21 de junho de 2026

A promissora América Latina, por Saturnino Braga

 

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Motivação, por Saturnino Braga

Depois de Domenico de Masi dizer que o futuro está no Brasil, outro italiano ilustre, o filósofo Gianni Vattimo reconhece aquilo que nós brasileiros já sabemos e comentamos: que a única parte do mundo onde ocorrem hoje fatos políticos promissores de futuro é a América do Sul. Ele ainda fala de  América Latina, uma expressão que nós deixamos de usar desde que o México optou pela integração com a Federação Norteamericana.

O mais importante da entrevista é que Vattimo ressalta a importância do fator motivação do povo na obtenção de avanços políticos e econômicos significativos; para constatar, em desalento, que é justamente o que falta nos países europeus de hoje, onde a política foi substituída por governos técnicos comandados pelos grandes bancos. Ponho-me a pensar, agora, se não poderá a França, agredida tão brutalmente, mobilizar toda a Europa para responder à barbárie com uma escalada de Civilização. Quem sabe se daí não pode surgir a grande motivação do século XXI. Afinal, a França é a França na construção desta Civilização..

Voltando ao nosso Brasil, a referência de Vattimo me fez lembrar a intensa motivação nacional que caracterizou o exitoso período desenvolvimentista dos anos cinquenta do século passado, durante o Governo Kubitschek. A força da liderança do Presidente, a grandeza do projeto formulado e a competência política na sua condução produziram uma mobilização da consciência popular de enorme vibração. É certo que todo aquele projeto nacional avançava sobre uma linha ideológica traçada no período anterior, presidido pela figura maior de Getúlio Vargas e terminado tragicamente, deixando a força latente de uma ansiedade reprimida. Mas o fato é que a proposta de dar um salto na industrialização incipiente, com as duas novas siderúrgicas, Usiminas e Cosipa, com a indústria automobilística, a indústria naval, os pólos petroquímicos, as grandes hidrelétricas de Furnas e Três Marias, as rodovias modernas que ligavam o País de norte a sul, e o projeto símbolo de novo Brasil, a construção da nova e bela capital no planalto central, propiciando a ocupação do enorme território vazio do centro-oeste, todo este conjunto de propostas, formulado de maneira convincente, produziu um grau de mobilização da vontade nacional realmente extraordinário.

Havia, sim, uma oposição, que tentou impedir a posse de Juscelino e depois dar o golpe militar aeronáutico, mas o sentimento popular de aclamação e participação nos grandes feitos sufocou completamente todas as críticas udenistas.

A importância da motivação política se confirmou meio século depois, com a eleição do Presidente Lula em 2002. Convocou-se novamente uma mobilização nacional de grande envergadura, baseada, desta feita, na rejeição do neoliberalismo mercadista e privatista, e na retomada do desenvolvimentismo, agora em novo modelo que incluía uma dimensão social, redistributiva. O símbolo da grande motivação era a própria figura do Presidente, um torneiro mecânico sindicalista de extraordinária capacidade de liderança.

Lula terminou seus oito anos com alto índice de aprovação, mas ao fim do seu segundo mandato a oposição cresceu consideravelmente, com o desgaste natural do exercício do poder, usando o mesmo tema da corrupção utilizado contra Vargas e Kubitschek, mas a mobilização popular que apoiava o novo modelo ainda foi capaz de eleger a sucessora, uma e duas vezes.

O quadro político para o segundo mandato da Presidenta é entretanto muito mais difícil: pela força adquirida pela oposição em nova ofensiva anticorrupção, pelas dificuldades da situação econômica e pelo natural arrefecimento da força mobilizadora do novo modelo com o passar do tempo. Pessoalmente, eu arrolo uma quarta causa, poderosíssima, talvez a mais difícil de enfrentar: os interesses do grande capital em destruir duas outras novas dimensões da nova política brasileira: o controle nacional do seu petróleo e as alianças políticas com os emergentes BRICS.

Este quadro de dificuldades pode se configurar numa espécie de atoleiro em que o País se arraste pelos quatro anos próximos, com um grau de motivação relativamente baixo, mesmo que ocorra uma certa recuperação econômica. Mas pode também surgir oportunidade para uma nova convocação da motivação popular. E a oportunidade pode decorrer justamente do estrepitoso ataque que sofre a Petrobras por todos os lados, numa evidente tentativa de destruí-la para tirar dos brasileiros o controle da sua grande reserva de petróleo. Uma ação coordenada que compreende uma forte e artificial baixa do preço do petróleo, evidenciando o propósito do grande capital de quebrar a Petrobras e a Pedevesa venezuelana. Não por acaso, a Presidenta Dilma referiu-se a inimigos externos da Petrobras e marcou sua primeira viagem em seu novo mandato para a Venezuela.

A pesadíssima campanha da mídia, que produziu grande efeito eleitoral em outubro a favor da oposição, começa agora, pela continuidade infindável e pelo despropósito da intensidade, começa a revelar o seu verdadeiro objetivo, e a levantar reações populares que podem vir a recarregar as energias da mobilização nacional. Mobilização para a defesa da maior e mais querida empresa brasileira vitimada por uma verdadeira guerra. O Brasil pode bem se valer desta guerra para renovar as desgastadas energias de motivação popular, decisivas no processo de desenvolvimento, como ressaltou Gianni Vattimo.

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

5 Comentários
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  1. nem nem

    19 de janeiro de 2015 6:44 pm

    [  Ponho-me a pensar, agora,

    [  Ponho-me a pensar, agora, se não poderá a França, agredida tão brutalmente, mobilizar toda a Europa para responder à barbárie com uma escalada de Civilização.]]  a venha visão besta de que FrançEuropa seria o civilizado e grande parte do mundo muçumano (EI, irá, ..) seriam bárbaros, quando a difrença é entre os exploradores de gente e os que apenas vivem pelo amor da   fé

    1. Jean Baptiste

      19 de janeiro de 2015 7:40 pm

      nem nem, acredito que o

      nem nem, acredito que o comentarista quis se referir a falta de política e excesso de executivos/bancos mandando na vida dos europeus.

  2. altamiro souza

    20 de janeiro de 2015 1:39 am

    ótimo texto do

    ótimo texto do saturnino.

    relembrando uma

    importante época da nossa história.  

    espero que este agora seja mesmo uma boa oportunidade de

    podermos avançar mais socialmente.

  3. Frederico Füllgraf

    20 de janeiro de 2015 3:22 am

    Post não faz jus ao título

    Prezado Saturnino Braga, 

    seu texto estendeu-se à análise dos desafios brasileiros e, exceção feita  à única linha dedicada à Venezuela,

    nada, absolutamnente nada foi dito que justificasse o título de seu post. 

    Uma pena! Porque há, sim, processos em curso, na América Latina (da qual o México faz parte, por óbvio

    histórico sócio-cultural) que são muito promissores, mas que seu texto solenemente ignora.

    Saudações.

  4. Calvin

    20 de janeiro de 2015 12:33 pm

    Incapacidade de ver a realidade ao redor

    Brasil, Argentina, Venezuela e Equador: o esquerdismo sul-americano em crise

    Como governadores populistas estão destruindo as economias dos países mais ao sul da América

    Por Marlos Ápyus

    dilma-maduro-e-cristina

    Na mais recente polêmica, numa cena que remetia a um suicídio, surgiu morto Alberto Nisman, um promotor federal que estava prestes a apresentar no Congresso denúncias acerca da cobertura da presidente Cristina Kirchner à ataques terroristas ocorridos em Buenos Aires. As primeiras falas oficiais já se apressam a confirmar a versão de que o próprio falecido, que dizia sofrer ameaças de morte, teria disparado a arma de calibre 22 contra a cabeça, mas mais dedois terços dos argentinos não acreditam nessa leitura dos acontecimentos.

    Contudo, está longe de ser esta a única crise enfrentada pela presidente do país vizinho. Depois de tecnicamente dar mais um calote em seus credores, abusou do protecionismo e viu a Argentina incapaz de substituir as importações. O ano começou com os vice-campeões mundiais de futebol enfrentando uma crise de desabastecimento, com falta de autopeças, produtos químicos, livros, remédios e diversos insumos industriais no mercado. Uma realidade que ao menos um outro parceiro bolivariano conhece bem.

    A crise venezuelana completa seu primeiro ano de vida com quase 40 mortes em seus protestose cenas que espelham o fundo do poço econômico o qual o chavismo reservou ao país. Se em 2014 a violência parecia ser a gota d’água para a população, o desabastecimento tão recorrente no “socialismo do século XX” volta em 2015 para mostrar que não é fruto do embargo de nenhuma nação inimiga, mas de ideias que fazem vista grossa a conceitos básicos de economia. Nas imagens, venezuelanos fazem gigantescas filas nos mercados e exibem os braços numerados, sempre com o receio de expor o rosto.

    venezuela2venezuela

    Com o preço do barril de petróleo em queda, a fonte que ainda dava algum sustento à gestão de Maduro começou a secar. A solução, a exemplo do que ocorria no século anterior, foi buscar empréstimos junto a gigantes vermelhos no outro lado do planeta. Como a União Soviética não mais existe, a bola da vez foi a toda poderosa China. E assim, acompanhada do também bolivariano Equador, a Venezuela voltou do oriente ao menos 27,5 bilhões de dólares mais endividada. Quem precisa de FMI quando se pode recorrer a uma ditadura comunista?

    Reeleito ainda no primeiro turno no início de 2013, Rafael Correa viu em 2014 o crescimento PIB do Equador cair a zero após uma expectativa de 2,5%. Para este ano, as notícias seguem desanimadoras. O déficit em conta corrente deve subir de 1,5% para 8% do Produto Interno Bruto. Quanto ao déficit fiscal, deve ir de 5% para 10%. Com a economia amarrada ao dólar, a solução para ajustar as contas do país vem sendo o corte de gastos, mesmo que envolva prejuízos aos servidores públicos, que findaram perdendo um reajuste de 5% nos salários.

    Porque o esquerdismo vem sendo contido por uma base aliada que pouca afeição ideológica mantém com o PT, o brasileiro só aos poucos passa a ter contato com os efeitos colaterais do “bonde do esquerdismo sem freios”. O desabastecimento não surge aos moldes do ocorrido no governo Sarney, mas fato é que o Brasil sofre com escassez de água e, por consequência, de energia. Se há um fator natural que impõe esta seca por cá, há também a imprudência de um governo que, diante de crises como a de 2008, quando o sensato seria sugerir cautela e contenção de gastos, estimulou ao máximo toda forma de consumo. No curto prazo, a medida garantiu um 2010 com crescimento a 7,5% (o maior desde, vejam só, o Plano Cruzado do hoje aliado Sarney) e a eleição de Dilma para dar continuidade ao trabalho de Lula. No médio, o caos. A população segue endividada, o país enfrenta ondas de protestos, a inflação estoura o teto da meta, a violência cresce, as contas não fecham e a corrupção explode. Até a falácia do desemprego baixo já vem fraquejando diante de algumas manchetes.

    Houve um esforço para negar o óbvio após as últimas eleições, mas o fato é que o Brasil encontra-se dividido. Há uma metade que percebeu não só a repetição de erros passados, mas o padrão de equívocos cometidos ao sul da América e achou por bem dizer não à continuidade do governo petista. E há uma outra metade – com leve vantagem numérica – custando a aceitar a verdade que até o PT já vem reconhecendo internamente (e às vezesexternamente): a de que o partido errou e precisa mudar. O problema é que o custo de tanto erro é caro, muito caro. E a conta será paga por ambas as metades, independente dos votos que depositaram nas urnas

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