Israel de Netanyahu é o sonho erótico totalitário da extrema direita brasileira, por Wilson Ferreira

Há um projeto subterrâneo que envolve a conquista do imaginário coletivo através do fetichismo das armas, guerra e meganhagem

Israel de Netanyahu é o sonho erótico totalitário da extrema direita brasileira

por Wilson Roberto Vieira Ferreira

Orgulhosamente policiais de SP “escoltam” reservistas israelense no embarque para a guerra Israel/Hamas; numa ação conjunta entre Polícia e Exército, 45 militares invadem uma comunidade em Guarulhos/SP atrás de armas furtadas do Exército; na primeira leva de brasileiros repatriados, uma excursão religiosa ostenta orgulhosamente a bandeira de Israel enquanto canta o hino nacional; após Rio arder em chamas, grande mídia ansiosamente aguarda que Governo parta para o enfrentamento com tropas da Força Nacional; no dia seguinte à morte de aluna em atentado numa escola estadual, o governador de SP anuncia seguranças privados em escolas. Se preferir, podemos tomar esses eventos como acontecimentos isolados. É mais tranquilizador. Porém, há um projeto subterrâneo que envolve a conquista do imaginário coletivo através do fetichismo das armas, guerra e meganhagem: o sonho erótico totalitário de um Estado análogo ao Estado militarizado de Israel de Netanyahu.  

No dia 13 desse mês as polícias Civil e Militar de SP montaram uma operação espacial para “garantir” o embarque de 175 reservistas das Forças Armadas de Israel no Aeroporto Internacional de Guarulhos. Foram policiais do Grupo Especial de Reação (GER), pertencentes ao Departamento de Operações Policiais Estratégicas (Dope) que “escoltaram” os reservistas israelenses. Forte esquema policial no aeroporto, observados por civis curiosos com o espetáculo ostensivo de uniformes de camuflagem e metralhadoras – na verdade, uma grande tietagem de policiais “babando” enquanto acompanhavam os heróis armados embarcando para uma guerra de verdade. Posando para fotos com uma bandeira de Israel orgulhosamente estendida.

Esse parece ser o sonho erótico da extrema direita brasileira (principalmente nas hostes dos órgãos policiais e do PMiG (o Partido Militar Golpista): Israel de Netanyahu é a consumação de um sonho extremista – o Estado finalmente ocupado pela beligerância militar numa guerra santa legitimada por versículos bíblicos.

E o Estado governado pelo militar Tarcísio de Freitas parece estar decidido a transformar São Paulo no laboratório de um grande experimento de engenharia social que persegue esse sonho. Sabemos como tudo começa: controlando o imaginário. Para começar, na Educação – já podemos acompanhar os primeiros movimentos do secretário da Educação Renato Feder: apostilas com slides de PowerPoint impressos e meganhacização do universo escolar, por exemplo, através de seguranças privados fazendo as vezes de bedéis – voltaremos a esse ponto adiante.

E, depois da chacina da Operação Escudo no Guarujá, mais um degrau na escalada de beligerância: no dia 31, Exército e Polícia Militar fizeram uma operação conjunta em uma busca fracassada das últimas quatro das 21 metralhadoras furtadas em setembro do Arsenal de Guerra de Barueri – fracassada em seu objetivo de busca e apreensão. Mas um sucesso em termos de repercussão imaginária.

Com imagens aéreas ao vivo pela TV, Polícia do Exército (PE) e Comando de Operações Especiais (COE) invadiram de forma ostensiva (45 militares e oito viaturas) uma comunidade em Guarulhos. As armas não foram encontradas, nenhum suspeito preso… mas rendeu um show com meganhas armados até os dentes, invadindo casas, ruas e ruelas nas primeiras horas da manhã, pegando moradores de surpresa que se preparavam para sair ao trabalho.

 Aliás, o furto das 21 metralhadoras do Arsenal de Barueri levanta algumas dúvidas justificadas: timing perfeito porque entrou como mais uma peça na engrenagem nesse experimento social em pleno andamento no Estado de São Paulo.

A grande mídia se esforçou em qualificar o furto como uma exceção, um ponto fora da curva em uma instituição tão “legalista” – sobrando para os soldados rasos que acabaram aquartelados. Certamente, não para os comandantes descobrirem quem facilitou o furto, mas para encontrar quem VAZOU a informação para a imprensa.

Sabemos que é comum encontrar armas de uso exclusivo das Forças Armadas nas mãos dos narcotraficantes em qualquer parte do País. A promiscuidade entre militares e forças policiais com o crime organizado é notória e noticiada até mesmo pelo próprio jornalismo corporativo. Na verdade, o escândalo nesse caso foi: QUEM vazou para a imprensa o furto, ameaçando expor um modus operandi subterrâneo? 

Qual modus operandi? A estratégia do PMiG de militarizar a máquina do Estado para além da simples ocupação de militares em ministérios e autarquias, como nos anos do governo Bolsonaro:  criar uma Estado policial e militar orientado para uma guerra santa, com o apoio da opinião pública fascinada pelo imaginário da beligerância e letalidade. Um imaginário que pode ser descrito da seguinte maneira: a certeza de que a vida é dura, somente aliviada pelo espetáculo de sacrifício de bodes expiatórios.

Somado aos episódios dos 35 ônibus queimados pelas milícias no Rio de Janeiro, a pressão midiática para que o ministro da Justiça Flavio Dino repita uma intervenção no Estado nos moldes da intervenção militar de 2018 (Força Nacional em situações de enfrentamento nas comunidades – para poder colar em Lula também a pecha de “genocida”) e os tiros em uma Escola Estadual em São Paulo, fecha-se, até o momento, essa etapa de controle do imaginário.

Apito de cachorro

Se estamos falando em modus operandi, o ataque a tiros que matou uma aluna na Escola Estadual Sapopemba, na zona leste de São Paulo, é mais um exemplo: repetindo a mesma característica, o atirador foi incentivado a cometer o atentado por integrantes de um grupo da plataforma de conversas em texto , voz e vídeo Discord, popular entre os jovens – horas antes do ataque, o jovem discutia preparos para a “missão” e perguntava qual a melhor maneira de posicionar o celular para transmitir o atentado ao vivo – clique aqui.

Em postagem anterior este Cinegnose discutia como jovens estão se transformando em um sinistro ativo (no caso de um ataque em São Paulo e uma creche em Blumenau/SC), uma espécie de Exército Psíquico de Reserva, sempre a postos para entrar em ação a cada “apito de cachorro” nas redes sociais – clique aqui.

Esse “apito de cachorro” que desencadeou o atentado na Escola Estadual Sapopemba teve um timingpreciso: no dia seguinte, o governador militar Tarcísio de Freitas, ombreado por carrancudos policiais militares com caras de buldogues, anunciava para a imprensa a contratação de mais de 700 seguranças privados – a meta é chegar a mil até o final do ano.

Dentro desse projeto da construção de um Estado policial-militar, “meganhar” a instituição escolar é um passo importante: tornar o fetiche de poder das armas, soldados e seguranças fascinante para corações e mentes. 

Mais do que isso: num nível mais abstrato, transformar esse fetiche numa constelação de categorias de pensamento, chaves de compreensão e aceitação da realidade ideal – o opoio a um próximo presidente de extrema direita. Quem sabe, a criatura bandeirante-frankenstein “Tarcisão”, recompensando Roberto Campos Neto como Ministro da Fazenda – depois dos ótimos serviço no BC em criar obstáculos ao revival das medidas desenvolvimentistas de Lula.

Nesse projeto, o controle do imaginário é de vital importância, porque cria o cimento social de apoio e ativismo. 

Mas para quê esse fetichismo em torno do poder das armas e shows de meganhagem? Ora, para justificar a guerra santa, a razão da existência de um Estado belicista e beligerante contra o inimigo externo (Israel) ou um inimigo interno (Brasil): combater o crime organizado em comunidades pobres em uma guerra tão ineficaz quanto enxugar gelo – mas o objetivo é esse mesmo: a guerra longa, tão longa como a prometida por Netanyahu.

Continue lendo no Cinegnose.

Wilson Ferreira

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