5 de julho de 2026

Relatório revela R$ 3 bilhões gastos por prefeituras em shows de bandas ligadas a casas de apostas

Diferentemente do que se poderia supor, o gênero predominante entre os mais contratados não é o sertanejo, mas o piseiro, o forró e o brega/arrocha, estilos musicais com forte presença nordestina
Crédito: Reprodução/ TV GGN

Levantamento do De Olho nos Ruralistas mapeou R$ 3 bi em contratos entre 2024 e 2026 para 40 bandas ligadas a casas de apostas.
Prefeituras e governos, principalmente de direita, contrataram artistas com patrocínio de apostas, gerando conflitos entre dinheiro público e jogos.
Contratos são financiados por orçamentos municipais e emendas, com dificuldades de transparência em estados como Acre e casos de alto custo por show.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Um levantamento do site de jornalismo investigativo De Olho nos Ruralistas expôs uma rede de contratos milionários entre prefeituras, governos estaduais e um pequeno grupo de artistas conectados a casas de apostas esportivas. O chamado “Relatório Farras”, apresentado pelo diretor da organização, Alceu Castilho, em entrevista ao programa TVGGN 20 Horas, mapeou mais de 20 mil contratos públicos firmados entre 2024 e o primeiro trimestre de 2026.

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Segundo a apuração, cerca de R$ 3 bilhões foram destinados a apenas 40 bandas, de um universo estimado em 150 mil músicos ativos no país. Metade desses contratos está concentrada em apenas cinco produtoras musicais, entre elas a Tapajós, ligada a Wesley Safadão, e a Vibe, de Xand Avião.

Ao ampliar a análise para o top 100 artistas mais contratados, o valor total sobe para R$ 5 bilhões, com cada um recebendo pelo menos R$ 25 milhões no período.

Diferentemente do que se poderia supor, o gênero predominante entre os mais contratados não é o sertanejo, mas o piseiro, o forró e o brega/arrocha, estilos musicais com forte presença nordestina. O cantor Natanzinho Lima lidera a lista, com R$ 158 milhões recebidos em pouco mais de dois anos e 341 shows realizados desde janeiro de 2024.

Bets

O levantamento identificou um padrão recorrente: muitos dos artistas mais contratados são “embaixadores” de casas de apostas esportivas, enquanto os próprios eventos custeados pelo poder público frequentemente têm patrocínio de bets, em diversos casos, pertencentes ao mesmo grupo econômico dos artistas contratados.

Castilho citou como exemplo o bairro de Afogados, no Recife, onde bancas de jogo do bicho vizinhas deram origem a empresas de apostas “espelho” que hoje patrocinam eventos custeados por prefeituras, configurando, segundo ele, uma sobreposição de conflitos de interesse entre jogo ilegal, apostas online e dinheiro público.

Contratantes

De acordo com o relatório, a maioria das prefeituras e governos que mais contrataram esses artistas é administrada por partidos de direita e extrema direita, com destaque para legendas ligadas ao chamado “centrão”, como União Brasil e PSD. Nos contratos acima de R$ 5 milhões, o União Brasil aparece com folga na liderança entre os contratantes.

Castilho citou o caso do governador fluminense Cláudio Castro (PL), que contratou o cantor Belo, pago em R$ 7 milhões em contratos diretos, para se apresentar em seu aniversário e depois na posse de sua reeleição, além de viabilizar contratos do artista com 15 municípios do estado.

O relatório também aponta uma contradição: artistas que publicamente criticam a Lei Rouanet, mecanismo de incentivo fiscal à cultura, como Eduardo Costa e a dupla Zé Neto e Cristiano, receberam mais de R$ 70 milhões cada diretamente de prefeituras nesse período, sem qualquer exigência de licitação.

Cofres públicos

Segundo Castilho, os contratos são viabilizados por diferentes mecanismos: recursos diretos do orçamento municipal, repasses via emendas parlamentares, muitas vezes vinculadas a parlamentares com laços familiares ou políticos com as próprias prefeituras, e verbas de ministérios como o do Turismo.

Em alguns casos analisados pela equipe, o valor de um único show representou até 3% do orçamento anual total do município, não apenas da pasta de Cultura. Um exemplo citado foi o cantor Zezé Di Camargo, que recebeu cerca de 1,5% do orçamento anual de uma cidade goiana de 1.400 habitantes para se apresentar.

Falta de transparência

O jornalista relatou dificuldades de acesso a informações em diversos estados. Enquanto o Plano Nacional de Contratações Públicas (PNCP) respondeu por 62% dos contratos mapeados entre os 40 artistas mais contratados, os demais 38% precisaram ser obtidos por outras vias, incluindo tribunais de contas, Ministérios Públicos estaduais e portais de transparência regionais, com destaque para iniciativas em estados nordestinos.

Já em unidades como o Acre, a apuração encontrou barreiras praticamente intransponíveis: contratos de shows são operacionalizados por organizações sociais terceirizadas, dificultando o acesso aos valores pagos a artistas, caso do próprio Zezé Di Camargo, contratado para show na Expoacre sem que o valor recebido tenha sido divulgado.

Metodologia

O levantamento foi conduzido ao longo de seis meses por uma equipe de repórteres do De Olho nos Ruralistas, com cruzamento de dados públicos, agendas de shows divulgadas pelos próprios artistas e informações sobre empresas ligadas a casas de apostas. O relatório completo está disponível no site da organização.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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