O acordo das elites rasga a Constituição de 1988, por Rui Daher

O acordo das elites rasga a Constituição de 1988

por Rui Daher

em CartaCapital

Me pediram pra deixar de lado toda a tristeza, pra só trazer alegrias e não falar de pobreza. E mais, prometeram que se eu cantasse feliz, agradava com certeza. Eu que não posso enganar, misturo tudo o que vivo. Canto sem competidor, partindo da natureza do lugar onde nasci. Faço versos com clareza, à rima, belo e tristeza. Não separo dor de amor. Deixo claro que a firmeza do meu canto vem da certeza que tenho, de que o poder que cresce sobre a pobreza e faz dos fracos riqueza, foi que me fez cantador. (Geraldo Vandré, “Terra Plana”, em Canto Geral, 1968).

Curiosas as datas libertadoras na História do Brasil. Não perceberam? Em 1788, foram enforcados os Revoltados dos Pintos, conjuração em Goa. O que estariam a querer? A abolição da escravatura e a instituição da Previdência Social ocorreram, em 1888. A Constituição mais libertária, embora hoje estropiada, é de 1988. Será que teremos que esperar até 2088 pela concertação de um País mais justo? Não verei, como acontecerá com muitos de vocês.

Na Constituição de 1988, recentemente rasgada pelo acordo secular de elites ao perder uma eleição presidencial, foi instituída a aposentadoria por idade aos trabalhadores rurais homens que completarem 60 anos e 55 anos para mulheres. Cinco anos a menos do que para os trabalhadores urbanos, por motivos vários, geralmente, desconhecidos dos cronistas de asfalto. Querem mudar. É muita moleza.

Vamos lá, estimados. Os jeans, mesmo que novinhos e de grife, podem usar. Necessário, porém, desvestir a camisa-polo com distintivo de 15 cm do Middlesborough inglês, o chapéu-panamá meio Fasano Rio à beira da piscina e, aí desculpo-me com pesar, mas o mocassim Salvatore Ferragamo não dá.

Algum desconforto? Não tem jeito. Se verão, camiseta lisa ou brinde de alguma empresa de tratores ou insumos agrícolas; se inverno, uma camisa de flanela agasalha bem, até alguns robalos se alguém a eles for chegado. Boné, meu querido, boné. Pode ter publicidade. E botinas, sem dúvida, botinas.

Preparado? Geraldo Amaro da Silva nos espera.

– Como? Sair depois do café-da-manhã, às oito horas da manhã? Tá louco? Nesta hora o Geraldinho estará almoçando sentado entre dois pés de café, e o espetáculo não será completo. Para começarmos juntos com ele precisamos estar lá às quatro e meia da manhã.

– Madrugada.

– Só se for pra você, considerando o horário em que sai das baladas. Para Geraldinho não importa a hora em que “a fábrica de tecidos apita … e o gerente é bravo”. Corre quem sabe a gente ainda pega um leitinho quente, fresquinho, recém-saído das tetas vaqueiras.

– Pasteurizado?

– Como? Talvez ‘pastelizado’. Quem sabe a Luzia pode fritá-los? Vamos, vamos, vista direito essa bota. Não vá tropeçar.

Claro que atrasamos. O leite já estava nos latões metálicos. O caminhão faz a recolha antes das seis.  Vendo o sofrimento de meu amigo, Luzia traz uma caneca de café adocicado e um naco de bolo de fubá. A expressão de meu amigo começa a mudar de extermínio para sobrevivência. Vendo um pote de mel puro, pede uma colherada. Recebe três.

– Vamos pro cafezal, pessoal. Vamos começar a arruação. Eu e meus dois irmãos. Vamos. Vocês podem ajudar. É fácil.

– Leva o menino com você, Geraldo. Vou à missa, o padre só passa uma vez por mês.

– Tá bom, Luzia. Aqui todos têm que aprender cedo. Mas ele não tem aula hoje?

– Não. Quando vem o padre a professora não vem.

Olho para o meu amigo e digo: “Laicismo, viu”? Ele dá mais uma colherada no mel.

A arruação durou cerca de três horas até chegar o rango do almoço. Calor infernal, os galhos de café libertados do “sarpeche” que engolfava os galhos dos pés de café, já na fase de enchimento de grãos. ‘Malmita’ das boas: arroz, feijão, chuchu e frango caipira ensopado. Água pegávamos na bica.

Na arruação fomos até o entardecer. O amigo não se queixava. Daqueles altos mineiros, com aquele horizonte não paulistano, podia se deslumbrar com um céu de encantos multicoloridos.

Descemos, dividindo goles de uma garrafa térmica que o folgado Carlos Vitor tinha ido buscar, morro abaixo, subida fatigante para o gordinho.

– Qual é a de vocês agora, nos pergunta Geraldo enquanto banhamos fatias de queijo fresco em canecas de café.

– Banho, cachaça e um bilhar na vendinha, ou hotel?

Adalberto Steiner foi claro:

– Hotel pra quê? Uma Brahma ou Skol do frigobar? É longe a vendinha?

– Que nada. Logo ali. Pertim.

Foram 14 horas de lida agrícola que se repetiriam, dia a dia, ano a ano. Geraldo cuida de vidas, e não pode abandoná-las ao apito da fábrica ou de Deus.

– Geraldinho, você recebe aposentadoria rural?

– Qué isso? Tô novo, chegando aos 60.Me pediram pra deixar de lado toda a tristeza, pra só trazer alegrias e não falar de pobreza. E mais, prometeram que se eu cantasse feliz, agradava com certeza. Eu que não posso enganar, misturo tudo o que vivo. Canto sem competidor, partindo da natureza do lugar onde nasci. Faço versos com clareza, à rima, belo e tristeza. Não separo dor de amor. Deixo claro que a firmeza do meu canto vem da certeza que tenho, de que o poder que cresce sobre a pobreza e faz dos fracos riqueza, foi que me fez cantador. (Geraldo Vandré, “Terra Plana”, em Canto Geral, 1968).

Curiosas as datas libertadoras na História do Brasil. Não perceberam? Em 1788, foram enforcados os Revoltados dos Pintos, conjuração em Goa. O que estariam a querer? A abolição da escravatura e a instituição da Previdência Social ocorreram, em 1888. A Constituição mais libertária, embora hoje estropiada, é de 1988. Será que teremos que esperar até 2088 pela concertação de um País mais justo? Não verei, como acontecerá com muitos de vocês.

Na Constituição de 1988, recentemente rasgada pelo acordo secular de elites ao perder uma eleição presidencial, foi instituída a aposentadoria por idade aos trabalhadores rurais homens que completarem 60 anos e 55 anos para mulheres. Cinco anos a menos do que para os trabalhadores urbanos, por motivos vários, geralmente, desconhecidos dos cronistas de asfalto. Querem mudar. É muita moleza.

Vamos lá, estimados. Os jeans, mesmo que novinhos e de grife, podem usar. Necessário, porém, desvestir a camisa-polo com distintivo de 15 cm do Middlesborough inglês, o chapéu-panamá meio Fasano Rio à beira da piscina e, aí desculpo-me com pesar, mas o mocassim Salvatore Ferragamo não dá.

Algum desconforto? Não tem jeito. Se verão, camiseta lisa ou brinde de alguma empresa de tratores ou insumos agrícolas; se inverno, uma camisa de flanela agasalha bem, até alguns robalos se alguém a eles for chegado. Boné, meu querido, boné. Pode ter publicidade. E botinas, sem dúvida, botinas.

Preparado? Geraldo Amaro da Silva nos espera.

– Como? Sair depois do café-da-manhã, às oito horas da manhã? Tá louco? Nesta hora o Geraldinho estará almoçando sentado entre dois pés de café, e o espetáculo não será completo. Para começarmos juntos com ele precisamos estar lá às quatro e meia da manhã.

– Madrugada.

– Só se for pra você, considerando o horário em que sai das baladas. Para Geraldinho não importa a hora em que “a fábrica de tecidos apita … e o gerente é bravo”. Corre quem sabe a gente ainda pega um leitinho quente, fresquinho, recém-saído das tetas vaqueiras.

– Pasteurizado?

– Como? Talvez ‘pastelizado’. Quem sabe a Luzia pode fritá-los? Vamos, vamos, vista direito essa bota. Não vá tropeçar.

Claro que atrasamos. O leite já estava nos latões metálicos. O caminhão faz a recolha antes das seis.  Vendo o sofrimento de meu amigo, Luzia traz uma caneca de café adocicado e um naco de bolo de fubá. A expressão de meu amigo começa a mudar de extermínio para sobrevivência. Vendo um pote de mel puro, pede uma colherada. Recebe três.

– Vamos pro cafezal, pessoal. Vamos começar a arruação. Eu e meus dois irmãos. Vamos. Vocês podem ajudar. É fácil.

– Leva o menino com você, Geraldo. Vou à missa, o padre só passa uma vez por mês.

– Tá bom, Luzia. Aqui todos têm que aprender cedo. Mas ele não tem aula hoje?

– Não. Quando vem o padre a professora não vem.

Olho para o meu amigo e digo: “Laicismo, viu”? Ele dá mais uma colherada no mel.

A arruação durou cerca de três horas até chegar o rango do almoço. Calor infernal, os galhos de café libertados do “sarpeche” que engolfava os galhos dos pés de café, já na fase de enchimento de grãos. ‘Malmita’ das boas: arroz, feijão, chuchu e frango caipira ensopado. Água pegávamos na bica.

Na arruação fomos até o entardecer. O amigo não se queixava. Daqueles altos mineiros, com aquele horizonte não paulistano, podia se deslumbrar com um céu de encantos multicoloridos.

Descemos, dividindo goles de uma garrafa térmica que o folgado Carlos Vitor tinha ido buscar, morro abaixo, subida fatigante para o gordinho.

– Qual é a de vocês agora, nos pergunta Geraldo enquanto banhamos fatias de queijo fresco em canecas de café.

– Banho, cachaça e um bilhar na vendinha, ou hotel?

Adalberto Steiner foi claro:

– Hotel pra quê? Uma Brahma ou Skol do frigobar? É longe a vendinha?

– Que nada. Logo ali. Pertim.

Foram 14 horas de lida agrícola que se repetiriam, dia a dia, ano a ano. Geraldo cuida de vidas, e não pode abandoná-las ao apito da fábrica ou de Deus.

– Geraldinho, você recebe aposentadoria rural?

– Qué isso? Tô novo, chegando aos 60.

2 Comentários

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Rui Daher

- 2016-12-22 11:08:41

Meire,

esses, os que mais benefícios deveriam ter, são aqueles que cada vez mais os perdem. Decisões assim são de criminosos. Abraços.

Meire

- 2016-12-21 20:03:14

Geraldinho trabalha e outros

Geraldinho trabalha e outros que nunca pegaram numa enxada e nem produziram nada em benefício de todos, ficam com o dinheiro, que somente do trabalho e vida honesta deveria ser recompensa. 

Pegar na enxada: ( literal e simbolicamente uma referência da vida prática de quem trabalha)

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