Sem diálogo com América Latina, Brasil se isola, por Arnaldo Cardoso

A decisão de não ir à posse do novo presidente do Chile se integra à extensa série de erros que isolaram o Brasil

Sem diálogo com América Latina, Brasil se isola

por Arnaldo Cardoso

Não causou surpresa o anúncio do presidente Jair Bolsonaro de que não irá à posse do novo presidente do Chile, Gabriel Boric, em 11 de março próximo, afinal foi essa também a sua atitude por ocasião da posse do presidente argentino Alberto Fernández e, de um modo geral, reproduzem uma conduta que mais que sugerir uma orientação política o assemelha a um troll.

Como eu mesmo já escrevi em outro artigo nesse Jornal GGN “No uso corrente na internet o troll é ‘alguém que deixa uma mensagem intencionalmente irritante, a fim de obter atenção ou causar problemas’. O troll na política joga com a dubiedade, insidiosamente entre o que é brincadeira e o que é sério. Busca polemizar, mexe com os tabus, nega o politicamente correto e despreza consensos, chegando a flertar deliberadamente com o ilegal. Com isso atinge seu objetivo principal: ganhar visibilidade”.

Mas depois de três anos seguidos causando estupefação e inconformismo por tantos atos e declarações absurdos, se há qualquer cálculo deliberado nisso, já não está funcionando mais.

E falando de política externa, primeiramente é preciso dizer que a América Latina nunca esteve na agenda de política externa do governo Bolsonaro.

A equivocada orientação de alinhamento com os Estados Unidos de Donald Trump que norteou a política externa nos primeiros anos do governo Bolsonaro subverteu a tradição diplomática brasileira e subordinou os interesses do país a uma visão ideológica que resultou em perda de prestígio regional e global para o país.

Nos últimos anos o Brasil abandonou qualquer projeto de liderança regional, portanto, a decisão de não ir à posse do novo presidente do Chile se integra à extensa série de erros que isolaram o Brasil do mundo.

Quando da decisão de não ir à posse de Fernández na Argentina, muitos analistas destacaram que era a 1ª vez desde a redemocratização que um presidente brasileiro não comparecia à posse presidencial no is vizinho.

Mas é preciso também registrar que desde o começo do governo Bolsonaro ficou evidente, por várias declarações e ações, um misto de ignorância e desprezo pela institucionalidade e ritos do Estado. Particularmente no campo das relações exteriores, falta-lhes entendimento do que é uma burocracia especializada (como o Itamaraty) e a distinção entre governo e Estado.

Política externa é coisa de Estado, é construída no longo prazo por meio de negociações visando a convergência e satisfação de interesses das partes. Não pode estar sujeita aos caprichos do governante de plantão.

A Argentina é o principal parceiro comercial e político do Brasil na América do Sul. As relações entre os dois países têm uma longa história e são importantes para a estabilidade regional. Independentemente do matiz ideológico dos presidentes, essas relações refletem interesses de diversos setores das respectivas sociedades. Promover a discórdia e atritos com vizinhos é um erro grosseiro.

A mídia brasileira na cobertura de temas de relações internacionais tem questionado se esse tipo de atitude do presidente brasileiro traz prejuízos ao país. Nestes últimos dias questiona-se se a declaração de Boric de que em termos de política externa, seu governo irá privilegiar as relações com a Aliança do Pacífico – bloco econômico formado por Chile, Colômbia, Peru e México – em lugar do Mercosul, já seria uma represália à Bolsonaro.

Sobre isso é preciso lembrar que durante a campanha eleitoral, Boric declarava interesse pelo ingresso do Chile como membro efetivo do Mercosul, mas posteriormente, orientado por seus assessores, passou a informar que a Aliança do Pacífico estaria entre as prioridades de sua política externa.

A Aliança do Pacífico, formada em 2012, optou desde o início por um formato mais aberto e com ênfase na liberdade comercial e de investimentos, enquanto o Mercosul sempre visou uma maior integração política no Cone Sul da América do Sul. Já faz tempo que isso tem sido debatido no interior do bloco, com Uruguai e Paraguai defendendo mudanças.

Fundado em 1991 o Mercosul passou a ter o Chile como  membro-associado, não efetivo, em 1996. O bilateralismo foi a orientação predominante adotada pelo Chile nas últimas décadas, preferindo acordos de menor grau de comprometimento.

Nos trinta anos do Mercosul, o bloco perseguiu o formato da união aduaneira com meta de se tornar um mercado comum e assim acumulou muitas conquistas, mas também problemas sem soluções adequadas até agora.

Um dos problemas mais conhecidos foi a Tarifa Externa Comum que nunca conseguiu ser integralmente implementada, gerando uma lista crescente de exceções que produziu distorções no comércio entre os membros e limitações para acordos individuais com países terceiros.

Mas o enfraquecimento do diálogo e da própria agenda de integração nos últimos anos entre os países da região tem propiciado o agravamento de problemas muito sérios, para além de questões comerciais tradicionais.

Hoje nas fronteiras entre Brasil, Paraguai e Argentina prosperam o contrabando de armas e drogas, lavagem de dinheiro, concomitante à intensificação da interação entre organizações criminosas regionais, como o PCC e globais como a ‘Ndranghetta (máfia italiana da Calábria), tornando a região – especialmente o Paraguai – rota do tráfico e do crime organizado internacional. A penetração do crime organizado em instituições do Estado paraguaio tem despertado a preocupação de analistas estrangeiros que monitoram questões de segurança e movimentações do crime organizado na América Latina e no mundo.

Para enfrentar esses problemas há, primeiramente, a necessidade de cooperação de polícias e agências de inteligência dos países envolvidos. Mas para uma tal cooperação é preciso articulação política de alto nível e a permanente cooperação entre governos visando criar as condições para a reversão desse quadro. 

Há vários arranjos econômico e políticos que podem ser experimentados pelos países da América Latina. Certamente investimentos se fazem necessários. Mercosul e Aliança do Pacífico juntos, reúnem cerca de 475 milhões de habitantes e mais de 80% do PIB da América Latina. A região carece de um novo modelo de desenvolvimento e isso pode ser buscado conjuntamente.

Uma boa articulação política regional pode favorecer a concepção e implementação de bons projetos, inclusive com atração de investimentos estrangeiros. Virtuosamente isso pode gerar um melhor posicionamento desse conjunto de países na arena internacional.

O atual estágio da interdependência global, marcada por assimetrias, tem renovado a validade da aposta na cooperação e integração regionais pois problemas transnacionais não poderão ser resolvidos com as tradicionais fórmulas nacionais.

O presente e o futuro do Brasil e de toda a América Latina dependem dessa compreensão e de políticas correspondentes.

Arnaldo Cardoso, sociólogo e cientista político formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), pesquisador, escritor e professor universitário.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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