As notícias sobre Ovnis e seus efeitos sobre as massas, por Tiago de Castilho Soares

Qualquer notícia de Ovnis, por mais objetiva que seja, sugere que estamos diante de uma possível presença de uma civilização alienígena.

As notícias sobre Ovnis e seus efeitos sobre as massas

por Tiago de Castilho Soares

Nas últimas semanas acompanhamos, em diversos veículos de comunicação, notícias sobre avistamentos de Ovnis no território Brasileiro. Notícias que não são inéditas, constituem já um subitem do campo das notícias científicas, consolidadas nos últimos anos, especialmente pelos debates nos EUA de abertura para o grande público de arquivos secretos de registros de aparições. Quais são os efeitos de notícias de Ovnis sobre as massas? Quando uma agência de notícias escolhe lançar uma matéria sobre Ovnis, ou o que é mais comum, quando vários veículos de comunicação, ao mesmo tempo, repercutem notícias de aparições de Ufos, que efeitos são produzidos sobre o público?

Antes são produzidos efeitos sobre a própria imprensa. Quando as pessoas veem no rol de manchetes uma notícia sobre Ovnis, elas estão propensas a valorar e resignificar o próprio veículo de comunicação. Esse espaço em que se fala de política, de violência, de desastres, de transito e de previsão do tempo ganha outras cores. Ao passo que evidencia uma busca pela novidade a qualquer custo e pela espetacularidade, a presença de Ovnis na imprensa fere a regra da objetividade (da fotografia do real) e explicita ao público que cabe bem ali, ao lado da cotação do dólar e das máximas e mínimas de temperatura, um diálogo com o sobrenatural.

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As notícias sobre Ovnis produzem diretamente sobre as massas efeitos associados ao sentimento de medo. Qualquer notícia de Ovnis, por mais objetiva que seja, sugere que estamos diante de uma possível presença de uma civilização alienígena. Esse é o ponto essencial de uma notícia sobre Ovnis: propalar que algum objeto voador não foi identificado sugere, no íntimo, que esse objeto é o observador de um exército alienígena, um inimigo à espreita. A espécie humana durante centenas de milhares de anos teve as técnicas de aproximação de caça e de guerra como um meio de sobrevivência. O “território aéreo” é muito recente e o desconhecido que provém dele é ameaçador. Cogitar que se está sendo visitado pelos céus, mirado de cima para baixo, sem se ter a real dimensão do que é e de quem é, faz sentir-se ameaçado. E a presença de um observador estrangeiro, extraterreno, sugere pela própria experiência humana, que se trata de um observador de vanguarda. Os Ovnis, mesmo sendo apenas um, sugerem o primeiro passo para uma invasão em massa.

Que a indústria do cinema explore repetidamente esse medo, que a literatura já tivesse feito isso ainda no séc. XIX (A Guerra dos Mundos, H. G. Wells), e que as religiões sempre tenham ameaçado com exércitos vindos dos céus (inúmeros exemplos no livro de Jó), a produção do medo não implica a formação de um espírito coletivo, mas o acovardamento e a disposição de delegar a guerra aos guerreiros. Não é estranho que os temas relacionados a Ovnis se concentrem em arquivos, registros, protocolos e ações militares. O medo gerado pela ameaça não lança o indivíduo para uma aventura coletiva, mas para a dureza de sua exclusiva sobrevivência. Notícias sobre Ovnis amedrontam indivíduos e fortalecem agências de segurança.

O fato de nos dois últimos anos termos enfrentado, do alto de nossa arrogância de seres superiores, uma massa de seres desconhecidos e inferiores, ínfimos e que nos ameaçavam a vida, não fez de nós uma civilização unida em busca da vida coletiva. As vacinas, antes de terem sido produtos da ciência, foram produtos da indústria, e salvaram-se apenas aqueles que estavam sob a égide dos governos que puderam e quiseram pagar pelas armas que estavam à venda. A tão temida invasão alienígena não passaria ao largo desse comportamento. A luta nunca é ou será de um exército ou de uma ciência contra um inimigo comum e em prol da humanidade como um todo, mas de um exército para favorecer a si e alguns amigos.

Tiago de Castilho Soares – Doutor em Sociologia Política/UFSC, autor do livro “Désceo Machado nas chanchadas do CBN Brasil”, 2021 (@tiagodecastilhosoares).

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Redação

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