De Santiago, Chile

Jornal GGN – Os chilenos acordaram no dia 19 de outubro com medo. Medo de que a história os enganaria para retomar aqueles tempos escuros da repressão. Foi esta, inclusive, uma das frases usadas nas ruas e nas redes: “Às 22h, ajustem seus relógios para 1973”. Às 22h era o início do toque de recolher decretado em um Chile em Estado de Exceção. Porque apesar de que os protestos, que tiveram início nesta segunda-feira (14), reivindicassem o aumento das passagens do metrô, a resposta violenta do governo provocou um levante popular contra o modelo neoliberal implementado na ditadura Pinochet e que hoje, 40 anos depois, põe em cheque o que chamam de “custo da vida” no Chile.

Porque viver no país latino-americano que criou a neoliberalização de todos os pilares sociais e públicos na região é caro e exige um endividamento obrigatório da população para estudar, cuidar da saúde e até mesmo comer. Soma-se a isso representativos 16% da sociedade que em tese se aposentaram, mas não conseguem se manter com os recursos de um sistema capitalizado que lhes prometeu uma velhice digna. E agora, pela segunda vez neste ano, um aumento do preço do principal meio de transporte da capital, Santiago, a um valor que para um cidadão, mensalmente, significará 13,8% do salário mínimo do país.

As manifestações contra o aumento das passagens foram iniciadas pelos estudantes ao longo de toda a semana, sem qualquer gesto do governo de que pudesse ceder a um diálogo. Na sexta (18), após 5 dias de protestos, a empresa Transantiago decidiu fechar algumas estações de metrô para impedir que os estudantes e já boa parte da população adepta seguissem mais uma jornada de “evasões massivas”, que são os atos de saltar as catracas. É o custo caro de viver que estava sendo reivindicado.

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Naquele mesmo dia, todas as estações estavam fechadas antes de anoitecer, a polícia reagia com brutalidade e, sem equiparação de forças, recebeu ordens para iniciar um conflito social, com bombas de efeito moral, gás lacrimogênio dentro dos trens com pessoas, balas de borracha a quem ousasse manter as manifestações.

Os vídeos com a truculência desmedida da polícia circularam pelas redes sociais e a resposta das ruas foi ainda mais forte, dando início a duras reações, com barricadas, focos de incêndio e alguns ônibus foram queimados.

protestas en chile
Foto: Getty Image
Hoguera y protesta en Valparaíso, Chile
Foto: AFP

Cenário suficiente para os noticiários transformarem as reivindicações populares em vandalismo e o presidente da República, Sebastián Piñera, ter que abandonar um jantar tranquilo em uma pizzaria em bairro nobre da cidade para vir a público, no início da madrugada, anunciar o Estado de Emergência, uma das medidas de Estado de Exceção herdada da Constituição de Augusto Pinochet. Piñera não especificou naquele momento quais mudanças seriam adotadas no dia seguinte, mas os chilenos sabiam que, entre outras medidas, a Emergência restringia o livre direito de locomoção e reunião.

Trata-se de uma versão da ex-“Lei Maldita”, a que proibiu reuniões políticas e principalmente a participação do Partido Comunista do Chile, em 1948. A reação do governo federal surpreendeu a população, que levantou sem saber o que esperar, com medo da repressão e com novas ânsias de reivindicar, desta vez contra todo o sistema que não sustenta condições mínimas de garantias públicas e indignados com o Estado de Exceção decretado pelo presidente, visivelmente enfraquecido e, aos olhos dos manifestantes, incapaz de lidar com demandas e protestos sociais.

“O preço da passagem foi a gota que transbordou o copo. Estamos lutando por salários dignos, saúde de qualidade, que não aumentem os serviços de abastecimento, que não nos tirem nossas economias, que não manipulem os anos de trabalho dos nossos pais e avós”, disse Francisca Pino, uma das jovens manifestantes entre centenas nos dois principais focos de protestos, Plaza Italia e Plaza Ñuñoa, na tarde de ontem.

Para a aposentada Adelina, “não é só a passagem, é a nossa velhice que está em jogo, são as AFPs [sistema capitalizado de previdência], o aumento das contas, da luz dependente da dolarização, são tantas coisas”. “As lutas começaram pelo preço das passagens, mas agrandaram pela repressão. A luta contra a repressão é uma das consignas mais sentidas pelos estudantes e pela juventude, porque revisa a memória dos nossos pais e nossos avós na luta contra a ditadura. Por isso é uma juventude que não se deixa reprimir”, resumiu o manifestante Mário Olguin.

“O detonante das manifestações foi um novo aumento do transporte público na capital, que desembocou em um protesto simbólico de evasão das passagens como forma de luta. Entretanto, ao trazer à tona o sentimento de injustiça dos chilenos, começou uma revolta social popular contra todos os abusos constantes, tanto dos políticos, como dos empresários, num país onde há muitos anos os problemas estavam visíveis, mas nunca se tomaram medidas em defesa das pessoas, nem puniram os abusadores da mesma forma como são castigados os pobres”, explicou a jovem Florencia Anconetani.

Ainda na madrugada, antes de aparecer a luz do dia, o chefe da Defesa designado por Piñera para tomar o comando de todas as forças de segurança de Santiago, Javier Iturriaga, dava os ordens para a polícia, forças armadas e forças especiais, todas a postos para atuar contra as manifestações que seguiriam. Como planejado, o saldo deste sábado não poderia ser celebrado pelo governo: pelo menos 3 mortos e mais de 700 presos em apenas um dia de manifestações. Os feridos ainda são incontáveis.

As vozes de Santiago se fizeram escutar em outras regiões do país, que aderiram aos protestos, em cidades que não tem metrô, mas que o povo assumiu a luta contra o Estado de Emergência, a truculência da polícia e o engessamento do governo Piñera, sem abertura ao diálogo. Até o fim do dia, a resposta do presidente foi de ampliar o toque de recolher para outras duas regiões do Chile, disseminando o medo no país. Na manhã deste domingo (20), divulgando o balanço dos presos, o ministro do Interior, Andrés Chadwick, aproveitou o espaço tradicionalmente ocupado pelos matinais para lamentar a imagem do país aos olhos do mundo, referindo-se ao “vandalismo” como o responsável pelo cenário que amanheceu o Chile hoje.

Ao anunciar temporariamente a suspensão do aumento das passagens do metrô, o presidente da República voltou a atacar os “vândalos” na tarde de hoje e disse ser justificável o uso de “todos os instrumentos necessários” para “defender a democracia”, ao se referir às Forças de Segurança Nacional.

 

 

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7 comentários

  1. Ou terão semelhança com junho de 2014 no Brasil?
    Primaveras que “avançam de volta ao inverno” podem ser estranhas.
    Mas tem acontecido…
    Espero que não.

  2. Equador, Chile e que Deus não permita…
    ou tomara que os argentinos consigam cortar a cabeça do monstro da carestia, porque o encarecimento do custo de vida parece ser algo planejado para se espalhar por toda a América Latina

  3. O neoliberalismo só funciona se imposto com a força do totalitarismo.
    Para combatê-lo só existe uma solução: guilhotina. 1.000 execuções; 10.000, 100.000, 1.000.000. 10.000.000 se necessário… Tem que faze uma limpa porque essa gente não tem nenhum apreço pela vida humana. Com essa gente não existe diálogo possível, então, antes eles do que nós…

    Para

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    2
  4. Varias vezes tenho lido nos sites de noticias a expressão “pôr em xeque” escrita errado.
    Espero que o Chile tenha mais sucesso em suas reinvidicações, que o Brasil teve, e não acabe em mãos de um governo autoritario ou nas mãos de oportunistas.

  5. Ajustei , mas não encontrei o Salvador Allende e nem o Pinochet. Vamos com calma pessoal.Consideremos que o Chile é uma democracia de fato e de direito. Se o governo chileno cair será bom para o povo?

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