5 de junho de 2026

Os Abutres e a Argentina, por Angelita Matos Souza

Argentina segue vítima de especuladores, porém, agora alguns são denominados de modo muito apropriado: Fondos Buitre (Fundos Abutres)

Os Abutres e a Argentina

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por Angelita Matos Souza

Recentemente, a ex-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, divulgou um texto no qual defende que o país está vivenciando a sua terceira crise da dívida externa. A primeira teria sido a dos anos 1980; a segunda eclodiu no início dos anos 2000; e a atual seria consequência do endividamento durante o governo Macri. Porém, podemos voltar um pouco mais no tempo, ao período da Belle Époque argentina, ao final do século XIX, quando ocorreu uma crise que pode ser considerada a primeira no capitalismo na sua etapa superior: a crise Barings.

Em 1890, a casa bancária Barings Brothers de Londres, à época o principal financiador da Argentina, quase foi à falência devido ao movimento especulativo que a casa fomentou em torno de empréstimos ao país. A crise foi desencadeada, sobretudo, pelo endividamento excessivo do Estado, o que despertou desconfiança nos títulos e papéis argentinos e, em consequência, fuga de capitais. Movimento que afetou não apenas a Argentina, também o Brasil e outros países da região. De fato, a crise Barings abalou o mercado financeiro mundial.

Mais de um século depois, com outras crises na bagagem, a Argentina segue vítima de especuladores, porém, agora alguns são denominados de modo muito apropriado: Fondos Buitre (Fundos Abutres).  São assim chamados por operarem em momentos de crise, adquirindo títulos públicos baratos de credores desejosos de se desfazerem do risco. Após um tempo, buscam receber valores exorbitantes por meio de ações judiciais nos EUA, acompanhadas de diversos expedientes de pressão contra o Estado devedor.

Foi o que aconteceu na Argentina, os abutres adquiriram títulos públicos nos mercados secundários e se negaram a participar dos processos de reestruturação da dívida, quando, nos governos Néstor Kirchner, o país recuperou a capacidade de renegociação, com a subida dos preços das commodities. Os termos da renegociação tiveram a concordância de 93% dos detentores de títulos da dívida, somente os abutres stricto sensu ficaram de fora, para mais adiante demandarem uma fortuna em uma batalha judicial que, claro, venceram.

O governo de Cristina Kirchner se recusou a pagar, inclusive porque seria injusto com os credores que participaram dos processos de reestruturação. No entanto, o seu sucessor, Mauricio Macri, contrairia dívida externa nova para pagar o montante reivindicado pelos 7%. A justificativa foi que o pagamento era condição para o país voltar a acessar o mercado financeiro internacional, ou seja, para voltar a se endividar em dólar.

E assim foi, os mercados internacionais responderam efusivamente, afinal, quem paga os abutres, paga qualquer coisa. Quando a “confiança” acabou, devido ao endividamento excessivo em pouco tempo, o governo Macri levou a Argentina de volta ao FMI, contraindo um empréstimo bilionário em 2018. Posteriormente, o ex-presidente admitiu que os recursos foram principalmente para bancos comerciais que queriam deixar o país. O governo seguinte, de Alberto Fernandez, além dessa herança, enfrentaria uma pandemia e uma seca severa.  

Em suma, tem sentido falar em crise da dívida externa, a segunda no século XXI. Lógico que essa não é uma história restrita à herança do governo Macri, nem foi imposta meramente desde fora, há sempre os sócios locais, liderando a economia, na cúpula dos governos em todos os níveis, do Judiciário e no topo da burocracia de carreira de maneira geral. Aliás, tem um filme argentino, Abutres, que vale ver, mas não é sobre a dívida pública em dólar (ou é?).  


Angelita Matos Souza – Cientista Social. Docente na Unesp.

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  1. Evandro Condé

    21 de maio de 2024 7:46 pm

    “Mais de um século depois, com outras crises na bagagem, a Argentina segue vítima de especuladores…”
    Ainda bem que deu uma concertada no final. Nada mais fácil que culpar a outrem a culpa/causa de nossas mazelas. Parece coisa de evangélico que culpa o diabo e entidades como causa da vida ruim.
    A Argentina colhe o que plantou. É inocência acreditar que quem comprou os títulos são Polianas. Sabiam o que faziam e a quem atraiam.
    Danto não tem ninguém.

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