21 de maio de 2026

Lula, Kirchner e Mujica, por Angelita Matos Souza

Obviamente, prefiro “Pepe”, mas se fosse classificar os respectivos governos, a ordem seria: 1ª Lula; 2º Néstor; 3º Mujica.
Ricardo Stuckert

Lula, Kirchner e Mujica

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por Angelita Matos Souza

Os governos Lula 1 e 2 (2003-2010), o governo Kirchner (2003-2007) e o de Mujica (2010-2015) fizeram parte da “onda rosa”, denominação usada para se abordar experiências progressistas de governos em países da América do Sul.

Os três foram contra as ditaduras militares na segunda metade do século XX em seus países. O presidente Lula ficou um mês preso, Kirchner não mais que uma semana e Mujica passou 12 anos encarcerado e comeu o “pão que o diabo amassou” (vale ver o filme Uma Noite de 12 Anos).

Com relação às reformas pró-mercado dos anos 1990, Lula e Mujica foram oposição, já Kirchner apoiou os governos Menem. Além disso, os dois primeiros já eram figuras populares quando chegaram à presidência, ao passo que o último era um político pouco conhecido, de uma província de relevância menor na estrutura de poderes regionais na Argentina.

Lula foi um líder trabalhista que contribuiu para renovar o movimento sindical brasileiro e, com a ajuda de segmentos progressistas da Igreja Católica, liderou a construção de um grande partido nacional, o PT. Chegou à presidência apenas na quarta tentativa e, no poder, seus governos promoveram avanços sociais inegáveis, praticando um neoliberalismo menos agressivo do que o dos governos FHC. No balanço geral, a Era Lula foi de “anos felizes” para o povo brasileiro, tanto que o presidente deixou o poder com mais de 80% de aprovação popular.

Kirchner acomodou-se no Partido Justicialista (peronista) e assumiu o poder com apenas 22% dos votos, pois não houve segundo turno (Menem desistiu de concorrer). No entanto, na presidência, reverteria a fraqueza inicial e se tornaria popular. Impossível saber se por vontade própria ou se devido às circunstâncias (a Argentina estava em um daqueles momentos “insurgentes”, que, de tempos em tempos, sacodem o país), o fato é que o Kirchner apoiador dos governos Menem reencontrou-se com o jovem Néstor, simpático aos Montoneros (apesar de nunca ter participado da luta armada). Girou à esquerda e fez um governo progressista.

Mujica foi figura decisiva na reconstrução da Frente Ampla, uma coligação que governaria o Uruguai por quinze anos, perdendo as eleições para presidência em 2020 e vencendo novamente em 2024. Nos quinze anos em que esteve no poder, os governos frenteamplistas foram bem mais sociais-democratas que neoliberais, o governo Mujica foi progressista também na pauta dos costumes. E governou após a eclosão da crise financeira internacional em 2008, mesmo assim, fez um bom governo.

Algo que chama a atenção nos dois vizinhos é a capilarização pelo território. No governo Kirchner, a Ministra do Desenvolvimento Social, Alicia Kirchner, espalhou a juventude peronista pelo país para “conversar com o povo” e responder a demandas existentes. Em um estilo personalista que serviu ao fortalecimento do governo do seu irmão. No Uruguai, a Frente Ampla organizou/reorganizou os comitês de base como espaços de debate e politização, um experimento político-partidário que lembra a fase de formação do PT no Brasil.

Obviamente, prefiro “Pepe”, mas se fosse classificar os respectivos governos, a ordem seria: 1ª Lula; 2º Néstor; 3º Mujica. Isto porque é difícil governar o Brasil e terminar com aprovação popular elevadíssima; igualmente admirável é um quase desconhecido assumir o comando de um país quebrado e terminar o seu mandato como um presidente forte; já Mujica chegou à presidência com a casa relativamente arrumada pelo governo de Tabaré Vázquez, do qual fez parte.

À estabilidade política ajudou a relevância menor do Uruguai no que concerne à presença de interesses forâneos no país. No Brasil e na Argentina, esses têm muito mais peso e, se seus representantes decidem derrubar governos, são grandes as chances de sucesso, ainda mais quando os alvos criam oportunidades. Por exemplo, o conflito com o campo em 2008, iniciado no primeiro governo de Cristina Kirchner, ao que tudo indica, foi malconduzido, ali assemelha que o Néstor presidente reencarnou o Kirchner governador, pouco disposto a negociar.

De passagem pela Argentina, em 2009, Mujica deu uma entrevista ao La Nación, na qual, para alguns, parecia dar uma indireta para o casal Kirchner: “Há uma posição filosófica e inteligente de Lula, que consiste em tratar de negociar os conflitos, buscar resolvê-los pela via da negociação. Se não logra 100, consiga 20, mas consiga algo”. Na visão dele, o importante era não estender conflitos demasiadamente.

Neste ponto, vale sublinhar que negociar não é presentear. No caso do governo Lula 3, para mencionar apenas um episódio, ficaria com o da isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais. O momento para tentar assegurar a medida era durante o governo de transição, depois se “ofereceria” o novo arranjo fiscal. Porém, este veio antes. Ou o presidente Lula esqueceu-se da sua filosofia ou confiou demais no seu ministro da Fazenda. Agora, é torcer pela aprovação e para as tais “compensações” serem razoáveis.

Seja como for, não parece boa ideia substituir Haddad ou enfraquecê-lo, afinal os resultados macroeconômicos são positivos e aposto que a reação do “mercado” à sua saída seria ruim e aproveitariam para tentar impor um sucessor pior.


Angelita Matos Souza – Cientista Social (IGCE-IPPRI-UNESP).

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  1. Milton

    11 de fevereiro de 2025 9:07 am

    O artigo diz bem o que foram os 3 presidentes: trabalharam com a ideia do “possível”. Fizeram o “feijão com arroz” dentro do raio de ação que lhes foi permitido. Nenhum teve a visão do futuro de suas nações. Fizeram muito, com certeza, mas trabalharam dentro de seu tempo e para reformar situações do momento. Grandes lideranças são as que forjam o futuro. Sem ousadias o avanço sempre será lento e estaremos a “repartir o bolo” num futuro indefinido. No estilo Delfim Neto temos grandes confeiteiros no uso da “receita da vovó” mas ruins na hora de fatiar o bolo. Ao fim vejo que a intervenção deu-se na copa e na cozinha . . .

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