Hollywood ao resgate da Ucrânia: guinada geopolítica dos EUA e primeiro dominó multipolar, por Wilson Ferreira

Uma guinada geopolítica que abandona a tática “boots on ground” para se dedicar à guerra híbrida e cibernética.

Hollywood ao resgate da Ucrânia: guinada geopolítica dos EUA e primeiro dominó multipolar

por Wilson Roberto Vieira Ferreira

The Last Minute Rescue! Hollywood vem ao resgate da Ucrânia! Em meio à destruição das suas forças armadas sob a blitzkrieg russa, o presidente-ator-comediante Vlodimir Zelensky arrumou tempo para a canastrice diante da câmera de outro ator: Sean Penn, que faz um documentário sobre a crise ucraniana. Aparentemente nenhuma novidade: Hollywood é o braço imaginário armado dos EUA. Apenas aparentemente: por trás há uma guinada geopolítica dos EUA, iniciada com a saída do Afeganistão. E agora, abandonando a Ucrânia à própria sorte, como isca para atrair a guerra territorial russa. Mas não sem antes render uma boa mais-valia semiótica: a construção da narrativa da Guerra Fria 2.0 – Putin como um nostálgico da velha União Soviética. Uma guinada geopolítica que abandona a tática “boots on ground” para se dedicar à guerra híbrida e cibernética. Diante de uma nova ordem mundial multipolar que, por exemplo, prejudica as sanções contra a Rússia: se acontecerem, poderão ser o primeiro dominó da desdolarização da economia mundial.

Hollywood ao resgate! Se o presidente norte-americano “Sleep Joe” Biden e a OTAN largaram o presidente-ator-comediante Zelensky à própria sorte depois que o Ocidente despertou o grande urso do Leste e pulou fora, isso não significa que, mesmo no cadafalso de Putin, o presidente ucraniano ainda não renda uma boa mais-valia semiótica.

Enquanto as Forças Armadas eram destroçadas pela blitzkrieg russa, e o líder-ator ucraniano exortava pela TV a população a pegar em armas e ir às ruas enfrentar o invasor, Zelensky arrumou um tempinho para conceder uma entrevista ao ator Sean Penn. 

Rápido no gatilho e com o faro habitual de conseguir uma boa história, em pleno primeiro dia da invasão russa, lá estava Mister Penn (representante da “esquerda” de Hollywood) percorrendo escritórios do governo ucraniano e conversando com líderes militares.

Enquanto o mundo assistia perplexo a invasão russa, Penn, 61 anos, um perseguidor de dramas (já se meteu na linha de fogo do cartel em 2016 depois de entrar em contato com o traficante fugitivo El Chapo) sentou-se com seus óculos escuros na primeira fila da coletiva de imprensa nos escritórios do governo ucraniano, na noite de quinta-feira, horário local. 

Biden não enviou tropas americanas para o conflito. Não precisava: como sempre em períodos de guerra, Hollywood é a arma imaginária mais forte dos EUA. Mas isso não é novidade, desde a II Guerra Mundial.

Porém, a novidade é aquela que até agora a grande mídia não conseguiu entender, em seu costumeiro delay diante das repentinas mudanças geopolíticas: desde a retirada das tropas americanas no Afeganistão e a retomada da capital Cabul pelo Talibã, no ano passado, os EUA estão dando uma guinada geopolítica – no lugar de guerra eternas, “boots on ground”, o combate ao terror e o desgaste de ver sacos plásticos com corpos de soldados americanos voltando para casa, substitui-las por guerras híbridas e/ou cibernéticas.

Depois da retirada no Afeganistão, agora é a vez de abandonar a Ucrânia do presidente Zelensky, depois do Ocidente manter com armas e dinheiro as forças armadas e grupos neonazistas, além da promessa de integrar o país à OTAN – para instalar bases militares com mísseis apontados para Moscou.

O bom rendimento semiótico

Mas se a retirada do Afeganistão foi um fiasco (gerando comparações com a humilhante fuga das tropas norte-americanas em Saigon, na guerra do Vietnã nos anos 1970), dessa vez a retirada foi planejada para produzir um bom rendimento semiótico:

(a) A OTAN dificultou ao máximo as negociações com Putin, muitas vezes se fazendo de surda, além de descumprir a promessa feita após o fim da Guerra Fria de que a Organização do Tratado do Atlântico Norte não iria se expandir para o Leste Europeu;

(b) Acionou a correia de transmissão das agências de notícias ocidentais para criar uma suposta percepção de que era iminente a invasão russa na Ucrânia;

(c) Encheu o presidente-ator-comediante Zelensky com a esperança de que, em caso de invasão, não ficaria sozinho e que, no last minute rescue, a OTAN chegaria com a cavalaria;

(d) Grupos neonazistas foram atiçados a aumentarem os ataques às províncias separatistas, de etnia majoritária russa, de Donetski e Luhansk, na região de Donbass – especialmente oprimida por milícias neonazistas desde o golpe de 2014 (nos moldes de “Revolução Popular Híbrida” ocorrida no Brasil em 2016), proibindo a língua russa em todo o país.

Provocado, só restou a Putin a alternativa de invasão total da Ucrânia, confirmando a profecia autorrealizável da grande mídia ocidental. 

O rendimento semiótico foi notável: a construção narrativa da Guerra Fria 2.0 – Putin supostamente teria ambições expansionistas… um tirano que governa sozinho e que assusta o mundo…um autocrata que projeta o reerguimento da velha União Soviética. 

Em outras palavras, o Ocidente deixou o desgaste da guerra territorial (o desgaste de imagem, opinião pública etc.) para a Rússia, e, definitivamente, concretizando a guinada geopolítica da dupla EUA-OTAN: abandonar a guerra territorial para se especializarem na guerra orbital (manter os aliados unidos sob a angústia e terror da possibilidade da guerra mundial) e guerra híbrida.

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Wilson Ferreira

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