O lockdown e as suas prováveis repercussões, por Rodrigo Medeiros

Há entre nós quem ainda insista, mesmo durante a pandemia, na necessidade de retomarmos o caminho distópico das reformas liberais.

Homem posa para foto no portão de sua casa em São Paulo 23/04/2020 REUTERS/Amanda Perobelli


O lockdown e as suas prováveis repercussões, por Rodrigo Medeiros

Entre as relevantes discussões sobre a pandemia de Coronavírus (Covid-19), há um pensamento equivocado e que versa sobre a necessidade do poder público buscar calibrar medidas de combate à pandemia para priorizar o funcionamento pleno da economia. Nesse sentido, as políticas de isolamento social seriam, para alguns, nocivas à economia. Para alguns, a imunidade de rebanho daria conta rapidamente do problema. Ledo engano?

O negacionismo em relação à alta taxa de transmissão do vírus colocará a capacidade dos sistemas de saúde rapidamente em xeque no Brasil. Medidas de isolamento social foram úteis, ainda que os índices de isolamento social disponíveis tenham mostrado que eles estiveram recorrentemente abaixo das recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS). Tendo em vista que a transmissão do vírus vem sendo alta no Brasil, não devemos descartar um lockdown (confinamento) logo adiante.

Instigante reflexão sobre o assunto foi publicada no blog do professor Thomas Conti, do Insper, no dia 15 de abril. De acordo com o professor, à luz da experiência internacional, “a grande maioria das pessoas não aguenta ver a quantidade de mortos por dia que a pandemia tende a criar na sua velocidade máxima e seguir uma vida normal”. Conti completa dizendo que “a partir de um certo nível de óbitos por dia e de uma dada velocidade de crescimento desse número, a resiliência social à tragédia simplesmente quebra”. Um lockdown endógeno se impõe.

Para Conti, “o lockdown endógeno é uma medida de isolamento social fortíssima, de supressão, que vem em função do medo crescente da sociedade diante da aceleração do número de mortos da curva não controlada da pandemia”. O medo faz, portanto, com que a população acabe aceitando uma política de isolamento mais forte, supressiva, para buscar reduzir significativamente a transmissão do vírus.

Um lockdown endógeno retardará a retomada das atividades econômicas, afetando-as inclusive de maneira mais profunda. O custo do relaxamento das políticas de isolamento social foi subestimado no Brasil. Segundo Conti, “ao invés de chegarmos em maio com uma economia com novas regras sanitárias e completa adesão de comprometimento da população com essas novas regras, até o fim de maio e junho estaremos assistindo a um colapso acelerado da saúde e do sistema funerário que mudará a opinião pública no sentido de ser favorável a mais medidas de isolamento”.

Medidas atrasadas e mais duras de isolamento social serão inevitavelmente adotadas. Um estudo de abril, chamado “Impactos macroeconômicos e setoriais da Covid-19 no Brasil”, coordenado pela professora Esther Dweck (IE-UFRJ), simulou os efeitos da pandemia de Covid-19 na economia brasileira. A nossa economia poderá cair até 11% em 2020 e a arrecadação tributária poderá cair até 14%. O mercado de trabalho, cuja precarização cresceu desde a reforma trabalhista, poderá ser ainda mais deteriorado com a perda de até 15 milhões empregos.

A demanda de consumo doméstica será afetada adversamente e acabará desestimulando a retomada vigorosa de setores econômicos. O gasto público precisará inevitavelmente buscar reconstruir a demanda doméstica posteriormente e ele já deveria estar sendo bem mais ágil e eficaz em ajudar a manter a renda das famílias durante a pandemia. Em um quadro dramático, de desarticulação federativa, resta-nos saber como ficará a estabilidade democrática brasileira em um vindouro cenário caótico e distópico, que se entrelaçará com o processo de esgarçamento das instituições vivido nos últimos anos.

Há entre nós quem ainda insista, mesmo durante a pandemia, na necessidade de retomarmos o caminho distópico das reformas liberais. Em seu livro, “Capital e ideologia” (2019), o economista francês Thomas Piketty mostra como ideologia e política moldam sistemas desigualitários em diversas épocas e em diversos países. O Brasil, que possui uma forte herança colonial e escravocrata, de tradição desigualitária, se insere na discussão. Antes da pandemia de Covid-19, os indicadores sociais e econômicos brasileiros, segundo o IBGE, revelavam a fragilidade da recuperação da recessão de 2015 e 2016. Relevantes discussões públicas globais mudaram de patamar e perspectiva a partir da pandemia de Covid-19. Alguma dose de desglobalização de atividades econômicas já está ocorrendo e os discursos de muitos chefes de governos responsáveis mudaram.

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