A Vitória de Lula em 2026: Análise do comportamento eleitoral nos estados brasileiros nas eleições presidenciais de 2026
por Luiz Alberto dos Santos
Em 25 de outubro de 2026, o eleitorado brasileiro compareceu novamente às urnas, e Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito para exercer, a partir de 5 de janeiro de 2027, o seu quarto mandato presidencial, o sexto de um presidente eleito pelo Partido dos Trabalhadores.
Foi uma jornada eleitoral surpreendente e inédita. Após perder a eleição para Flávio Bolsonaro no primeiro turno, por uma diferença de 2,24 milhões de votos, e estar diante do desafio de reduzir a abstenção, votos nulos e brancos, que totalizaram 39,4 milhões de eleitores, Lula conseguiu o fato inédito de ampliar em 10,376 milhões os seus votos, enquanto seu oponente teve aumento de apenas 3,7 milhões de votos.
Em comparação com a eleição de 2022, quando venceu a eleição em segundo turno por apenas 2,1 milhões de votos (60,345 milhões, contra 58,206 milhões de Jair Bolsonaro), em 2026 a vitória de Lula foi muito mais expressiva e significativa, em diversas dimensões.
A começar pela relevância que a defesa da democracia assumiu no segundo turno: muitos eleitores foram votar, em segundo turno, para evitar a vitória de Flávio Bolsonaro, por tudo que sua eleição representaria.
O fenômeno não é inédito no mundo, embora seja a primeira ocorrência no Brasil em que um candidato consegue “virar” o resultado entre primeiro e segundo turnos, num contexto diferenciado em que as redes sociais, as fake news e a mobilização popular assumiram protagonismo inédito.
Como ocorreu no caso brasileiro, as eleições europeias recentes demonstram que a vantagem obtida por candidatos de direita, especialmente da direita nacionalista e radical, no primeiro turno não assegura sua vitória no segundo. Em diversos países, a convergência de eleitores de centro, esquerda e direita moderada, associada à redistribuição dos votos dos candidatos eliminados e, em alguns casos, ao aumento do comparecimento, produziu reversões expressivas.
O exemplo mais significativo ocorreu na Romênia, em maio de 2025. George Simion, líder da direita nacionalista, venceu o primeiro turno com 40,96% dos votos, praticamente o dobro dos 20,99% recebidos pelo candidato independente e pró-europeu Nicușor Dan. Entretanto, no segundo turno, Dan venceu com 53,60%, contra 46,40% de Simion. Sua votação saltou de 1,98 milhão para 6,17 milhões de votos, enquanto a participação eleitoral aumentou de 53,2% para 64,7%. A diferença entre os candidatos sofreu uma inversão de aproximadamente 27 pontos percentuais, evidenciando o impacto combinado da convergência eleitoral e da mobilização de novos votantes.
Na Áustria, em 2016, ocorreu fenômeno semelhante. Norbert Hofer, do Partido da Liberdade (FPÖ), de direita radical, venceu o primeiro turno com 35,1%, contra 21,3% de Alexander Van der Bellen, candidato independente associado aos Verdes. Após a anulação do segundo turno de maio por irregularidades procedimentais, uma nova votação, em dezembro, deu a vitória a Van der Bellen, com 53,8% dos votos. O comparecimento cresceu de 68,5% para 74,2%, demonstrando a importância da ampliação da participação e da formação de uma maioria eleitoral mais abrangente.
Na Eslovênia, em 2022, o conservador Anže Logar liderou o primeiro turno presidencial com aproximadamente 34%, superando a independente Nataša Pirc Musar, que recebeu cerca de 27%. No segundo turno, Pirc Musar venceu com 53,89%, reunindo apoios de diferentes setores políticos, especialmente de centro e centro-esquerda.
A França oferece dois exemplos distintos. Na eleição presidencial de 2022, Emmanuel Macron, que havia ficado em primeiro lugar no primeiro turno, ampliou sua votação expressivamente e derrotou Marine Le Pen por 58,55% a 41,45%, embora ela também tenha ampliado significativamente sua votação. Já nas eleições legislativas de 2024, a Reunião Nacional liderou o primeiro turno, mas uma estratégia de retirada coordenada de candidaturas de esquerda e centro contribuiu para impedir que o partido conquistasse a maior bancada parlamentar.
Esses resultados revelam um mecanismo recorrente: candidatos de direita podem possuir eleitorados expressivos e relativamente consolidados, mas encontrar dificuldades para conquistar apoios adicionais suficientes no segundo turno, quando o eleitorado percebe os riscos implícitos em sua eleição, seja por acenarem com medidas de redução de gastos sociais e cortes de direitos, seja por seu viés autoritário.
O paralelo com o Brasil de 2026 é particularmente relevante. Flávio Bolsonaro liderou o primeiro turno, mas Lula ampliou sua votação de forma surpreendente, revertendo o resultado. A redução das abstenções e dos votos brancos e nulos também contribuiu para a expansão dos votos válidos.
A experiência europeia sugere, portanto, que o segundo turno não representa simplesmente a repetição da disputa inicial. Ele reorganiza as alternativas eleitorais e pode produzir maiorias diferentes, sobretudo quando um candidato consegue ampliar seus apoios para além da própria base, como fez Lula em 2026. Isso não significa, entretanto, que exista uma tendência inevitável de derrota da direita: na Polônia, em 2025, o conservador Karol Nawrocki venceu o segundo turno presidencial, demonstrando que os resultados dependem das circunstâncias políticas e eleitorais específicas.
Analisaremos, a seguir, os resultados da eleição brasileira, comparando os dados de votação do primeiro turno com o segundo turno.
1. Síntese dos resultados: uma alteração importante na distribuição dos votos
Também foi fato inédito, na eleição de 2026, o fato de o Supremo Tribunal Federal haver acatado pedido de prorrogação do horário de votação. O Min. Cristiano Zanin, acatando pedido na Reclamação nº 101.673, determinou, às 17h do dia 25.10.2026, a prorrogação por duas horas, em vista de ocorrências diversas denunciadas pela Coligação Brasil Pronto para Mais de interferências para impedir o acesso de eleitores aos locais de votação. Essa decisão, que gerou acusação do candidato derrotado e ameaça de pedir a anulação da eleição, por “quebra de isonomia” foi, contudo, relativizada: somente as urnas que ainda estavam “abertas” puderam receber novos votos e dados do TSE apontam que, em todo o Brasil, apenas 7.552 urnas continuaram recebendo votos, e ao total foram depositados apenas 5.052 votos, ou seja, sem a mínima interferência nos resultados.
A presente análise utiliza os dados consolidados de resultados eleitorais de 2026, abrangendo as 27 unidades da Federação, a votação no exterior e os resultados nacionais dos dois turnos. São examinadas as variações absolutas e relativas da votação dos finalistas, a distribuição dos votos recebidos pelos candidatos eliminados no primeiro turno, a evolução do comparecimento eleitoral e as diferenças regionais na composição dos resultados.
A comparação dos resultados do primeiro e do segundo turnos das eleições presidenciais brasileiras de 2026 revela mudanças significativas na distribuição territorial dos votos, na participação eleitoral e no desempenho relativo dos dois candidatos que disputaram a etapa final: Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Os dados evidenciam que a reversão da vantagem obtida por Flávio Bolsonaro no primeiro turno decorreu de um crescimento proporcionalmente maior da votação de Lula, acompanhado de redução das abstenções e dos votos brancos e nulos. Esse movimento ocorreu em intensidades distintas entre as unidades da Federação, com consequências relevantes para a composição do resultado nacional.
De acordo com os dados do Tribunal Superior Eleitoral, já com 100% dos votos contabilizados, Lula passou de 53,88 milhões para 64,26 milhões de votos, enquanto Flávio Bolsonaro passou de 56,10 milhões para 59,83 milhões.
| Candidato | Acréscimo em votos | % de crescimento |
| Lula | +10,38 mi | +19,3% sobre o 1º turno |
| Flávio Bolsonaro — crescimento | +3,72 mi | +6,6% sobre o 1º turno |
Fonte: TSE. Elaboração nossa.
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro obteve 56.104.503 votos, correspondentes a 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 53.879.538 votos, equivalentes a 45,16%. A diferença entre ambos foi de 2.224.965 votos, favorável a Flávio Bolsonaro. Os demais candidatos somaram 9.316.747 votos, aproximadamente 7,81% dos votos válidos.
No segundo turno, Lula alcançou 64.256.232 votos, ou 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, correspondentes a 48,21%. A diferença passou a ser de 4.430.191 votos em favor de Lula, representando uma alteração de 6.655.156 votos na distância absoluta entre os candidatos:
| Candidatos | Votação | ||
| 1º turno | 2º turno | Variação | |
| Lula | 53.879.538 | 64.256.232 | +10.376.694 |
| Flávio Bolsonaro | 56.104.503 | 59.826.041 | +3.721.538 |
| Demais candidatos | 9.316.747 | — | — |
| Votos brancos | 2.300.798 | 1.430.496 | −870.302 |
| Votos nulos | 3.674.249 | 2.723.305 | −950.944 |
| Abstenções | 33.469.244 | 30.509.005 | −2.960.239 |
Fonte: TSE. Elaboração nossa.
O crescimento da votação de Lula foi de 10.376.694 votos, equivalente a 19,26% de sua votação no primeiro turno. Já Flávio Bolsonaro obteve 3.721.538 votos adicionais, um crescimento de 6,63%. Em números absolutos, portanto, o aumento da votação de Lula foi aproximadamente 2,8 vezes o registrado por Flávio Bolsonaro.
Um aspecto particularmente relevante é que o crescimento conjunto da votação dos finalistas, de 14.098.232 votos, superou em aproximadamente 4,78 milhões o total recebido pelos candidatos eliminados no primeiro turno. Essa diferença corresponde contabilmente ao aumento líquido do comparecimento e à redução dos votos brancos e nulos.
A taxa nacional de abstenção diminuiu de aproximadamente 21,08% para 19,22%, uma redução de 1,86 ponto percentual. Em termos absolutos, quase três milhões de eleitores adicionais compareceram às urnas no segundo turno. Ao mesmo tempo, os votos brancos diminuíram 37,83% e os votos nulos, 25,88%, representando uma redução conjunta de 1.821.246 votos.
Esses resultados demonstram que o segundo turno não consistiu apenas na redistribuição dos votos dos candidatos eliminados. Houve também mudanças relevantes na participação eleitoral e na proporção de votos válidos, fatores que ampliaram o universo de votos efetivamente distribuídos entre os dois finalistas.
Contudo, esses dados não permitem concluir que todos os eleitores dos candidatos eliminados tenham optado por um dos finalistas, nem que os eleitores que passaram a comparecer às urnas tenham favorecido predominantemente determinado candidato. A alteração líquida resulta de movimentos simultâneos que não podem ser individualizados apenas a partir dos resultados agregados.
2. Os votos dos candidatos eliminados e os limites da influência dos apoios políticos
A distribuição dos votos recebidos pelos candidatos eliminados no primeiro turno constitui elemento importante para compreender a disputa no segundo turno.
Os dez candidatos que não avançaram à etapa final receberam 9.316.747 votos. Desse total, Augusto Cury obteve 3.448.569 votos, Renan Santos recebeu 2.675.887 e Ronaldo Caiado, 2.605.148. Juntos, esses três candidatos concentraram aproximadamente 93,7% dos votos destinados aos concorrentes que não participaram do segundo turno.
Os demais candidatos tiveram votações significativamente inferiores: Romeu Zema obteve 326.488 votos; Samara, 122.911; Hertz Dias, 43.103; Clariana Barão, 40.043; Edmilson Costa, 22.693; Wilson Grassi, 16.881; e Rui Costa Pimenta, 15.024.
Conforme os apoios políticos declarados pelos candidatos derrotados, Ronaldo Caiado, Clariana Barão, Augusto Cury e Romeu Zema apoiaram Flávio Bolsonaro no segundo turno. Renan Santos não declarou apoio a nenhum candidato. A soma dos votos dos quatro candidatos que passaram a apoiar Bolsonaro alcançou 6.420.248 votos, correspondentes a aproximadamente 68,9% da votação dos candidatos eliminados.
Entretanto, Flávio Bolsonaro ampliou sua votação em 3.721.538 votos, quantidade inferior à soma dos votos recebidos pelos candidatos que declararam seu apoio.
A diferença é relevante para a análise da capacidade de transferência de votos por meio dos apoios políticos. O endosso público de um candidato derrotado não significa, necessariamente, que seus eleitores acompanharão sua orientação no segundo turno. As preferências eleitorais são individuais, e os eleitores podem considerar outros fatores, inclusive diferenças programáticas, rejeição a determinado candidato, avaliação do governo e percepção sobre as alternativas disponíveis.
Não é metodologicamente possível, entretanto, atribuir a diferença observada a uma transferência específica de votos para Lula. Uma parte dos eleitores dos candidatos eliminados pode ter votado em Flávio Bolsonaro, outra em Lula, enquanto outros podem ter optado pela abstenção ou pelo voto branco ou nulo. Também podem ter ocorrido mudanças de preferência entre eleitores que votaram nos dois finalistas no primeiro turno.
A votação de Renan Santos, de aproximadamente 2,68 milhões de votos, também representa um contingente importante para a análise. Sua dimensão corresponde a cerca de 28,7% dos votos dos candidatos eliminados, o que justifica investigação específica sobre a distribuição territorial de seu eleitorado e os resultados observados nas localidades em que obteve maior votação.
A principal constatação é que os apoios políticos declarados não podem ser tratados como transferências automáticas de votos, sendo indispensável considerar a autonomia das escolhas individuais e a mudança de composição do eleitorado votante entre os turnos.
3. A distribuição territorial da mudança eleitoral
A análise estadual revela um dos fenômenos mais expressivos das eleições de 2026: em todas as 27 unidades da Federação, a diferença percentual entre os dois finalistas evoluiu em favor de Lula, embora Flávio Bolsonaro tenha preservado a maioria dos votos válidos em diversos estados.
Esse movimento pode ser identificado tanto pela ampliação das vantagens de Lula nos estados onde já liderava quanto pela redução das vantagens de Flávio Bolsonaro nos estados onde permaneceu à frente.
A intensidade do deslocamento também variou consideravelmente. Os maiores aumentos da margem eleitoral favorável a Lula ocorreram no Rio de Janeiro, com 7,39 pontos percentuais; Alagoas, com 7,26; Sergipe, com 6,95; Paraíba, com 6,69; e Rio Grande do Norte, com 6,46 pontos percentuais.
Em contrapartida, os menores deslocamentos foram registrados em Rondônia, com 2,34 pontos percentuais; Acre, com 2,69; Santa Catarina, com 2,77; Goiás, com 3,22; e Roraima, com 3,28 pontos percentuais.
Maiores deslocamentos da margem eleitoral em favor de Lula
| Unidade da Federação | Deslocamento da margem |
| Rio de Janeiro | +7,39 pp |
| Alagoas | +7,26 pp |
| Sergipe | +6,95 pp |
| Paraíba | +6,69 pp |
| Rio Grande do Norte | +6,46 pp |
| São Paulo | +6,04 pp |
| Maranhão | +5,99 pp |
| Pernambuco | +5,98 pp |
| Ceará | +5,84 pp |
| Minas Gerais | +5,78 pp |
Fonte: TSE. Elaboração nossa. A margem corresponde à diferença entre os percentuais dos dois candidatos sobre o total de votos válidos em cada turno. Valores positivos indicam deslocamento em favor de Lula.
A abrangência territorial desse deslocamento indica que a mudança não ficou restrita a uma região ou a determinados estados. Entretanto, sua contribuição para o resultado nacional dependeu diretamente do tamanho dos respectivos eleitorados.
Assim, estados com deslocamentos percentuais relativamente moderados, mas com grande número de eleitores, puderam contribuir mais para a alteração nacional da diferença de votos do que estados menores com mudanças percentuais mais intensas.
4. A importância do Sudeste para a alteração do resultado nacional
A tabela a seguir demonstra a variação percentual, por UF, na votação dos dois candidatos, votos em branco, nulos e abstenções:
Variações entre Primeiro e Segundo Turnos por UF
| UF | LULA | FLAVIO | BRANCOS | NULOS | ABSTENÇAO |
| AC | 7,23% | -4,98% | -10,09% | 19,91% | 27,63% |
| AL | 15,79% | 1,14% | -49,62% | -55,87% | -2,63% |
| AP | 4,92% | -6,41% | -24,80% | -31,23% | 46,31% |
| AM | 9,44% | -0,16% | -24,91% | 33,83% | 7,54% |
| BA | 14,48% | 6,80% | -40,16% | -30,46% | -16,30% |
| CE | 13,53% | 3,56% | -45,41% | -40,40% | -10,53% |
| DF | 22,14% | 7,69% | -11,73% | 23,78% | -8,48% |
| ES | 17,87% | 4,97% | -23,45% | 37,37% | -8,93% |
| GO | 33,37% | 14,30% | -5,32% | -25,42% | -6,84% |
| MA | 9,43% | -0,73% | -33,38% | -43,32% | 3,18% |
| MT | 19,34% | 4,04% | -25,66% | -35,32% | -5,66% |
| MS | 21,69% | 6,25% | -29,68% | -23,71% | -11,02% |
| MG | 22,40% | 8,04% | -38,82% | -26,88% | -10,90% |
| PA | 10,84% | 1,66% | -32,66% | -57,97% | 6,41% |
| PB | 16,41% | 4,07% | -50,39% | -50,53% | -10,57% |
| PR | 24,92% | 8,77% | -32,59% | -11,14% | -12,30% |
| PE | 15,86% | 5,44% | -48,16% | -40,34% | -16,43% |
| PI | 8,55% | 1,71% | -43,04% | -33,73% | 0,21% |
| RJ | 23,62% | 4,07% | -44,71% | -19,71% | -7,26% |
| RN | 14,19% | 2,35% | -39,89% | -6,16% | -12,64% |
| RS | 23,09% | 8,41% | -39,69% | -23,02% | -10,27% |
| RO | 17,47% | 3,28% | -15,08% | -14,23% | 0,95% |
| RR | 12,21% | -5,03% | -16,88% | -29,68% | 35,19% |
| SC | 25,83% | 7,33% | -29,47% | -3,85% | -10,50% |
| SP | 27,50% | 9,42% | -38,43% | -21,82% | -12,11% |
| SE | 15,54% | 3,71% | -47,16% | -37,78% | -9,17% |
| TO | 9,64% | -0,30% | -3,42% | 35,68% | 4,82% |
| EXTERIOR | 27,17% | 19,18% | -19,62% | 0,97% | -6,88% |
| BR | 19,26% | 6,63% | -37,83% | -25,88% | -8,84% |
Fonte: TSE. Elaboração nossa.
O Sudeste desempenhou papel central na mudança da diferença de votos entre os dois candidatos, especialmente em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Em São Paulo, Lula ampliou sua votação em 2.613.861 votos, enquanto Flávio Bolsonaro recebeu 1.217.155 votos adicionais. A diferença entre os respectivos crescimentos foi de aproximadamente 1,40 milhão de votos, a maior contribuição estadual para a alteração da diferença nacional entre os candidatos.
Apesar disso, Flávio Bolsonaro manteve a maioria dos votos válidos em São Paulo, embora sua vantagem tenha diminuído de aproximadamente 13,73 para 7,69 pontos percentuais.
O aumento da participação eleitoral também foi expressivo. As abstenções diminuíram em aproximadamente 932 mil eleitores, e os votos brancos e nulos recuaram conjuntamente em cerca de 443 mil.
Minas Gerais apresentou situação distinta. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com vantagem de aproximadamente 4,91 pontos percentuais dos votos válidos. No segundo turno, Lula passou a liderar por cerca de 0,87 ponto percentual, configurando uma inversão da maioria entre os dois candidatos.
A votação de Lula cresceu 1.162.163 votos no estado, enquanto a de Flávio Bolsonaro aumentou 464.238 votos. A diferença entre esses crescimentos, próxima de 698 mil votos, foi acompanhada de redução das abstenções e dos votos brancos e nulos.
No Rio de Janeiro, verificou-se o maior deslocamento percentual da margem eleitoral entre todas as unidades da Federação. A vantagem de Flávio Bolsonaro, de aproximadamente 13,60 pontos percentuais no primeiro turno, caiu para 6,20 pontos no segundo. Lula recebeu 872.372 votos adicionais, enquanto Flávio Bolsonaro ampliou sua votação em 202.189 votos.
Considerados conjuntamente, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro responderam por uma melhora de aproximadamente 4,07 milhões de votos na diferença absoluta em favor de Lula, equivalentes a cerca de 45% do crescimento observado nacionalmente.
Portanto, embora o deslocamento da margem eleitoral tenha ocorrido em todo o território nacional, a concentração do eleitorado nos grandes estados do Sudeste conferiu a essa região peso decisivo na composição aritmética da mudança do resultado nacional.
5. Nordeste: ampliação das vantagens de Lula
O Nordeste apresentou comportamento relativamente homogêneo na evolução da diferença eleitoral entre os dois candidatos. Em todos os nove estados, Lula ampliou sua vantagem percentual no segundo turno.
Os maiores deslocamentos relativos ocorreram em Alagoas, Sergipe, Paraíba e Rio Grande do Norte, enquanto os maiores crescimentos absolutos da votação de Lula foram registrados na Bahia, com 820.487 votos adicionais; Pernambuco, com 563.542; e Ceará, com 480.861.
Na Bahia, Flávio Bolsonaro também ampliou sua votação, em 166.176 votos, mas em quantidade bastante inferior à registrada por Lula. Situação semelhante ocorreu em Pernambuco e no Ceará, onde os crescimentos de Flávio Bolsonaro foram de 94.511 e 62.628 votos, respectivamente.
Em vários estados nordestinos, a ampliação da vantagem de Lula coincidiu com maior comparecimento eleitoral. A Bahia, por exemplo, registrou redução de aproximadamente 368 mil abstenções.
O comportamento, contudo, não foi uniforme quanto à participação. Maranhão e Piauí apresentaram aumento das abstenções, apesar da ampliação da vantagem de Lula. No Maranhão, Flávio Bolsonaro registrou inclusive diminuição absoluta de sua votação, de 9.069 votos.
Assim, o comportamento nordestino evidencia que a ampliação da margem favorável a Lula não esteve necessariamente condicionada à redução das abstenções, podendo ter resultado de combinações diferentes entre comparecimento, distribuição dos votos válidos e mudanças nas escolhas eleitorais.
6. Norte: aumento das abstenções e comportamento diferenciado da votação
A região Norte apresentou comportamento distinto do observado na maior parte do país, especialmente quanto à participação eleitoral.
As taxas de abstenção aumentaram nos sete estados da região, com destaque para Amapá, onde o crescimento foi de 8,06 pontos percentuais; Roraima, com 6,02; e Acre, com 5,65 pontos percentuais.
No Amazonas, Pará, Tocantins e Rondônia também houve elevação das taxas de abstenção, embora em intensidades menores.
Além disso, Flávio Bolsonaro perdeu votos absolutos entre o primeiro e o segundo turnos em cinco estados nortistas: Acre, Amapá, Amazonas, Roraima e Tocantins. A única outra unidade da Federação em que isso ocorreu foi o Maranhão.
No Acre, Flávio Bolsonaro perdeu 15.092 votos, enquanto Lula obteve 9.743 votos adicionais. No Amapá, a redução da votação de Flávio Bolsonaro foi de 13.604 votos, contra crescimento de 10.465 votos de Lula. Em Roraima, Flávio Bolsonaro perdeu 11.647 votos, enquanto Lula ampliou sua votação em 9.085.
Esses resultados sugerem a relevância de diferenças regionais na mobilização eleitoral. Entretanto, não permitem afirmar que os eleitores que deixaram de votar em Flávio Bolsonaro tenham necessariamente se abstido ou transferido seus votos para Lula.
A análise do Norte merece, portanto, aprofundamento por município e zona eleitoral, especialmente para identificar eventuais associações entre aumento das abstenções e redução da votação de determinados candidatos.
7. Sul e Centro-Oeste: manutenção das maiorias de Flávio Bolsonaro com redução das vantagens
Nos estados das regiões Sul e Centro-Oeste, Flávio Bolsonaro preservou suas maiorias eleitorais no segundo turno, mas registrou diminuição de suas vantagens percentuais em todas as unidades da Federação.
No Sul, Lula ampliou sua votação em 511.907 votos no Paraná, 529.793 no Rio Grande do Sul e 291.146 em Santa Catarina. Flávio Bolsonaro também cresceu nos três estados, respectivamente em 346.099, 300.595 e 220.051 votos.
A margem eleitoral deslocou-se em favor de Lula em 3,56 pontos percentuais no Paraná, 4,24 no Rio Grande do Sul e 2,77 em Santa Catarina.
No Centro-Oeste, Goiás registrou o maior crescimento absoluto da votação de Lula, com 396.675 votos adicionais, seguido pelo Distrito Federal, com 149.597; Mato Grosso, com 112.486; e Mato Grosso do Sul, com 112.118.
Flávio Bolsonaro também ampliou sua votação nas quatro unidades da região, mantendo a maioria dos votos válidos.
Goiás constitui caso relevante para investigar a possível influência dos candidatos eliminados, especialmente em razão da presença de Ronaldo Caiado na disputa presidencial do primeiro turno. Contudo, a comparação entre a votação de Caiado e o crescimento dos dois finalistas não permite identificar diretamente a transferência de seus votos.
De modo geral, o comportamento do Sul e do Centro-Oeste demonstra que a manutenção de maiorias favoráveis a Flávio Bolsonaro foi compatível com uma redução generalizada de suas vantagens percentuais.
8. A participação eleitoral e a redução dos votos brancos e nulos
Um dos principais fenômenos identificados na comparação entre os turnos foi a ampliação do número de votos efetivamente destinados aos finalistas, decorrente não apenas da eliminação dos demais concorrentes, mas também de mudanças no comparecimento e na incidência de votos brancos e nulos.
Nacionalmente, as abstenções diminuíram em 2.960.239 eleitores. Os votos brancos recuaram em 870.302 e os votos nulos em 950.944, totalizando redução de 1.821.246 votos não válidos.
Essas alterações representam conjuntamente 4.781.485 votos, correspondentes à diferença entre o crescimento total da votação dos finalistas e a quantidade de votos recebidos pelos candidatos eliminados no primeiro turno.
O dado mostra que a simples distribuição dos votos dos candidatos eliminados seria insuficiente para explicar a quantidade de votos recebidos pelos finalistas no segundo turno.
Entretanto, não é possível afirmar que esses 4,78 milhões de votos adicionais tenham constituído um contingente homogêneo de novos eleitores ou de eleitores que necessariamente passaram a votar de maneira válida. O valor corresponde ao saldo agregado de movimentos que podem ter ocorrido em direções distintas.
Também é importante distinguir as mudanças absolutas nas abstenções das mudanças em suas taxas, sobretudo diante de pequenas alterações registradas no eleitorado entre os turnos.
A distribuição territorial da participação mostra que o aumento nacional do comparecimento foi particularmente relevante nos grandes colégios eleitorais do Sudeste, enquanto os estados do Norte apresentaram comportamento contrário, com aumento das taxas de abstenção.
Essas diferenças reforçam a importância de examinar a participação eleitoral como variável autônoma, e não apenas como consequência das preferências pelos candidatos.
9. Considerações finais
A comparação dos resultados das eleições presidenciais de 2026 evidencia que a reversão da vantagem obtida por Flávio Bolsonaro no primeiro turno foi acompanhada de uma mudança abrangente na distribuição territorial dos votos, caracterizada pelo crescimento proporcionalmente maior da votação de Lula e pelo deslocamento da margem eleitoral em seu favor em todas as unidades da Federação.
O fenômeno apresentou dimensões distintas. No Sudeste, sobretudo em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, o tamanho dos colégios eleitorais conferiu às alterações de votação peso expressivo na diferença nacional entre os candidatos. Minas Gerais destacou-se pela inversão da maioria entre os dois finalistas, enquanto Rio de Janeiro e São Paulo apresentaram reduções relevantes das vantagens de Flávio Bolsonaro.
No Nordeste, Lula ampliou suas vantagens em todos os estados, com crescimento expressivo de sua votação tanto em termos absolutos quanto relativos. No Sul e no Centro-Oeste, Flávio Bolsonaro preservou a maioria dos votos válidos, mas teve suas vantagens reduzidas. Já a região Norte apresentou comportamento diferenciado quanto à participação eleitoral, com aumento generalizado das taxas de abstenção e diminuição absoluta da votação de Flávio Bolsonaro em cinco estados.
Outro aspecto relevante diz respeito aos votos dos candidatos eliminados. Embora os candidatos identificados na planilha como apoiadores de Flávio Bolsonaro reunissem aproximadamente 6,42 milhões de votos no primeiro turno, o crescimento efetivo da votação do candidato no segundo foi de 3,72 milhões. A comparação evidencia os limites da utilização dos apoios políticos como instrumento de previsão ou explicação direta das transferências de votos, uma vez que as decisões individuais dos eleitores não podem ser deduzidas exclusivamente das orientações de seus candidatos.
A ampliação do comparecimento e a redução dos votos brancos e nulos constituem outra dimensão fundamental da mudança eleitoral. A diminuição de quase três milhões de abstenções, associada à redução de 1,82 milhão de votos brancos e nulos, contribuiu para ampliar o número de votos válidos no segundo turno, modificando a composição do eleitorado efetivamente participante.
Em síntese, os resultados indicam que a mudança nacional não pode ser explicada por um único fator, mas pela combinação de crescimento desigual da votação dos finalistas, redistribuição territorial das preferências agregadas, alterações na participação eleitoral e redução dos votos brancos e nulos.
A análise demonstra a relevância de considerar simultaneamente a dimensão territorial, a participação eleitoral e a distribuição dos votos válidos para compreender a dinâmica de eleições decididas em segundo turno. Ao mesmo tempo, evidencia os limites dos dados agregados para identificar comportamentos individuais, recomendando-se, para investigações posteriores, o cruzamento dos resultados com informações municipais e por zona eleitoral, além de pesquisas sobre a escolha dos eleitores entre os dois turnos.
Quanto às causas da vitória de Lula, é tema que requer exame mais aprofundado: não apenas os méritos dos candidatos devem ser considerados, mas o somatório de fatores que vão da arrogância e má conduta de Flávio Bolsonaro nos debates televisionados, a explicitação – antes da vitória consumada – de medidas de impacto negativo sobre a população, o “salto alto” de seus assessores imediatos, que começaram a posar como potenciais ministros, o capacitismo do candidato e seu desrespeito aos idosos e pessoas com deficiência, a sua postura antidemocrática, a ausência de seu principal cabo eleitoral na campanha (o pai, em prisão domiciliar, condenado por crimes diversos contra a ordem democrática), as denúncias que se avolumaram ao longo da campanha, desconstruindo sua imagem de “probidade” e austeridade, podem ter tido impacto relevante na sua incapacidade de crescimento no segundo turno. Já Lula, que completa 81 anos em 27 de outubro, reforçou sua presença nas ruas, nas redes sociais, e adotou bandeiras sociais de grande impacto, como a defesa da jornada 5×2, o apoio a microempreendedores individuais, do combate ao feminicídio, proposta de transporte gratuito e melhorias na segurança pública. A mobilização por meio do “Exército de Lula”, com mais de 11 milhões de participantes arregimentados e liderados por André Janones, as grandes manifestações populares, como em Porto Alegre, São Paulo e Belo Horizonte, mostraram que o candidato não estava “morto”, nem derrotado. A sua energia e entusiasmo foram multiplicados pela força das ruas e das redes sociais.
Os próximos 4 anos, porém, não serão fáceis para Lula: um Congresso hostil, um Senado dominado pela extrema direita, e a postura do candidato derrotado, serão grandes desafios para que não apenas consiga cumprir suas promessas, mas assegurar a própria governabilidade do país.
Em 26 de outubro de 2026.
LUIZ ALBERTO DOS SANTOS – Advogado – OAB RS 26.485 e OAB DF 49.777. Consultor. Sócio da Diálogo Institucional Assessoria e Análise de Políticas Públicas.
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