Wilson Ferreira
Wilson Roberto Vieira Ferreira - Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.
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A invasão de Brasília não aconteceu, por Wilson Ferreira

Será que Lula dobrou a aposta e pagou para ver? Tudo está menos para o Capitólio, e muito mais para o 11 de Setembro.

A invasão de Brasília não aconteceu

por Wilson Roberto Vieira Ferreira

“Capitólio brasileiro!”, cravam os “colonistas” da grande mídia diante da invasão e destruição dos prédios dos três poderes nesse domingo. Um ardil semiótico com dois objetivos: (a) esconder a centralidade da Forças Armadas no processo ao sugerir tudo como resultante do fenômeno global da escalada da extrema-direita; (b) ocultar a natureza de não-acontecimento da invasão – acontecimento fabricado para repercussão midiática, como operação psicológica para, mais uma vez, levantar o espantalho do golpe. Como todo não-acontecimento (assim como os atentados terroristas na Europa de 2012 a 2016), apresenta características como ambiguidade, timing, além da pergunta: quem ganha? Nesse momento o jornalismo corporativo tenta reverter o tiro no pé: diante de mais uma estratégia de emparedamento, Lula consegue reverter a pauta midiática ao criar uma agenda de Estado (a defesa da Democracia) da qual a mídia corporativa é obrigada a participar. Será que Lula dobrou a aposta e pagou para ver? Tudo está menos para o Capitólio, e muito mais para o 11 de Setembro.  

A grande mídia insiste em comparar o episódio da invasão e depredação dos prédios dos três poderes da República em Brasília com a invasão do Capitólio por militantes açodados por Trump em 2021.

Uma analogia retórica (“O Capitólio brasileiro”) que, como sempre, alinha-se com a estratégia de guerra híbrida das Forças Armadas: apagar as digitais da psyOp castrense (apoiar os acampamentos em frente aos QGs pelo País) através da figura patética do “manchuriano” Bolsonaro – assim como Trump, ele também supostamente teria estimulado seus apoiadores, além de tentar seduzir os altos comandos militares para uma aventura golpista – outra estratégia semiótica para apagar as digitais das próprias Forças Armadas.

Mas para esse humilde blogueiro, a invasão de Brasília está menos para a invasão do Capitólio e muito mais para o ataque do 11 de setembro às torres gêmeas do WTC em 2001. Por dois motivos: primeiro, a natureza “terrorista” de todo o conjunto dos atos (apesar de toda a controvérsia jurídica em torno dessa tipificação – controvérsia que na verdade é um ardil para embaralhar as estratégias de comunicação alt-right); e segundo, é um evento que suscita a questão clássica: “cui bono”, quem ganha?

Tudo parte de uma simples constatação: toda aquela multidão vestida com a bandeira nacional e camisetas da CBF (que agora, depois de seis anos, caiu a ficha e a entidade veio a público com nota desvinculando o uniforme da Seleção com os atos de extrema-direita – por que só agora?) não queriam dar um “golpe” ou “tomar o poder”. Embora estendessem faixas pedindo “intervenção” e clamassem por um golpe militar old school.

Toda a depredação dos prédios dos três poderes da República pareceu mais uma espécie de parque temático do golpe – patriotas caminhando pelos amplos espaços verdes da Esplanada e Praça dos Três Poderes filmando com celulares, fazendo selfies ou lives para abastecer as redes sociais bolsomínias de conteúdo. 

Todo o quebra-quebra de janelas, áreas envidraçadas, destruição de móveis e obras de arte de milhões de reais (como um Di Cavalcanti) pareciam mais movimentos coreografados para serem capturados pelas câmeras de celulares para imediatamente inundar as redes sociais – algo parecido com a coreografia black bloc das manifestações de 2013. Apenas que na época, os gestos se voltavam às câmeras dos cinegrafistas da grande mídia.

Era como se todos fossem wanna be de revolucionários da Queda da Bastilha ou algo parecido. Algum tipo de experiência imersiva na qual participam de uma simulação como soldados em uma batalha épica de invasão do Castelo de Kimble no game Assassin’s Creed Valhalla.

Em pânico, muitos da mídia progressista tomaram o simbolismo da encenação na literalidade e acreditaram que o “golpe” poderia ter vingado pelo acirramento da desestabilização política, com Bolsonaro voltando para o País no final para assumir a presidência – clique aqui.

Tomados por um pânico ingênuo, não viram a absoluta inutilidade e desperdício das cenas: um “patriota” escorregando pelo carpete da mesa diretora do Senado; um outro sentado na mesma mesa diretora, como uma caneta na mão como se estivesse dirigindo uma sessão imaginária; casais tirando selfies bregas enquadrando ao fundo o Congresso tomado pela multidão em verde-amarelo; mais casais de mãos dadas, em uma calma turística, olhando o cenário de destruição como se assistissem a mais uma atração em um parque de variedades. E tantas outras cenas que criaram uma combinação surreal entre cenas de violência e destruição tendo ao fundo uma bucólica e vazia Brasília numa tarde de domingo. 

Enquanto grupos de policiais militares alegremente observavam tudo, divertindo-se com seus celulares, olhando o conteúdo das redes produzido pelos “patriotas” nos interiores dos prédios do Congresso, Palácio do Planalto e STF.

Inutilidade e desperdício? Como assim? Pelo menos do ponto de vista de uma pretensa tentativa de um autêntico golpe de Estado. Se foi para dar um golpe real, como acham aqueles que interpretam o evento na literalidade, então o que vimos foi um espetáculo de absoluta inutilidade tática: os poderes e instituições constituídas continuam existindo (embora não exatamente estejam “funcionando”, por viverem assustadas com o espantalho do golpe, p. ex., em ações como essas de domingo). 

E mais! Deu para Lula a deixa para criar um evento de forte impacto simbólico para as câmeras de TV: a caminhada que cruzou a Praça dos Três Poderes em direção ao prédio vandalizado do STF – Lula, governadores, líderes do Congresso, prefeitos e ministros do STF, lado a lado, superando as diferenças políticas, caminhando em defesa da Democracia. Concedendo a Lula uma agenda de Estado, atropelando a pauta do terrorismo econômico da grande mídia e da Banca – voltaremos a esse ponto.

O não-acontecimento de Brasília

  Por isso, esse evento aproxima-se da natureza do evento do 11 de Setembro: a natureza terrorista do não-acontecimento.

Todo ato terrorista é, a priori, um não-acontecimento. “Não-acontecimento” é um dos conceitos mais prolíficos e polêmicos do falecido pensador francês Jean Baudrillard (1929-2007). Diferenciam-se dos acontecimentos históricos (“reais”) porque são eventos fabricados para a transmissão imediata através das ondas concêntricas midiáticas e contágio pelas redes.

“Quer dizer então que a televisão não mostra mais eventos, isto é, fatos que acontecem por conta própria, independentemente da tevê, e que aconteceriam mesmo que esta não existisse? Cada vez menos”, já alertava Umberto Eco no final dos anos 1970.

Vivemos num ecossistema midiático (“media life”) no qual o que garante a existência dos fatos é a sua veiculação pela mídia. Os fatos progressivamente perdem a sua objetividade ou substância para se mesclarem com a lógica ficcional. Quanto mais explosivos, melodramáticos e espetaculares, mais chances terão de aparecer na mídia. 

O terrorismo demonstra bem esta opacidade dos fatos. Há muito deixou de ser uma estratégia revolucionária que objetivava a tomada do Poder. Em si mesmo, tornou‑se um ato propagandístico, mas não num sentido ideológico (palavras de ordem são enunciadas pelos terroristas, mas, no fundo, como jogo de cena para tomar mais dramático o espetáculo). Seja Sequestros de avião, bombas em embaixadas etc. são sempre acompanhados de reivindicações irreais ou impossíveis de serem atendidas, ou pouco práticas, da mesma natureza das exigências dos astros de rock em dias de show para estádios lotados.

No caso dos “patriotas”, a surreal “agenda” da “intervenção militar constitucional”. E a esperança dos acampados em frente aos QGs de acontecer uma quartelada igual a das hollywoodianas repúblicas de bananas de algum lugar perdido na América Central.

 Assim como os não-acontecimentos do ciclo de atentados terroristas na Europa de 2013 a 2016 (Paris, Nice, Berlim, Bruxelas, Londres etc.), a invasão de Brasília é cheia de fios soltos que sugerem Trabalho Interno (Inside Job), psyOp, ambiguidades etc.

Ambiguidade

Se não, vejamos. Tudo foi uma crônica do “golpe” anunciado. Estimulada e planejada através das redes sociais (na semana que antecedeu o sinistro, as redes bolsonaristas estavam repletas de postagens sobre datas de saída de ônibus fretados e até avião para Brasília – com data de retorno e alimentação e pousada grátis), milhares de pessoas começaram a rumar para Brasília. Como tudo passou despercebido pela inteligência da PF, PRF, pelas Três Forças Armadas e pela própria Presidência da República?

Dias antes, o ainda presidente Bolsonaro e família se mandaram para os EUA, seguido depois pelo próprio Secretário de Segurança Anderson Torres. Ambos procuravam conseguir um bom álibi.

E no dia da invasão, os milhares de “patriotas” encontraram os três poderes completamente indefesos. Mais do que policiais militares tomando água de coco, divertindo-se com o celular e tirando fotos com terroristas, os invasores contaram com a estranha ausência das polícias especiais, incumbidas da proteção de cada poder: o Comando Militar do Planalto (segurança presidencial), a Polícia Judicial (responsável pela segurança do STF), a Polícia Legislativa da Câmara dos Deputados (que recentemente abriu concurso para ocupar 140 vagas) e a Secretaria de Polícia do Senado Federal.

Pois os terroristas encontram estranhamente os prédios vazios e vulneráveis, apesar desses edifícios conterem documentos, objetos do patrimônio histórico nacional e internacional, obras de arte de milhões de reais e caros equipamentos telemáticos. 

O set de filmagem estava pronto para receber os protagonistas e extras para a produção dos clipes para as redes.

 Algo parecido com os atentados na Europa, quando terroristas (supostamente monitorados por órgãos policiais) de repente encontravam as circunstâncias perfeitas para atirar e explodir.

Tanto a invasão de Brasília quanto o ciclo de atentados na Europa, contaram com ensaios antes dos ataques. Por exemplo, tanto o atentado em Paris em 2015, quanto os de Londres em 2017 foram antecedidos por estranhos exercícios de simulação de ataques múltiplos, coordenando bombeiros, policiais e paramédicos atendendo vítimas atores de crise.

No caso de Brasília, o ensaio técnico foi a tentativa de invasão da sede administrativa da PF e depredação e incêndio de carros e ônibus na Asa Norte, em dezembro, dia da diplomação de Lula.

A única diferença em relação à quebradeira de Brasília é que tanto na invasão do Capitólio, os ataques de 2001, quanto os atentados na Europa tiveram a contraprova do real para dar verossimilhança aos não-acontecimentos: os cadáveres das vítimas. A invasão de Brasília foi ainda mais canastrona: sem mortos ou feridos – caprichosamente, os blindados anti-motim da polícia militar do DF jogava chatos de água para cima ou para o chão em áreas vazias, andando em círculos. 

Horas antes, os terroristas foram gentilmente escoltados pela polícia militar até a entrada da Esplanada dos Ministérios.  

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5 Comentários

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  1. Perfeito até o desfecho… Não, Lula não “inverteu” o jogo, quando Biden , Macron, e etc, junto com o estamento nacional (judiciário, legislativo e governadores) caminharam com ele… É preciso não esquecer que foi justamente este pessoal que proporcionou o quase-golpe de 2006 e o golpe de 2016, e que fecundou e pariu o período 2018/2022, justamente o tempo necessário para “ajustar” a transição do capitalismo para o pós-capitalismo aqui na periferia, com um regime de força, e desmonte do que restava do estado capitalista, seus parcos instrumentos de proteção social que restavam, e suas instituições de representatividade…Esta tal “invertida” nada mais é que uma nova lei de anistia, quando Rosa Weber vai poder varrer para a lixeira do esquecimento a frase: “condeno não pelas provas, mas pela literatura, que assim me permite”, ou do restante do STF que assistiu inerte a lava-jata, fingindo surdez aos tambores da inquisição da mídia.. Esta agenda de Estado não existe…o Estado acabou…e por certo, o fim foi lá em 2001, certamente…God save de America’s Dick Cheney…

  2. Pois é, Ronaldo. Os Militares estão se parecendo com o Paulo Coelho, quando este culpava o Raul Seixas, outra vítima dos Milicos, pela sua tortura, e absolvia os torturadores.

    Mas depois a ficha do Paulo Coelho caiu:

    “Começo a ter sérias dúvidas dos documentos que o Jotabê Medeiros me enviou, dizendo e insistindo que Raul tinha me denunciado (emails arquivados)
    O que se passou entre Raul e eu fica entre nós. Vou deletar o tweet da FSP
    Acho que o cara quer apenas vender a porra do livro”. — Paulo Coelho (@paulocoelho) October 24, 2019

    Será que a ficha dos milicos vai cair?

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