Filipe Porto
Filipe Porto é mestrando em Relações Internacionais pela Universidade Federal do ABC e pós graduado em Jornalismo Internacional pela FAAP. É pesquisador associado do Observatório de Política Externa Brasileira (OPEB/UFABC) e do Núcleo de Avaliação da Conjuntura (EGN/Marinha do Brasil), com ênfase nas relações da China com o mundo. @filipeporto_ [email protected]
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Cuba a partir dos olhos de um jovem repórter chinês, por Filipe Porto

Liu Xiaoqian, correspondente da CCTV, viajou nove vezes a Cuba nos últimos seis anos, estando próximo aos "furacões" que assolam a ilha

“Um furacão passa pelo canavial”: Cuba a partir dos olhos de um jovem repórter chinês

por Filipe Porto

Recentemente, o repórter da CCTV, Liu Xiaoqian, publicou seu novo livro “Furacão passando pelos canaviais: a experiência de um jornalista chinês em Cuba(em chinês). Xiaoqian é um repórter bastante experiente, com passagens por Portugal, Espanha e Brasil. 

Atualmente é correspondente da CGTN nos Estados Unidos, mas foi a partir de sua experiência na América Latina que o jovem repórter se tornou tão famoso em tão pouco tempo: Xiaoqian possui quase dois milhões de seguidores na rede social Weibo, além de ser frequentemente reconhecido nas ruas da China por diversas pessoas. Qual é o motivo de tamanho sucesso?

Hu Xijin, editor chefe do Global Times, repercute a cobertura de Xiaoqian sobre o descarrilamento de trem que resultou em um desastre químico em Ohio, em fevereiro de 2023.  

Antes de publicar seu livro, Xiaoqian também havia escrito um compilado de anedotas sobre a América Latina que resultou em um livro que teve bastante repercussão na China. No atual momento onde a China ocupa grande espaço do cotidiano por questões políticas, surpreende saber que a ampliação do conhecimento sobre a América Latina no país também conta com um vetor artístico baseado na perspectiva de um correspondente internacional. 

Liu Xiaoqian é natural de Jinjiang, na província de Fujian. Nasceu em 1988 e cursou Letras-Português na Universidade de Comunicação da China, em Pequim. Ainda durante a graduação, foi aluno de intercâmbio na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, entre 2007 e 2008. 

No ano seguinte, Xiaoqian iniciou uma nova etapa na sua formação acadêmica, sendo aluno intercambista na Universidade Autônoma de Madri, na Espanha. Após se formar em 2010, ingressou como repórter na CCTV ,o maior conglomerado televisivo da China. Um ano depois, recebeu a missão de ser correspondente na América Latina.

A missão de Xiaoqian no Brasil era iniciar a cobertura jornalística chinesa sobre os preparativos das Olimpíadas do Rio a partir de uma perspectiva que cobria desde passeios em favelas brasileiras até viagens à floresta amazônica para acampamento com as FARC colombianas.

Mas foi em 2014 a grande virada. Liu Xiaoqian ficou famoso da noite para o dia por encarar o desafio de cobrir, durante três dias, o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, em um documentário especial estrelado pela CCTV chamado “Dentro da Cidade de Deus”, inspirado na grande obra cinematográfica brasileira.

Por receio de expor demais seu poder e modo de vida, o líder do cartel de drogas brasileiro só aceitou ser filmado pela CCTV após vários meses de negociação. Durante a experiência, Liu Xiaoqian passou por uma checagem de segurança que envolvia dez postos de controle defendidos por homens munidos de armamento pesado, até chegar à fábrica de processamento de drogas, documentando  o trabalho dos diferentes grupos envolvidos na indústria do tráfico. 

Cabe ressaltar que a China possui uma política excessivamente dura a respeito do uso e do tráfico de drogas. Estrangeiros em visita ao país podem ser submetidos a testes que, de acordo com as regras da China, podem detectar a presença de substâncias ilícitas no organismo por até três meses. E mesmo que o visitante tenha usado a substância fora da China, é levado a julgamento e prisão. 

Mais duro ainda são aqueles presos pelo tráfico de drogas no país. A Chna não faz parte de diversos acordos de extradição e da ampla defesa do contraditório, mantendo os infratores da lei presos no país com penas que vão desde a prisão perpétua até a pena de morte. Justifica-se, então, o sucesso estrondoso de Xiaoqian nas telas das TVs chinesas. 

Reprodução: acervo pessoal

Nos seis anos seguintes de trabalho no Brasil, foi nove vezes a Cuba para entrevistas, aprofundou-se na sociedade cubana e vivenciou diversos acontecimentos históricos, como a morte de Fidel Castro, a visita de Obama a Cuba e a retomada das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba. 

De estudantes de escolas de cinema a gigantes literários como Hemingway, de sorveterias estatais a fábricas de charutos na cidade, de bardos a musicais, de preços gratuitos em mercados úmidos à abolição do “cartão branco” das autorizações de saída das pessoas, Xiaoqian buscava captar o cotidiano da forma mais simples e menos invasiva possível da vida em Cuba. 

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Base da CCTV em Havana, Cuba. 

Para muitos chineses, Cuba é um país muito misterioso. Embora compartilhem de um sistema político semelhante, Cuba está demasiadamente longe, em termos geográficos, da China. Em comparação com a vizinha China, Coréia do Norte, causa    curiosidade nos chineses em conhecerem mais do país para além da figura de Fidel Castro. 

De volta ao livro

O livro é o segundo da chamada “Trilogia Latino-Americana” do autor, o primeiro da série “Um barco em terra: a investigação de um jornalista chinês sobre as drogas latino-americanas”, que foi indicada para “Seleção anual da indústria do livro como melhor obra na categoria de ciências sociais em 2020”.

A América Latina é uma lacuna para os chineses, e Xiaoqian contribuiu enormemente para ocupar esse vácuo. Considerando que o autor ainda é muito jovem, é ainda mais surpreendente. A narrativa em torno do livro, por mais calma e fidedigna ao cotidiano e a vida cubana, não deixa de ser, portanto, um “furacão” ao chegar no público chines.

Para que todos entendam melhor este livro, farei alguns conhecimentos básicos de ciência:

Cuba deriva da língua taino “coabana”, que significa “terra fértil”, e na verdade não faz jus ao nome. Localizada no noroeste do Mar do Caribe, Cuba é um país insular rodeado pelo mar, por isso não possui um vasto território e um clima mutável.

A baixa latitude, o mar e o relevo predominantemente de planícies e colinas trouxeram a Cuba precipitações abundantes e temperaturas típicas da região, que também agregam a fertilidade do solo. 

Em Cuba se diz que o melhor cultivo deve ser a cana-de-açúcar, por isso o nome do livro menciona um “canavial”. Xiaoqian considera os aspectos naturais do plantio da cana-de-açúcar, como a necessidade de intensa luz solar e chuvas abundantes, o que é muito adequado às condições naturais de Cuba.

O cultivo de uma grande quantidade de cana-de-açúcar fez com que se desenvolvesse a indústria açucareira de Cuba, conhecida como “tanque mundial de açúcar”. Embora as terras cultiváveis não sejam tão extensas, a produção cubana ocupa lugar expressivo na produção da commodity a nível global. 

Outro aspecto relevante – e que ainda era um mistério para os chineses — é a gratuidade da saúde. A China compartilha de um sistema comum, mas os efeitos econômicos da importação de remédios caros, como para tratamento do câncer, acabam chegando no bolso do cidadão chinês.

Em 1959, o governo cubano anunciou uma decisão importante para fornecer cuidados de saúde gratuitos e universais. Os países desenvolvidos, especialmente os Estados Unidos, não acreditavam que Cuba poderia alcançar tal objetivo. Na verdade, os Estados Unidos têm sido até agora o foco dos problemas sociais e do alto valor associado aos tratamentos médicos no país enquanto, ironicamente, se preocupam tanto com Cuba. 

Em Cuba, a assistência médica está dividida em três níveis. Nos casos mais graves de doença, o paciente é encaminhado para cuidados terciários. Porém, seu tratamento não finaliza neste nível após a cura. Pelo contrário, o paciente é encaminhado para o atendimento médico de segundo e primeiro nível. 

Dessa forma a profissão médica no país é hierarquizada, capaz de permitir que os pacientes recebam tratamento mais rapidamente.Após o estabelecimento do sistema médico terciário, Cuba começou a investir muito dinheiro na indústria médica para atrair pessoas de diversos cantos do mundo, diferente da China, que oferece em seu sistema, majoritariamente, medicamentos nacionais e depende significativamente de importados. 

Para além da medicina

Xiaoqian remonta ao ano de 1959, após a derrubada do governo de Batista, quando Cuba começou a reformar o sistema educacional e introduziu uma escolaridade obrigatória de nove anos. Logo depois, foi anunciado que a educação seria nacionalizada para que as crianças não gastassem dinheiro com leitura.

O autor relata no livro que tal empreendimento foi muito difícil para o Estado recém-criado, mas Cuba continuou a implementar o sistema. Como resultado, o nível de analfabetismo em Cuba foi bastante reduzido. A qualidade das pessoas como um todo foi melhorada e a ordem social, além de  outros aspectos, foram garantidos. 

A taxa de alfabetização de Cuba atual, em 2023, é de 99%, o que é uma porcentagem.

De menina a mulher: o aniversário de 15 anos

Além da educação, Xiaoqian percebe que a consciência da proteção das mulheres em Cuba também é muito elevada. Cuba foi o primeiro país do mundo a assinar a CEDAW, Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres. 

Em Cuba, as mulheres são livres de escolher a sua profissão e o Estado não só respeita, como também apoia a ocupação. 

Xiaoqian ainda relata que as meninas cubanas fazem uma grande cerimônia ao completar 15 anos, o que equivale ao rito de passagem dos 18 anos no continente. Porém, ao contrário do rito de passagem do continente, nesta cerimônia as meninas cubanas usam vestidos típicos de deutabte, além de claro dançarem valsa com seus pais.

Após o baile, prosseguem com uma atividade chamada “Árvore da Vida”. Essa atividade é feita pela menina e pela pessoa que ela considera mais importante em sua vida, o que simboliza uma vida toda próximo um do outro, bem como nas árvores genealógicas. 

Após o término da cerimônia, a menina se torna oficialmente adulta, pode usar maquiagem e participar de festas adultas.

Como é a economia cubana?

Xiaoqian relata que a vida em Cuba era particularmente semelhante à do continente nos anos sessenta e setenta, lenta e sem pressa, com as pessoas despreocupadas a respeito de suas futuras carreiras devido à ajuda do governo.

Os estudantes universitários cubanos não precisam também são desprovidos de preocupações de acesso ao mercado de trabalho; após a formação universitária o governo cubano atribui de forma planejada a distribuição de empregos. Embora o rendimento do trabalho atribuído não seja elevado, é suficiente para se sustentar. Quanto ao tratamento médico, o governo não só oferece acesso ao tratamento, como também reembolsa em casos de medicamentos importados.

Em suma, são poucas as opções para a utilização de dinheiro em Cuba. Todos têm a mesma renda, sendo as disparidades pequenas.  Segundo estatísticas dos departamentos competentes, a esperança média de vida de Cuba é de 79,5 anos, que é reconhecida como um país longevo no mundo.

Havana, oh nana! 

Havana, a capital de Cuba, possui a típica arquitetura colonial espanhola, que pode ser encontrada em toda a cidade. Muitos edifícios são patrimônios da UNESCO e são sempre considerados a melhor escolha para visitantes curiosos. 

Além da cidade de Havana, há também a cidade de Cienfuegos, que é conhecida como a cidade mais bonita de Cuba e o primeiro lugar para se viajar após chegar à capital (mandatório). Xiaoqian observa que normalmente, quando não há nada para fazer, as pessoas sempre se reúnem e tocam instrumentos em duplas. O pôr do sol quente salpicou um brilho dourado em seus rostos.

De forma lânguida, porém harmoniosa, Xiaoqian escreve que “o ambiente envolvente à beira-mar dá cem corações à população local, não importa de onde venha, será sempre calorosamente recebido por eles, e neste tipo de hospitalidade é inevitável – e indispensável – um grande estoque de bebidas para os mais diversos drinks possíveis”. 

Xiaoqian observa que a alimentação dos cubanos é marcada pela presença doce; talvez pelo fato da ampla cultura de cana-de-açúcar, as pessoas gostam de doces. Não importa o que comam, sempre precisam adicionar um pouco de açúcar, mas não gostam de comer alimentos gordurosos, exceto doces. Provavelmente devido ao clima, as pessoas cubanas gostam de comer alimentos leves, por isso os cubanos não deixam de manter a boa forma.

Ocasionalmente, porém, eles comem um pouco de carne. Mas há uma fruta que é sagrada nos corações cubanos: o abacaxi. Xiaoqian que os cubanos sempre demonstram um carinho profundo pelo abacaxi, quase como algo sagrado. 

Há outra coisa que os cubanos costumam fazer: a conhecida fumaça de charuto. Os cubanos adoram charutos tanto quanto açúcar, e de acordo com o autor, aquele que visitar Cuba, certamente encontrará pessoas com charutos por toda parte. Não à toa, talvez, que os charutos cubanos sejam tão famosos ao redor de todo o mundo. 

Filipe Porto é mestrando em Relações Internacionais pela Universidade Federal do ABC e pós graduado em Jornalismo Internacional pela FAAP.  É pesquisador associado do Observatório de Política Externa Brasileira (OPEB/UFABC) e do Núcleo de Avaliação da Conjuntura (EGN/Marinha do Brasil), com ênfase nas relações da China com o mundo. @filipeporto_ [email protected]

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Filipe Porto

Filipe Porto é mestrando em Relações Internacionais pela Universidade Federal do ABC e pós graduado em Jornalismo Internacional pela FAAP. É pesquisador associado do Observatório de Política Externa Brasileira (OPEB/UFABC) e do Núcleo de Avaliação da Conjuntura (EGN/Marinha do Brasil), com ênfase nas relações da China com o mundo. @filipeporto_ [email protected]

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