Torre de Marfim ou Rede de Ódio, por Fernando Nogueira da Costa

O intelectual público tem de aprender a depurar os incentivos e a má-fé. Só então conseguirá sair de sua Torre de Marfim e enfrentar a postura anticientífica de redes de ódio.

Torre de Marfim ou Rede de Ódio

por Fernando Nogueira da Costa

A expressão Torre de Marfim designa um mundo acadêmico à parte, onde intelectuais se envolvem em questionamentos desvinculados das preocupações práticas do dia-a-dia. Nele, há uma desvinculação pessoal deliberada do mundo cotidiano.

Muitos academicistas puristas fazem pesquisas esotéricas, superespecializadas ou mesmo inúteis sem as submeter à crítica pública. O elitismo acadêmico manifesta um desdém ilimitado por mundanos. Desprezam o debate público ou a massa ignorante. O pouco caso, a atitude de sobranceria é um comportamento defensivo com vista ao distanciamento ou à indiferença quanto ao mundo real fora do campus universitário.

Curiosamente, na tradição judaico/cristã, a expressão Torre de Marfim é um símbolo de nobre pureza. Originou-se no Cântico dos Cânticos (7:4): “seu pescoço é como uma Torre de Marfim” – sustentando uma cabeça… A imagem é bíblica. Hoje, Torre de Marfim descreve um espaço metafísico de solidão e santidade, desvinculado das realidades cotidianas, onde certos escritores idealistas sonham e cientistas pesquisam.

Jean Tirole, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2014, por análise do poder e regulação de mercado, no livro Economia do bem comum (1ª.ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2020), afirma: “a Economia tem como objetivo ir além das aparências. Ela é uma lente capaz de modelar o olhar lançado sobre o mundo e nos permite olhar além do espelho.”

O envolvimento político do professor/pesquisador se exprime na interação com os setores público e privado, além da participação no debate público, midiático ou político. As instituições de Ensino nem sempre são capazes de limitar o risco de o dinheiro, o desejo de amizades fora do seu circuito e a ânsia de reconhecimento (ou ser celebridade) alterarem o comportamento do estudioso dentro e fora da Universidade.

A motivação intrínseca – o prazer inigualável da descoberta – desempenha um papel central na atividade de pesquisa. Ocorre quando a massa de dados e fatos, antes, era apenas complexidade e, de repente, se torna simplicidade clarividente. Logo, qualquer professor ou pesquisador obtém felicidade ao transmitir seus novos conhecimentos.

Há também motivações extrínsecas em seu desejo de reconhecimento por seus pares e pela sociedade, promoção, poder ou aspirações financeiras. Elas podem se multiplicar em remunerações dos setores público e privado, respeito por amizades fora do mundo acadêmico, busca de atenção da mídia ou desejo de influência política.

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Um pesquisador pode desenvolver sua teoria por orgulho, ganância ou rivalidade com colega, mas para o resultado final ser o avanço da Ciência é necessária sua validação por meio de um processo aberto de crítica. Se as intervenções da mídia são amplamente divulgadas em comentários, blogs e outras mídias, elas são ignoradas pelos colegas.

Esses optam por ser avaliadores “clandestinos” ou “anônimos”, supostamente dedicados em dar seu parecer “neutro ou científico” na avaliação da pesquisa de seus rivais. Na realidade, não contribuem para o bem comum. Deixam de pensar com profundidade suficiente sobre a qualidade, a originalidade e a relevância da contribuição. Simplesmente, porque o autor pertence a outra corrente de pensamento!

Uma possível reação de jovens pesquisadores é recair ainda mais no negócio principal do pesquisador-professor. No entanto, essa abordagem da Torre de Marfim não pode ser adotada no nível da comunidade científica como um todo. Os maduros vão à luta!

O país precisa de especialistas independentes para participar da vida pública e alimentar debates nos órgãos de tomada de decisão e na mídia, embora alguns pesquisadores não tenham aptidão para isso. O confronto com a realidade contribui para desenvolver objetos de pesquisa originais, ignorados pelos optantes pela Torre de Marfim.

O dever do cientista é promover o conhecimento e tornar o mundo um lugar melhor. Assim, o cientista deve alcançar um equilíbrio entre humildade e determinação, ambas necessárias, convencendo seu interlocutor tanto da utilidade do conhecimento adquirido quanto de seus limites. Isto nem sempre é fácil, porque as certezas são mais facilmente comunicadas e geralmente parecem mais credíveis.

Evidentemente, essas atividades externas podem reduzir o tempo gasto nas missões primárias: pesquisa e ensino. Pior é o risco de “corrupção” da atividade científica ou de “captura” do pesquisador pela participação midiática. Significa ele curvar seu discurso e ser complacente para angariar aplausos fáceis – e dinheiro.

Ver o nome e o rosto aparecer nos jornais ou na televisão lisonjeia o ego. Infelizmente, na “grande” mídia brasileira, o acesso dos leitores/telespectadores à perícia se limita a à elite ideologicamente próxima aos círculos dos editores ou donos dos canais. Não há um debate plural para diversos especialistas se manifestarem e o público se (in)formar. Apenas alguns poucos economistas estão regularmente na mídia: são “os midiáticos”.

A mídia não constitui um habitat natural para um cientista, porque sua característica é a dúvida. Sua pesquisa se alimenta de suas incertezas. O papel de um pesquisador é criar conhecimento ao questionar ideia preconcebida. Ao atuar politicamente em favor de determinada causa, o intelectual corre o risco de perder sua liberdade de pensamento.

O raciocínio científico não é adequado ao formato mais usual de debates audiovisuais curtos e apressados. Slogans, frases de efeito e clichês são mais fáceis de transmitir em lugar de raciocínios complexos sobre causas e efeitos múltiplos e simultâneos. Mesmo argumentos fracos são difíceis de refutar sem uma longa demonstração professoral.

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Para ser eficaz, muitas vezes o midiático faz como os políticos: transmite uma mensagem simplória. O economista, ao expressar mensagem política, é rapidamente catalogado: “esquerda”, “direita”, “keynesiano”, “neoclássico”, “neoliberal”, “anti-liberal”, etc. Apesar de toda leviandade do rótulo, dá credibilidade ou desacredita seu discurso junto a segmentos de ouvintes. Com frequência, o público esquece a substância do argumento para julgar a conclusão com base em suas convicções políticas, de maneira favorável ou desfavorável, ao perceber o cientista como um dos seus ou parte do campo oposto.

Tomemos como exemplos dessas considerações os 54 comentários públicos sobre o debate promovido pelo Luís Nassif na TV GGN, há três dias, sobre “a ajuda do Banco Central ao sistema financeiro nacional”. É uma amostra com viés no YouTube: embora a gravação tenha recebido 11.391 visualizações, com 1,7 mil likes e 39 deslikes, neles parecem predominar “discursos de ódio”. Há também cumprimentos favoráveis.

Entre esses: “Que aula! Obrigado por me proporcionar esse conhecimento. Sou um jovem da periferia do Rio de Janeiro e estou evoluindo com seus vídeos. Conhecimento liberta.” Outro: “Excelente conteúdo, Nassif. Muito obrigada a todos participantes”. “Excelente debate, parabéns aos debatedores pela clareza e ao Nassif pela iniciativa”. “Excelente conteúdo. Ajudou a consolidar minhas ideias e projetar minhas expectativas no andar dos acontecimentos. Obrigado a todos”. “Sensacional. Somente feras.” “Que belo programa. Obrigada!” “Excelente.” “Aprendendo muito”. “Debate esclarecedor. Gostei de todos! Hoje entendi perfeitamente a visão da ajuda aos bancos”. “Parabéns pelo grande debate e pela didática usada pelos debatedores. Sou leigo no assunto e deu para entender e aprender muito”.

Embora o debate tenha sido entre Gabriel Muricca Galípolo (Diretor Presidente do Banco Fator), Mônica de Bolle (Instituto Peterson, no Estados Unidos, e ex-professora da PUC-Rio) e este autor, professor do IE-UNICAMP, por ter havido um consenso sobre o que, tecnicamente, não se deve fazer e o que deve fazer, um espectador disse:  “Não houve o contraditório. Isso é péssimo, porque não permite evoluir em direção ao conhecimento”. Ora, a Globo News, Folha, Globo e Estadão não convidam nenhum desses debatedores… Não se estabeleceu contraditório com essa “grande” imprensa?!

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Outro tipo de argumento, para desqualificar os debatedores, é o de “autoridade”. Apelam para uma autoridade reconhecida por ser “youtuber” ou político, por exemplo, Eduardo Moreira ou Ciro Gomes. Obviamente, é um apelo à modéstia das pessoas, ao bom senso de sempre ser possível haver outros com maior conhecimento – o que pode até ser verdade, mas nem sempre é.

O Apelo à Popularidade (ou Prova Social) é recorrente, porém, o fato de a maioria das pessoas leigas acreditar em uma ideia não prova ela ser verdadeira. É apreciada apenas a “autoridade” conhecida por esse lugar-comum, visto como “a verdade”. Isto não prova ele ser mais capaz em relação a debatedores não tão conhecidos na rede social.

Daí muitos comentaristas partem para o Argumento Ad Hominem, isto é, ataque pessoal: desqualificação do interlocutor por juízo apriorístico negativo de suas intenções, no caso, “salvar banqueiros”. Atacam a pessoa, em vez da 
opinião dela, com a intenção de 
desviar a discussão e desacreditar a proposta desse oponente.

Por exemplo: “Que vergonha, Nassif, trazer esses mau carateres [sic] defendendo distribuição do dinheiro público para bancos.” Ou: “Uma vergonha vc trazer estes 3 para defenderem o indefensável.” Ou: “Esse pessoal suavizou demais a pouca vergonha”. Enfim, donos-da-verdade só gostam de quem não questiona suas ideias preconcebidas – e erradas.  Abusam da Culpa por Associação, ou seja, desacreditam uma ideia ao associá-la a algum grupo malvisto em determinadas redes de ódio.

Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Capital e Dívida: Dinâmica do Sistema” (2020; download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected]

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