Apesar da “onda verde”, campanhas argentinas priorizam economia em vez de pautas feministas, por Victor Farinelli

Desde a campanha para as eleições primárias, movimentos como o Ni Uma Menos e a Campanha pelo Direito ao Aborto, entre outras entidades feministas, defendem a “Campanha Feminista”, cujo slogan é “lutamos para votar, agora lutaremos por eleger”.

Foto Brasil de Fato

Apesar da “onda verde”, campanhas argentinas priorizam economia em vez de pautas feministas

por Victor Farinelli

Especial para o Jornal GGN, de Buenos Aires

No último dia 13 de outubro, duas semanas antes do primeiro turno das eleições presidenciais, as mulheres argentinas mostraram mais uma vez a força desse movimento social. Reuniram cerca de 200 mil ativistas na cidade de La Plata, capital da Província de Buenos Aires, no encerramento do 34º Encontro Nacional de Mulheres.

O mar de lenços verdes (símbolo da luta pelo aborto livre) e as consignas do movimento Ni Una Menos (contra os feminicídios) e da campanha pela legalização do aborto marcaram a marcha que finalizou o evento, e reforçaram a massividade deste movimento que reúne mulheres de diferentes gerações, e que neste ano, em sua última resolução, decidiu mudar o nome do evento, para ser mais inclusivo – o encontro número 35, que acontecerá na cidade de San Luis, na zona centro-oeste do país, se chamará Encontro Plurinacional de Mulheres Lésbicas, Travestis, Trans, Bissexuais e Não Binaries.

Com todo esse apelo e essa influência sobre uma parte tão importante do eleitorado, se pode dizer que a onda feminista é um dos pontos centrais das eleições deste domingo 27 de outubro? A resposta para essa pergunta é: sim… e não!

Nenhuma candidatura deixou o tema de lado, e todas apresentaram suas propostas para tentar capturar parte desse eleitorado gigantesco, mas a verdade é que somente uma (a da Frente de Esquerda) deu maior prioridade a esse tema. Os problemas econômicos gerados pelo governo de Mauricio Macri, especialmente desde abril de 2018, o aumento nos índices de pobreza e indigência, da inflação e do desemprego, fizeram com que esses fatores fossem os mais abordados pelas principais candidaturas e também pelos principais meios de imprensa do país.

Tanto é assim que das seis candidaturas presidenciais, todas lideradas por homens (apenas três são acompanhas por uma mulher como vice), duas são de economistas: o ultraliberal José Luis Espert e o ex-ministro da Fazenda de Néstor Kirchner, Roberto Lavagna. Todos, inclusive os não economistas, enfocaram suas propostas em criação de emprego, reativação da economia e distribuição de renda, deixando em segundo plano os temas ligados aos direitos das mulheres.

Entre os dois candidatos favoritos, o que chamou mais a atenção em declarações sobre a as reivindicações feministas foi Alberto Fernández, que não teve medo em tocar em um tema sempre delicado em meio a uma campanha, como é o aborto, e o fez em meio a um debate presidencial, em rede nacional de televisão: “temos que mostrar que somos uma sociedade madura e capaz de debater esse tema, o aborto é um problema que existe e há mulheres pobres que morrem em abortos clandestinos, enquanto as que têm dinheiro podem fazê-lo em clínicas privadas e em segredo. Temos que superar também essa hipocrisia”.

Apesar dessa declaração dar a entender uma convicção, Fernández não fez uma afirmação clara de que apoiará a Lei de Interrupção Voluntária da Gravidez, que permitiria a todas as mulheres, em qualquer circunstância, a decisão de fazer um aborto (hoje ele só é permitido no país em casos de risco de vida para a mãe ou em gravidez como resultado de estupro). O projeto que foi reapresentado pelo Movimento de Mulheres no começo deste ano, depois que a última iniciativa, com texto idêntico, conseguiu sua primeira grande vitória em junho de 2018, ao ser aprovado na Câmara de Deputados – foi rejeitado pelo Senado, em agosto do mesmo ano.

Muitos parlamentares peronistas, que hoje formam parte da coalizão de Fernández, votaram contra o projeto. Mesmo a ex-presidenta Cristina Kirchner, que hoje é senadora e terminou votando a favor da proposta (segundo ela, convencida por sua filha, que é apoiadora do movimento de mulheres), terminou causando controvérsia, já que durante os seus oito anos como mandatária do país, ela manteve uma postura firmemente contrária às iniciativas em favor do aborto livre.

O programa de governo da candidatura de Alberto Fernández e Cristina Kirchner (candidata a vice) tampouco fala em apoiar o novo projeto de lei do aborto. Seu capítulo de políticas para a mulher ressalta bastante os temas de identidade de gênero e políticas contra a violência e os feminicídios, mas seu único parágrafo que fala sobre “pessoas gestantes” é bem pouco específico: “propor reformas legais e normativas para garantir a autonomia reprodutiva das pessoas gestantes, trabalhar para extinguir o flagelo da violência obstétrica e aumentar a abrangência dos programas preventivos”.

O que pode garantir muitos votos feministas em favor da candidatura peronista é a militância de figuras como a deputada Victoria Donda, autora do projeto que foi debatido em 2018 e uma das primeiras a criar o hábito de usar o lenço verde no Congresso (o faz cotidianamente, não só durante os trâmites do seu projeto).

Donda é uma das mais destacadas defensoras dos direitos humanos e direitos civis na Argentina, e não por acaso: filha de dois militantes de esquerda assassinados pela ditadura argentina em 1977, ela é a neta número 79, uma das 130 pessoas que tiveram sua identidade recuperada pelo trabalho das Avós da Praça de Maio – ela nasceu quando sua mãe, María Hilda Pérez, estava presa em um dos calabouços do regime, foi adotada pela família de um dos torturadores, e só descobriu sua verdadeira identidade em 2004.

Devido a essa história, os grupos que se autodenominam “pró-vida” costumam atacá-la ressaltando a figura da sua mãe, que não a abortou mesmo estando sob tortura. A parlamentar responde essas acusações lembrando que “alguns desses grupos estão apoiando agora a candidatura de (Juan José) Gómez Centurión, o que mostra o tamanho da sua hipocrisia”. O presidenciável mencionado por ela é um ex-soldado da Guerra das Malvinas, candidato de extrema-direita e apologista da ditadura. Durante o debate, Centurión criticou o Movimento Feminista dizendo que “são mulheres que tomam misoprostol (pílula abortiva) como se fosse bala de caramelo”.

Mas não é só o peronismo que tem suas controvérsias com respeito aos temas feministas. Em 2018, o macrismo também chegou dividido na votação da Lei de Interrupção Voluntária da Gravidez. O setor mais liberal do partido governista PRO (Proposta Republicana, fundado por Mauricio Macri) é liberal de verdade, inclusive em termos de direitos civis – não como certos grupos brasileiros que se definem “liberais em temas econômicos e conservadores em questões de direitos” –, e seus votos a favor foram decisivos para a lei ser aprovada na Câmara.

Um dos representantes dessa ala é o deputado Daniel Lipovetzky. Ele defende que “o aborto é legalizado em muitos países que são democracias liberais, na Europa, países como Itália e Espanha, e em muitos estados norte-americanos, e a América do Sul precisa discutir melhor a sua agenda de direitos para entrar nessa nova era”. Ele também reclama do discurso dos que se opõem ao projeto, de que eles defendem salvar as duas vidas: “não se trata de salvar só duas vidas, mas sim milhares de vidas. São mulheres que estão morrendo por causa dos abortos clandestinos, que vão continuar acontecendo enquanto o aborto estiver proibido. O voto que é contra a morte é o voto a favor do aborto”.

Porém, a convicção de Lipovetzky e seu grupo não impediu que Macri e o PRO incorporassem muitos novos representantes ligados a igrejas evangélicas, no começo deste ano, em nome de interesses eleitorais. O próprio deputado passou a ser um dos menos destacados da lista de candidatos ao legislativo da coligação governista Juntos Pela Mudança, e sua reeleição corre sérios riscos.

Por essas razões, o Movimento Feminista decidiu não defender nenhuma candidatura presidencial nestas eleições, nem mesmo a favor de Nicolás del Caño, da Frente de Esquerda (coalizão que está à esquerda do peronismo), setor mais enfaticamente defensor das suas demandas.

Há sim um chamado a votar em candidaturas legislativas que sejam abertamente feministas, sem destacar nenhuma em particular. Desde a campanha para as eleições primárias, movimentos como o Ni Uma Menos e a Campanha pelo Direito ao Aborto, entre outras entidades feministas, defendem a “Campanha Feminista”, cujo slogan é “lutamos para votar, agora lutaremos por eleger”. O vídeo promocional da campanha recorda como as mulheres se organizaram politicamente em favor dos seus direitos, nos especialmente nos últimos dois séculos, e a partir dessa perspectiva faz um apelo para que o voto este ano seja em favor e mulheres que representem a luta por mais direitos feministas no Congresso. Este é o vídeo da campanha: 

Entre as ativistas que está lutando por ganhar um lugar no parlamento está a Celeste Fierro, uma jovem representante da Frente de Esquerda (e que está à esquerda do peronismo), que reclama da diferença que se faz entre a pauta econômica e as pautas feministas. Segundo a candidata, “quando falamos da desigualdade, que é o mais evidente dos muitos problemas que a Argentina vive hoje, também temos que entender que as mulheres são as que mais sofrem com essa situação, porque recebemos salários mais baixos, que muitas vezes exercemos trabalhos não remunerados, temos mais responsabilidades em cuidar dos filhos, há uma série de fatores que fazem com que nós soframos mais esse problema, e a campanha não abordou essa diferença como deveria”.

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1 comentário

  1. Os Argentinos vão às urnas? Urnas de papelão ou plástico reciclável? Do mais barato possível?! Em voto de cédulas de papel? Como assim? Não sabem das maravilhas tecnológicas do Brasil? De Urnas Eletrônicas ao custo de 500 milhões de reais (+ de 120 milhões de dólares), com Biometria Obrigatória de 150 milhões de reais (40 milhões de dólares) com Fundo Partidário de 4 Bilhões de reais (US$ 1.000.000.000,00/Hum bilhão de dólares). Vocês Argentinos, não sabem das possibilidades que esta tal Redemocracia Tupiniquim de Voto Obrigatório de Estado Absolutista pode produzir: Primeiro Justiça Eleitoral, seus Feudos, Coronéis e Bilionários em fantástica ‘Indústria de Burocratização de Secar Gelo’. Já estão morrendo de inveja? Com estas suas ‘Eleições Populares’, nos votos e nos preços, NUNCA terão assassinatos aos milhares, no meio das ruas, em qualquer lugar em qualquer horário, na ordem de 100.000 mortes por ano. NUNCA assassinaram Vereadora de uma das suas maiores cidades, de renome internacional, sem que o Estado apresente os culpados por mais de ano !! Vocês NUNCA terão 100.000 mortes no trânsito por ano !! E CRACOLÂNDIAS iguais às nossas? Jamais !! Jamis terão gigantescas favelas e cidades favelas espalhadas por seu país, alojando mais de 40% da sua População !! E Justiça que nada julga e nada produz, farsante, apenas para garantir o silenciamento do seu próprio Povo? Jamais !!! O que vocês querem com estas Eleições de Urnas de papelão em Voto de papel, caros Argentinos? Democracia?!! Sem Urnas Eletrônicas em Biometria Castradora e Ditatorial? Pobres Argentinos, não sabem o que estão perdendo. E jamais saberão. Sorte de Vocês !!!

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