Os equívocos do conceito de grupo de risco: segregação social e danação coletiva, por Antonio Hélio Junqueira

A luta é pela sobrevivência do coletivo social e não apenas para os que são pensados como os mais úteis e aptos aos interesses e ao trabalho para o incansável e insone capital. O que agora ocorre é mais um absurdo equívoco.

de Flávio Luiz

Os equívocos do conceito de grupo de risco: segregação social e danação coletiva

por Antonio Hélio Junqueira[1]

Em seu pronunciamento em rede nacional de televisão, na noite de ontem, o maníaco e aturdido mandatário do (des)governo de plantão contraria medidas e recomendações adotadas por autoridades médicas, sanitaristas e políticas de todo o globo e convoca a população a abandonar sua quarentena e a retomar a normalidade da vida social, em pleno contexto da pandemia do coronavírus.

Sua atitude insana e descompromissada com a saúde, o bem-estar e o futuro do País imediatamente ganhou resposta nas panelas e janelas de todo esse sofrido Brasil no uníssono grito de ”Fora, genocida! ”

Nessa sua mais recente investida, o portador da faixa presidencial retoma o problemático conceito de grupo de risco, na tentativa de circunscrever as medidas restritivas da circulação pública a apenas poucos grupos de pessoas consideradas mais vulneráveis aos ataques letais do coronavírus: idosos, gestantes e portadores de doenças pré-existentes. Todas as demais, incluindo as crianças, são assim convocadas à retomada da normalidade da vida social, nada tendo a temer, posto que imunes ou resistentes a qualquer “gripezinha, ou resfriadinho”.

Lamentavelmente, esse conceito de grupo de risco ressuscita uma visão muito parcial e extremamente falaciosa, no que diz respeito à saúde coletiva. Nem é preciso ir muito longe para perceber os riscos que tal ideário retoma. Basta analisarmos com serenidade e a distância temporal que já nos é possível os fenômenos ocorridos no início da epidemia da AIDS/HIV, nos anos 1980.

Naquele período, frente à emergência visceral e ameaçadora da doença até então desconhecida, muito rapidamente consolidou-se a vontade de circunscreve-la a determinados grupos sociais, o que, na medida do possível, arrefecia a ansiedade coletiva e permitia a implementação de formas de isolamento, especialmente através da invisibilização e do apagamento social dos corpos doentes. O fato de os primeiros quadros sintomáticos terem se revelado em grupos homossexuais masculinos e usuários de drogas injetáveis forneceu os elementos necessários para que a doença fosse classificada como “peste ou câncer gay”. Nesse contexto, o conceito então engendrado de grupo de risco veio a contribuir decisivamente não apenas para aumentar a estigmatização social já prevalecente sobre os indivíduos considerados “desviantes” em relação às normas morais predominantes, mas também para confundir o entendimento dos mecanismos da transmissão da doença, o que veio a contribuir decisivamente para sua mais rápida propagação e generalização do contágio.

Assim, a ampla disseminação da doença e a indistinta contaminação de heterossexuais, mulheres e crianças, que se seguiram pelos anos 1990, trouxeram a necessidade do abandono da operacionalidade funcional do conceito anterior de grupo de risco e sua substituição pelo de comportamento de risco.

Ainda assim, nesse novo contexto ideológico da percepção social da doença, essa mudança não foi capaz de aportar subsídios suficientes para o enfrentamento bem-sucedido da epidemia da AIDS. Isso porque o conceito mantinha a condenação, o estigma e a exclusão dos indivíduos, sob o pressuposto da possibilidade da imputação da individualização da culpa e do julgamento moral das vítimas, acima das condições de existência e da convivência coletiva. Não é difícil perceber, portanto, as formas e as astúcias como o jogo do discurso hegemônico cria e recria a divisão social e aniquila a empatia e a solidariedade necessárias ao enfrentamento de questões globais, como as afetas à esfera da saúde coletiva. Nesse contexto, enraíza-se a ideia de que a doença é  –e sempre será – a doença do Outro, o problema do Outro, daquele que não me atinge, por que dele posso simplesmente me afastar.

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Para superar esses dilemas, a ciência, a prática e a práxis em saúde coletiva passaram a adotar o conceito de vulnerabilidade. Nele, e a partir dele, os riscos passam a ser compartilhados por todos, independentemente de gênero, idade, classe ou outros quaisquer marcadores sociais. Diz respeito a todos os seres humanos, de todos os lugares, irmanados pela globalização das relações e das conexões. Não somos grupos discrimináveis; somos coletivos interdependentes e mutuamente interferentes. Dependemos, quiçá mais do que nunca, da saúde e do bem-estar dos outros.

Nesse sentido, a ideia da vulnerabilidade em saúde coletiva convoca práticas de prevenção social dos riscos comuns, a que todos, indistintamente, estamos sujeitos. Envolve, simultânea e inseparavelmente, ações e compromissos individuais, sociais e governamentais, em suas dimensões de educação, informação segura, cuidados e assistência. Trata-se do único caminho da construção confiável para assegurar o bem-estar social e garantir a própria existência de um futuro para a humanidade.

Se apenas uma parte do coletivo se sentir intocável e invulnerável, estaremos prontamente todos incapazes de contornar e superar as condições impostas pelo risco social e coletivamente experimentado. É na ponte do Eu para o Outro que reside a única saída possível para todos. Solidariedade, empatia e cooperação são partes inextricáveis do caminho a ser trilhado nesses momentos de medo, ansiedade e risco.

Nesse contexto, a insistência de alguns, especialmente se dotados de poder de mando, em continuar operando as ideias e conceitos de grupos de risco e de comportamento de risco, ao invés do de vulnerabilidade, reacende as visões do preconceito e do estigma social e nos coloca a todos no caminho da danação.

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Pensar a vulnerabilidade como fenômeno coletivo tem implicações políticas do mais alto significado e relevância, posto que exige repensar valores e sentidos partilhados, formas de organização do trabalho e da vida, contextos de solidariedade e empatia e modos de partilhar a construção do futuro comum. Ou seja, tudo o que não interessa àqueles que visam, antes e acima de tudo, a manutenção das relações de iniquidade, submissão e exploração do Outro.

O discurso do risco coloniza nossos corpos, subjugando-os às intervenções arbitrárias, política e economicamente interessadas dos poderes do Estado e do capital. Tornamo-nos (os dos ditos grupos de risco), portadores da ameaça ao conjunto dos sãos e inatingíveis.

A classificação dos sujeitos em grupos de risco, instituindo a diferença entre uns e outros no interior do corpo social, favorece e atende aos propósitos da culpabilização das minorias ou dos corpos estigmatizados, em atenção às astúcias da biopolítica discriminatória, que tal discurso arma e nutre. Ao receber a pecha da portabilidade do risco ao coletivo, o sujeito estigmatizado é transposto do seu status de vítima para o de ameaça, passando a alvo de toda ansiedade social. A socióloga Deborah Lupton[2] é incisiva ao afirmar que o conceito de grupo de risco contribui para a produção de determinadas racionalidades, estratégias e subjetividades, sendo central na regulação de indivíduos, grupos sociais e instituições.

No triste momento que atravessa a nação, a narrativa que se tenta construir é a de que as crianças e os jovens são inquebrantáveis pelo coronavírus e que sua saúde é totalmente refratária aos reais riscos da sua morbidade e eventual letalidade. Sem dúvida que corpos juvenis são mais saudáveis e mais rapidamente autoreparadores. Isso faz parte do mistério da vida e de toda sua beleza. Porém, tal fato não minimiza, em nada, o seu papel transmissor e disseminador do vírus por todo o tecido social. Jovens estudam, trabalham, comem, vivem e se divertem em conjunto com pessoas mais idosas, sejam elas pais, avós, professores, instrutores, prestadores de serviços, chefes e supervisores. É a cadeia lógica da vida e da existência, onde o convívio entre gerações favorece e estimula a troca de saberes, fazeres, afetos e esperanças.

Ainda que não sucumba diretamente à nocividade do vírus, o jovem pode vir a ser o seu portador e o transmissor da sua letalidade para outras pessoas, que pelas mais diversas condições pessoais ou sociais, se encontre momentaneamente menos resistente ou debilitado. Todos e cada um de nós pode vir a se encontrar nessa situação. Não somos ilhas; somos coletivos inter-relacionados.

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Ao contrapor equivocada e maliciosamente saúde e economia, o mandatário procura confundir a opinião pública amedrontada e ansiosa, como se houvesse, de fato, oportunidade para essa impossível escolha. Pois, não há!

A luta é pela sobrevivência do coletivo social e não apenas para os que são pensados como os mais úteis e aptos aos interesses e ao trabalho para o incansável e insone capital. O que agora ocorre é mais um absurdo equívoco.

Nunca será ocioso lembrar que, no Brasil, os indivíduos com 65 anos ou mais já representam, segundo o IBGE, mais de 10% do total da população, somando mais de 22 milhões de pessoas. São esses idosos que respondem, com suas aposentadorias, pela maior ou pela única fonte de renda e sustentação econômica de 5,7 milhões de lares brasileiros. Com o recente agravamento da crise econômica e com a crescente precarização das relações entre o capital e o trabalho, é o rendimento dos idosos aposentados que garante a sobrevivência de mais de 12 milhões de pessoas. Além disso, mesmo aposentada, grande parte dos idosos tem se mantido profissionalmente ativa, submetendo-se, inclusive, a trabalhos e relações aviltantes para seguir contribuindo com a sobrevivência não apenas de si próprios, mas de suas famílias, inclusive dos membros mais jovens.

Sim! Os idosos tornaram-se os novos arrimos de família no Brasil! Quem ousa, pois, pensá-los como improdutivos, dispensáveis, estorvos para o andamento da carruagem econômica.

Sob todos e quaisquer aspectos, sejam eles sociais, econômicos ou morais, é melhor pensar muito bem antes de condená-los ao extermínio viral!

A saúde é o nosso maior bem. Cuidados e viva longa a todes! Fiquemos bem uns com os outros e uns pelos outros.

[1] Doutor em Ciências da Comunicação (ECA/USP), com pós-doutorado e mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM/SP). Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP). Pós-graduado em Desenvolvimento Rural e Abastecimento Alimentar Urbano (FAO/PNUD/CEPAL/IPARDES) e em Organização Popular do Abastecimento Alimentar Urbano (FEA/USP). Pesquisador e consultor de empresas em Inteligência de Mercado, Estudos do Consumo, Tendências de Mercado e Marketing. Sócio-proprietário da Junqueira e Peetz Consultoria e Inteligência de Mercado.

 

[2] LUPTON, Deborah (Ed.). Risk and sociocultural theory: new directions and perspectives. Cambridge: University Press, 1999.

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