A liquidação do banco digital Ueno pelo Banco Central do Paraguai nesta semana bloqueou as contas de quase 3 milhões de clientes, paralisou parte da economia do país e desencadeou uma grave crise política. Parlamentares da oposição protocolaram na Câmara dos Deputados um pedido de impeachment contra o presidente Santiago Peña, apontado como responsável pelas condições que levaram à quebra da instituição.
O colapso do Ueno, que atendia cerca de 40% da população paraguaia, teve impacto imediato. Sem acesso a saldos, transferências ou cartões, milhares de cidadãos, incluindo brasileiros residentes no país, ficaram desassistidos. O congelamento abrupto dos recursos provocou uma queda de 35% nas vendas do comércio varejista. Para cerca de 500 mil pessoas, a plataforma digital era o único canal de acesso ao sistema financeiro.
Conflito de interesses
A crise escalou para o governo federal devido aos vínculos do presidente com a instituição. Peña, economista que assumiu o cargo em 2023, foi acionista da holding controladora do Ueno até o início do ano passado. Após a posse, o presidente nomeou Carlos Carvallo, então mandatário do banco digital, para a presidência do Banco Central, órgão que deveria fiscalizar o setor.
A oposição apresentou 35 assinaturas para abrir o processo de destituição, acusando Peña de encobrimento institucional, desvio de recursos previdenciários e manipulação regulatória. Na sessão em que a denúncia foi apresentada, a deputada oposicionista Rocío Vallejo direcionou as críticas diretamente ao mandatário.
“Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente… o senhor é a origem desse monstro que criou”, disse a parlamentar. O avanço do impeachment exige o apoio de dois terços da Câmara, o que dependerá de eventuais dissidências na base governista do Partido Colorado.
O escândalo já custou o cargo de Carvallo e de outros diretores no Banco Central, que renunciaram em meio à pressão. Na esfera criminal, a Justiça decretou a prisão de oito diretores do Ueno, incluindo o presidente-executivo, Miguel Vázquez, e determinou o bloqueio de bens. Ao todo, 27 pessoas ligadas ao banco foram indiciadas pela Procuradoria.
Rombo e dinheiro público
A intervenção expôs fraudes estruturais. O índice de solvência do banco havia despencado para 5,56%, muito abaixo do limite legal de 12%. O Banco Central identificou deficiências na concessão de crédito, maquiagem contábil superior a 1,6 trilhão de guaranis e financiamentos em larga escala para empresas vinculadas ao próprio grupo controlador, o Grupo Vázquez. Havia ainda um buraco de US$ 70 milhões nas reservas obrigatórias.
O risco financeiro afeta diretamente o Estado. O Ueno concentrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos públicos. Apenas o Instituto de Previdência Social detinha investimentos de US$ 355 milhões na instituição, além de gerenciar os pagamentos de 32 mil aposentados. Recursos da estatal de eletricidade e da hidrelétrica binacional de Itaipu também estão retidos.
Restituição e instabilidade
Com protestos nas ruas, o governo corre para mitigar os danos. O Fundo de Garantia de Depósitos assegura a cobertura de até US$ 38.600 por correntista, mas a liberação ocorrerá por meio de um cronograma oficial, com um desembolso inicial limitado a cerca de US$ 1.675 por pessoa.
Após sancionar uma lei para tentar acelerar esse reembolso, Peña usou as redes sociais para prometer punições e pedir cautela ao Congresso. “Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse”, afirmou.
A paralisação do Ueno gerou uma migração em massa de clientes para outras instituições, provocando falhas nos aplicativos bancários devido à sobrecarga de acessos. Apesar dos relatos de instabilidade, a Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) divulgou um comunicado informando que as entidades trabalham para absorver a demanda e garantiu que o sistema financeiro segue “operando normalmente”.
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