do Observatório de Geopolítica
Chile. Capengando ou caminhando a passo firme?
por Tebni Pino Saavedra
Para entender o Chile de hoje, faz-se necessário voltar aos inícios do processo de redemocratização iniciado em 1990, após 17 anos de ditadura militar que arrasou com as instituições do Estado, perseguiu, prendeu, torturou e assassinou opositores e acabou com todos os avanços conseguidos nos mil dias do governo de Salvador Allende (1970-1973).
Assim sendo, a frágil democracia chilena, embora menos tímida que nos inícios dos 90s sofre ainda os efeitos, na economia, da Escola de Chicago e, no político, o ressurgimento da direita mais extrema que, majoritária no Congresso, utiliza todos os meios legais para frear os avanços propostos pelo presidente Boric em matéria econômica, principalmente, rejeitando reformas importantes como a tributária, previdenciária, educacional e outras de vital importância para a modernização do Estado.
Sobrevivem, então, a administração privada de fundos de pensão criados em 1980 que condenam a indigência (por dizê-lo de maneira diplomática) aos trabalhadores que, com sorte e aos 65 anos os homens e 60 as mulheres, conseguem aposentadorias de miséria, precisamente quando a vida exige mais recursos. Isto é, em média, 38% do último salário.
Os militares? Muito bem, obrigado. Eles não precisam cotizar no sistema criado em ditadura e permanecem com os privilégios dos seus próprios sistemas que incluem, entre outros, saúde gratuita, pensão para filhas solteiras, enfim, nada diferente do que acontece no Brasil.
Chega assim o 18 de outubro de 2019 quando jovens estudantes iniciam a maior revolta do século pulando as catracas do metrô. “Não são 30 centavos -cantam- são 30 anos”, obrigando o governo do direitista Sebastião Piñera chamar a população para redigir uma Constituição que substitua a redigida e imposta pela bota militar em 1980.
Pois bem. Chegamos aos dias atuais com mais incertezas que realidades concretas. O governo do Boric? Em bom português, “capengando” entre os próprios erros e as acusações constitucionais contra seus ministros (4 em menos de 18 meses de governo). A última, esta segunda-feira dia 12 de julho contra o ministro de Educação, Marco Antonio Ávila, pelo atrevimento de propor educação sexual para estudantes do ensino público. Logo ele, gay assumido, com acusações “cheias de homofobia e discriminação”, em palavras de parlamentares governistas. Para sorte do ministro e do próprio Boric, a acusação foi rejeitada e o presidente pode finalmente embarcar para Europa onde será recebido pelas mais altas autoridades do velho continente.
É claro também que com um Congresso majoritariamente opositor poderia se pensar que os dias do jovem presidente estariam contados mas não é bem assim. A direita, produto de votos de apoio ao ministro Ávila acordará no dia seguinte seriamente fraturada e a coligação que em aparência parecia monolítica acabou despencando e com graves acusações desde ambas partes
Porém ninguém aqui aposta que a fratura dure muito tempo. Menos ainda em se tratando da direita que reúne desde democratas cristãos arrependidos do catecismo de Jacques Maritain, humanistas de última hora e os clássicos “pinochetistas” que quando menos se imagina, montam suas baterias pois os privilégios que defendem são maiores que o discurso “em defesa da pátria”.
Tebni Pino Saavedra – Jornalista (Fac. Cásper Líbero). Correspondente para meios do Brasil e Europa
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