Um presidente em quarentena política rumo ao isolamento social, por Angelo Del Vecchio e William Nozaki

Jair Bolsonaro encenou um arremedo mal-ajambrado de Donald Trump. Tomou deste a mesma grosseria, mas não teve a fortuna de ostentar o mesmo poder.

REUTERS/Adriano Machado

Um presidente em quarentena política rumo ao isolamento social

por Angelo Del Vecchio e William Nozaki

Nos últimos dias o Brasil experimentou a inação e a inépcia de um presidente da República sem estofo político e repertório científico para liderar o país frente a maior pandemia da nossa época. O pronunciamento de 24/3 expôs um cidadão cujos movimentos e ideias transitam entre os limites da crença mal informada no ultraliberalismo e o delírio fascista, promovendo um atentado contra a saúde e a segurança públicas.

Jair Bolsonaro encenou um arremedo mal-ajambrado de Donald Trump. Tomou deste a mesma grosseria, mas não teve a fortuna de ostentar o mesmo poder. Ao invés de apresentar propostas concretas para o país, optou por atentar contra o bom senso, a população, os entes federados, a grande imprensa e especialistas em saúde pública. A lógica e a linguagem do discurso basearam-se no negacionismo.

Para os desatentos, é bom lembrar que o manejo desses signos do atraso político e cultural já eram canhestramente manejados pelo condômino do baixo clero, que alçou a presidência da República defendendo a ditadura e a tortura, num momento em que o pacto político tinha seus alicerces na democracia e nos direitos humanos.  Construiu longa e inexpressiva carreira ao fazer da afronta à Constituição e ao contrato social profissão. Quando a estabilidade política e o avanço da igualdade eram os produtos e os valores mais nobres da atividade política, dedicou-se a destruí-los.

Surfou como poucos na onda da apropriação antidemocrática do combate à corrupção. Quando esta sufocou a agenda prioritária do desenvolvimento, abrigou-se nas crenças obscuras do ultraliberalismo e daquele conjunto de platitudes demofóbicas que se convencionou chamar de olavismo.

No processo eleitoral de 2018 surgiu cercado de ativistas digitais do olavismo, milicianos, que então trafegavam de rosto exposto a céu aberto, de ricos pastores que bajularam todos os governos anteriores, e de uma parcela da opinião pública marcada pela apatia e pelo desencanto com um governo anterior maculado por erros e crises.

Desde então o que Bolsonaro tem feito é seguir essa mesma toada, governando a serviço da extrema-direita e colocando sua minoria barulhenta contra a maioria silenciosa da população, ameaçando sistematicamente críticos, adversários e as instituições democráticas. Foi nesse ritmo que o presidente deixou de consolidar sua base congressual, descartou aliados de primeira hora, rompeu com seu próprio partido e trouxe o país a uma situação em que o Ministro das Relações Exteriores tem sua atuação monitorada por militares. No gabinete ao lado, o outrora arrogante Ministro da Economia, apresenta-se combalido e desnorteado em meio a uma crise pandêmica com graves consequências econômicas. Mais ainda, o presidente perdeu até mesmo a coesão do apoio das Forças Armadas e tem esgarçado as relações com governadores, prefeitos e parte da grande imprensa.

No entanto, Bolsonaro ainda desfruta do apoio de parte relevante do eleitorado, de parte das polícias estaduais e milícias, de parcela das igrejas neopentecostais, além de alguns empresários que, sem se dar conta das mudanças econômicas que se passam pelo mundo, alimentam a mesma falta de empatia e visão de futuro que o presidente.

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Os inusitados pronunciamentos dos últimos dias se dirigem exclusivamente a essa base orgânica do bolsonarismo. Com esse ato, o presidente demitiu-se de suas responsabilidades perante a pandemia que nos assola o país, e, transferiu o comando dessa guerra aos governadores e prefeitos.

Contudo, não nos deixemos levar pelas aparências. É certo que se o presidente pessoalmente não prima pelo cultivo à ciência e à cultura, é também verdade que suas ações, por mais insólitas que pareçam e sejam, são orientadas pelo cálculo utilitário perverso, voltado, única e exclusivamente, ao acúmulo de poder. Suas atitudes perante a crise sanitária apontam nesse sentido, basta ver a equação trágica que armou nesse contexto.

De acordo com essa lógica, se os entes federativos lograrem êxito no combate ao coronavírus ele poderá validar sua predição de que a pandemia era uma “gripezinha”. Em caso contrário, se os entes federativos não derem conta de conter a propagação do vírus a crise econômica se aprofundará e ele poderá reafirmar que a economia “parou”, como também alertou. Ou seja, o presidente atua ora como um Nero sem harpa e ora como um Pilatos de mãos sujas, pois sua preocupação nunca foi governar o país, mas sim estimular e dirigir sua base proto, ou escancaradamente, fascista. O que o presidente parece não perceber, é que sua atuação como animador de palco do fascismo e do ultraliberalismo é insuficiente para mantê-lo na cadeira presidencial.

Um breve balanço de suas ações nos últimos quatorze meses revela o tensionamento, o progressivo isolamento no jogo político interno, e a projeção internacional do país como agente servil do império americano, e o próprio presidente como bajulador de seu inspirador, Donald Trump.

Prova disso é que as medidas tomadas pelo governo no combate à essa crise bioeconomica estão na contramão do mundo. Nos países centrais, governos das mais diversas colorações ideológicas já compreenderam a gravidade e o ineditismo dessa crise sanitária e suas amplas repercussões. Republicanos e democratas, liberais e conservadores, social-democratas e verdes, socialistas e comunistas, não tem medido esforços para enfrentar a pandemia classificada pela ONU como de proporções “apocalípticas” e descrita pela OMS como de efeitos “catastróficos”. Enquanto norte-americanos falam na necessidade de um Novo Plano Marshall, chineses indicam a importância de uma Nova Concertação Internacional a partir da saúde e europeus se organizam para enfrentar uma Economia de Guerra contra um inimigo invisível.

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Nos EUA, Donald Trump consolidou um pacote de US$ 2 trilhões e pretende garantir US$ 1200 a cada adulto e US$ 500 a cada criança, para que possam atravessar a pandemia com uma renda básica emergencial. Na Inglaterra, Boris Johnson anunciou um pacote de € 350 bilhões para as empresas, equivalente a 15% do PIB do país, e deve garantir até 80% do salário dos trabalhadores da iniciativa privada.

A Alemanha e a Espanha anunciaram pacotes de € 750 bilhões e € 200 bilhões, respectivamente, o que, no caso espanhol, representa 20% do PIB.

Na França, o governo suspendeu o pagamento das contas de água, luz, gás e aluguéis, além de congelar reformas como a previdenciária. Na Itália, o mote do governo é que nenhuma pessoa perca o emprego durante a crise. Os dois países cogitam estatizar empresas de setores estratégicos impactadas pela crise. A Argentina estuda pagar $ 800 para os trabalhadores na informalidade e os autônomos. Na Irlanda e nos países escandinavos está em curso a estatização do sistema hospitalar. Todos esses países tem defendido e praticado a quarentena, o isolamento social e a ampliação dos testes de coronavírus em pacientes suspeitos.

Mas, no Brasil, Bolsonaro sinaliza ações no sentido oposto ao das políticas econômicas e de saúde adotadas no resto do mundo. O governo brasileiro segue moroso e errático, insistentemente apegado ao dogma da austeridade fiscal, as insuficientes ajudas governamentais operam mais na chave do remanejamento de recursos dos fundos de seguridade do trabalhador do que na injeção de recursos novos na economia.  Movimentos que demonstram preocupação desproporcional em salvaguardar parte do setor empresarial, mas negligenciam o fato de que as empresas dependem do mercado de trabalho e de consumo para continuarem funcionando.

Exatamente por isso os últimos pronunciamentos e declarações causam consternação em amplos setores da sociedade; partidos, parlamentares, cientistas, pesquisadores, intelectuais, artistas, empresários, trabalhadores, militares, policiais, jornais e revistas, organizações da sociedade civil em geral e parte da opinião pública, da esquerda à direita, reagiram com indignação.

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Se alguma sustentação mais sólida ainda lhe restasse, a performance presidencial dos últimos dias ofereceu a Bolsonaro tal grau de isolamento, que sua saída do cargo se tornou item de importância na agenda política.

Salvo o efeito de alguma mudança espetacular, desenha-se aos poucos o roteiro do afastamento de desventurado presidente, hoje destituído das condições de governar. Se problemas lhe faltassem, as mudanças sociais que a pandemia acarretará, em escala nacional e mundial, já cuidariam de fazer justiça a seu despreparo para a missão.

Considerados o grave contexto de uma crise que se estende a praticamente todas as dimensões da vida social, a conduta pregressa desse ator político, e a avassaladora perda de crédito e poder por que passa, uma avaliação realista indica que o percurso não será fácil e tampouco isento de graves riscos. Importa, sobretudo, que, nessa transição que se anuncia, a agenda política mantenha rumo firme em direção à democracia.

Como sempre, o caminho democrático impõe certos requisitos. O mais evidente deles se refere ao fato, que é visível a olho nu, de que não há hoje entre nós uma força política que seja capaz de conduzir esse processo em voo solo. Por isso, a experiência histórica recomenda que todos aqueles que zelam pela democracia se preparem para conviver, independente das trincheiras em que cada qual lutou nos últimos anos. Em síntese: urge a construção de uma frente democrática.

Aos grupamentos progressistas cabe representar e atender os interesses dos milhões de trabalhadores e desvalidos do país. Será dessa perspectiva que elas travarão o diálogo e a disputa legítima no interior da frente que se pretende construir. Por esse ângulo, elas terão também que sintonizar seu pensamento e sua ação com as necessidades e as possibilidades do momento. Será assim, ou serão ignoradas, relegadas à condição de espectadoras da luta política e da história que se faz ao seu alcance, mas sem sua intervenção criadora.

Angelo Del Vecchio – Cientista social e livre-docente em Administração Pública.

William Nozaki – Cientista social e docente nas áreas de Ciência Política e Desenvolvimento Econômico.

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