
Androides sonham com ovelhas elétricas?
por Erick Kayser
Em tempos de expansão das tecnologias de sistemas de linguagem generativas popularmente chamadas de inteligência artificial (IA), a leitura do livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, publicado pelo escritor norte-americano Philip K. Dick em 1968, ganha uma nova dimensão. Um dos maiores clássicos da ficção científica do século XX, sua (re)leitura hoje parece adquirir uma espécie de atualização para uma versão 2.0, dando novas cores para a metáfora sobre o desejo de autenticidade em um mundo artificial.
O tema central do livro poderia ser resumido, em termos atuais, a questão: uma inteligência artificial poderia aspirar a algo “real”, assim como um androide sonhar com uma “ovelha elétrica”?
O livro de Dick se passa em um futuro distópico onde uma guerra nuclear tornou o planeta um lugar radioativo e em declínio. Neste mundo, a posse de um animal de estimação verdadeiro tornou-se o maior símbolo de status, já que a maioria foi extinta. Neste ambiente, acompanhamos Rick Deckard, um caçador de recompensas encarregado de “aposentar” androides que escaparam para a Terra. A narrativa entrelaça dilemas éticos, a degradação ambiental e a fragilidade daquilo que chamamos humano.
A fama do livro cresceu com a adaptação cinematográfica de Ridley Scott, Blade Runner (1982), que, embora tenha modificado vários aspectos da trama, cristalizou a estética cyberpunk e deu nova vida ao debate sobre inteligência artificial, identidade e memória. A força visual do filme transformou o romance em um clássico de massa, mas também levou muitos leitores a redescobrir o texto original, mais sombrio e filosófico.
Se na época de Dick os androides eram metáforas de um futuro ainda distante, hoje o avanço das inteligências artificiais da novo peso a esses dilemas. A capacidade de máquinas produzirem linguagem, imagens e decisões que “imitam” o raciocínio humano reaviva a questão central do livro: até que ponto é possível diferenciar uma consciência “real” de uma simulação convincente? A principal diferença entre humanos e androides (chamados de replicantes Nexus-6) é a capacidade de sentir empatia. Este é o fundamento do teste Voigt-Kampff, usado para identificar androides, retratado na famosa cena do “teste de empatia” no início do filme. No entanto, a trama constantemente questiona a solidez dessa fronteira, mostrando humanos com pouca empatia e androides que anseiam por vida e conexão.
Como reminiscência lembrando os replicantes de Dick, os grandes modelos de linguagem atuais, como o ChatGPT, operam como máquinas de otimização que processam dados existentes. Certamente ainda estamos distantes de uma tecnologia que seja, de fato, uma verdadeira “inteligência artificial”, capaz de produzir raciocínios próprios e imaginativos, não uma sequência algorítmica treinada para compilar dados disponíveis e produzir resultados “novos” a partir desta extração. Os resultados não são necessariamente coerentes ou corretos, mas convincentes nos termos em que foi “treinada”.
É um tanto questionável uma comparação entre as IAs e o raciocínio humano verdadeiro, não apenas pela capacidade de imaginação, mas por se organizarem em parâmetros bastante distintos. Ainda que existam abordagens, como a computação neuromórfica, que buscam desenvolver máquinas que imitam a forma neuronal como nossos cérebros funcionam, sua concretude ainda é distante e talvez inalcançável em sua plenitude, mesmo que seja pelo limite último entre o orgânico e o artificial. Na verdade, talvez estejamos lidando hoje com uma versão high-tech do “teorema do macaco infinito”. Teoria matemática que aponta que um hipotético macaco digitando aleatoriamente em um teclado por um intervalo de tempo infinito, irá quase certamente criar um texto qualquer escolhido, como a obra completa de Shakespeare.
Voltando ao livro de Dick, ele também nos alerta para os riscos de reduzir a humanidade a meros critérios de utilidade ou desempenho. Quando os androides desafiam a noção de humanidade, não é apenas a máquina que está em questão, mas a própria definição de valores humanos em um mundo cada vez mais mediado pela tecnologia desenvolvida a serviço do capital. Mesmo com um mundo em colapso, a possibilidade de “criar a vida” com os replicantes, permitira a continuidade eterna da exploração do trabalho para a criação de valor.
Hoje, ao mesmo tempo em que se discutem direitos, responsabilidades e limites para os nascentes sistemas de IA, a narrativa de Dick funciona como um espelho crítico. Ela mostra como em uma deriva de ultracapitalismo sem limites, a obsessão por distinguir “homens” de “máquinas” poderia ocultar os verdadeiros problemas éticos: a desigualdade, a exploração e a fragilidade da vida em todas as suas formas.
Erick Kayser é historiador
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário