com questões de natureza econômica, relativas à retomada mais sólida das atividades de negócios e trabalho etc.

Nesse sentido, considerando o caráter a cada dia mais estratégico das escolas e dos profissionais da educação, em meio às vicissitudes da pandemia do Covid-19, seria muito oportuno que as entidades sindicais da educação básica se articulassem nacionalmente, com uma agenda de demandas e ações. Isso para que as iniciativas do magistério alcancem maior visibilidade e não fiquem dispersas e fragmentadas no território.

Como já foi deliberado e aprovado por estes dias entre os professores das redes estadual e municipal do Rio de Janeiro, o retorno presencial deve ocorrer somente com a vacinação prévia dos profissionais e dos alunos. Uma demanda sanitária que impõe na agenda pública a vacinação em massa da nossa gente associada, forçosamente, com os rumos da escola.

Roberto Bitencourt da Silva – cientista político e historiador.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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